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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
emagrecimento

Uso indiscriminado de canetas para obesidade desconsidera riscos graves à saúde

opularizadas para perda de peso rápida e luta contra obesidade, medicações como Ozempic e Mounjaro podem provocar efeitos adversos raros, porém graves, quando usadas sem indicação clínica e acompanhamento médico

Anna Salgadopor Anna Salgado em 5 de fevereiro de 2026
obesidade
Foto: Adobe Stock

O cenário da medicina voltada ao tratamento da obesidade passou por uma transformação radical nos últimos anos com a ascensão das chamadas “canetas emagrecedoras”, como o Ozempic e o Mounjaro. Originalmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2, essas medicações ganharam os holofotes pela sua expressiva capacidade de promover a perda de peso. No entanto, a popularidade massiva trouxe consigo alertas de agências reguladoras internacionais sobre efeitos adversos raros, mas graves, como a pancreatite aguda.

A discussão, no entanto, deve fugir do sensacionalismo. Especialistas reforçam que, embora o risco exista, ele precisa ser compreendido dentro de um contexto de uso supervisionado e indicações precisas. O médico endocrinologista Matheus Felipe destaca que o primeiro passo é entender que a obesidade não é uma questão estética, mas sim uma condição clínica: “A gente prefere utilizar esse termo medicação para obesidade no lugar de medicamento para emagrecimento. Porque, assim como qualquer outra doença, a gente entende que a obesidade por si só é uma doença”.

Recentemente, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) emitiu um alerta sobre casos de pancreatite aguda grave associados ao uso de agonistas de GLP-1 (como semaglutida) e agonistas duplos de GIP/GLP-1 (como tirzepatida). Segundo os dados oficiais britânicos, foram registrados 1.296 casos de pancreatite associados a esses hormônios entre 2007 e outubro de 2025, dos quais 19 foram fatais.

Apesar do número parecer alto isoladamente, ele deve ser lido com cautela para evitar alarmismo. Estima-se que, no mesmo período de cinco anos no Reino Unido, foram distribuídas aproximadamente 25,4 milhões de embalagens desses medicamentos. Ou seja, estatisticamente, o risco de desenvolver pancreatite aguda está na ordem de 0,1 a 1 caso a cada 100 usuários.

Para Matheus Felipe, a segurança do paciente está diretamente ligada ao acompanhamento profissional, o que evita que casos raros se tornem tragédias por falta de monitoramento. Felipe ressalta que “o uso das medicações para obesidade, a longo prazo e a curto prazo, não trazem riscos desde que você tenha um acompanhamento com o endocrinologista”.

A pancreatite aguda é a inflamação do pâncreas e pode ser difícil de reconhecer em seus estágios iniciais, já que os sintomas muitas vezes se confundem com efeitos colaterais comuns e considerados leves do tratamento, como náuseas e vômitos. 

No entanto, existem sinais claros de alerta que exigem atendimento médico urgente, como dor abdominal intensa e persistente, geralmente localizada na região superior do abdômen, além da irradiação dessa dor para as costas, de forma característica, como se fosse uma “faixa” ao redor do corpo. Diferentemente do enjoo comum associado à medicação, esse quadro costuma ser acompanhado por náuseas e vômitos associados à dor severa. Além da pancreatite, as medicações também podem provocar complicações na vesícula biliar. O problema, em muitos casos, começa com a formação de lodo biliar, que pode evoluir para cálculos, obstruir a vesícula e, consequentemente, desencadear uma pancreatite. 

A velocidade da perda de peso é um fator que influencia diretamente esse risco, já que quanto mais rápido ocorre o emagrecimento, maior é a chance de complicações biliares.

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Foto: Freepik

Prevenção e predisposição: o papel do exame de rotina na luta contra a obesidade

Para quem já possui predisposição a doenças do pâncreas ou da vesícula, a vigilância deve ser redobrada. Profissionais recomendam que, antes de iniciar o uso das canetas, o paciente realize exames preventivos. Um ultrassom de abdômen é considerado essencial para avaliar a saúde da vesícula e identificar previamente a presença de pedras ou lodo.

Matheus Felipe alerta que a automedicação ignora essas triagens vitais. Ele observa que o desejo social pela magreza extrema tem levado pessoas sem indicação clínica a buscarem o remédio por conta própria: “É típico daqueles pacientes que não têm obesidade nem sobrepeso, mas que estão ali usando a medicação sem necessidade, na busca de uma magreza extrema, por conta de padrões de beleza muito imponentes que a gente encontra na nossa sociedade e também inalcançáveis”.

Segundo o médico, as canetas são indicadas principalmente para pacientes com IMC acima de 30, ou seja, que já se encontram no quadro de obesidade. Usar a droga para perder apenas “alguns quilos” por estética inverte a lógica de risco-benefício.

Além dos riscos graves e raros, o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro envolve uma série de reações mais comuns que o paciente precisa conhecer para não se assustar, mas sim gerenciar em conjunto com seu médico.

Entre os efeitos mais frequentes estão os distúrbios gastrointestinais. Náuseas, diarreia e vômitos são observados em grande parte dos pacientes, especialmente no início do tratamento ou durante os aumentos de dose.

Outro efeito relatado são as alterações no paladar. Uma pesquisa recente indicou que cerca de um em cada cinco usuários percebe mudanças no sabor dos alimentos, passando a sentir itens mais doces ou mais salgados do que antes. Isso ocorre porque os medicamentos atuam não apenas no intestino, mas também nas células das papilas gustativas e em regiões cerebrais responsáveis pelo processamento do sabor.

No caso da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, o retardo do esvaziamento gástrico pode interferir na absorção de anticoncepcionais orais, reduzindo sua eficácia em até 20%. Essa condição tem sido associada a relatos de gravidez não planejada, conhecidos como os chamados “bebês do Ozempic”. Diante desse cenário, especialistas recomendam o uso de métodos contraceptivos de barreira, como preservativos, especialmente no início do tratamento.

Um ponto fundamental defendido por Matheus Felipe é que a caneta não faz milagres sozinha. O tratamento da obesidade deve ser holístico. “A gente inicia a medicação desde que o paciente também faça o tratamento não medicamentoso. Isso inclui a dieta, acompanhamento com o nutricionista e a prática de exercício físico regular.” Sem essa mudança na base do estilo de vida, o risco de reganho de peso (efeito rebote) após a interrupção é altíssimo.

Em seu consultório, o médico nota que o perfil que mais busca o tratamento são mulheres acima de 40 anos, mas ressalta que jovens e adolescentes também podem se beneficiar, desde que o foco seja a saúde. “Usar essas medicações com indicação e seguimento médico é saudável, mas usar essas medicações sem indicação e sem seguimento médico nunca vai ser saudável.”

As canetas emagrecedoras representam um avanço científico inegável para quem luta contra a obesidade e o diabetes. O alerta sobre a pancreatite e outros efeitos raros serve não para banir o uso, mas para elevar o padrão de cuidado.

A detecção precoce dos sinais, como a dor abdominal persistente,  e a realização de exames de imagem prévios são as melhores defesas do paciente. Como resume o endocrinologista, o segredo para o sucesso e a segurança do tratamento é a orientação profissional: “Nunca utilize qualquer medicamento por conta própria, por orientação de amiga. Sempre consulte um médico endocrinologista para você saber qual a melhor medicação para o seu caso, como progredir a dose, como regredir a dose e como manejar os efeitos colaterais”

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