Recuperações judiciais no agro disparam e acendem alerta para 2026
Pressão financeira, juros elevados e conflitos judiciais colocam produtores rurais em situação crítica e indicam agravamento da crise no campo brasileiro
O número de recuperações judiciais no agro brasileiro segue em ritmo acelerado e já preocupa produtores, entidades do setor e especialistas. No quarto trimestre de 2025, 493 empresas do agro estavam em recuperação judicial, um crescimento de 67% em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Monitor RGF. O avanço reflete um cenário de forte pressão financeira no campo e indica que a crise pode se intensificar ao longo de 2026.
Entre os segmentos mais afetados, o cultivo de soja lidera os pedidos de recuperação. Ao fim de 2025, 217 empresas produtoras estavam nessa situação, mais que o dobro do registrado um ano antes.
A combinação de custos elevados, preços mais baixos da commodity, restrição de crédito e juros altos empurra produtores para medidas extremas. Mesmo antes da colheita, muitos agricultores já recorrem ao Judiciário para evitar a apreensão de máquinas, a perda de terras e a interrupção das atividades.
Além disso, o ambiente jurídico se tornou um fator de instabilidade. Em diversas regiões do País, produtores enfrentam negativas de prorrogação de dívidas, mesmo em casos de quebra de safra, e ações rápidas de busca e apreensão movidas por instituições financeiras. Esse cenário gera insegurança jurídica justamente no momento mais sensível do ciclo produtivo.
Juros abusivos e legislação no agro
No centro do embate estão os juros considerados abusivos. A legislação do crédito rural prevê taxas subsidiadas e garante a prorrogação das dívidas em situações de força maior. No entanto, no caso analisado, a instituição financeira chegou a cobrar juros próximos de 20% ao ano. Uma decisão de segunda instância suspendeu a execução da dívida e determinou a devolução das máquinas, garantindo fôlego temporário ao produtor.
Enquanto isso, os prejuízos se acumulam. Custos logísticos, perdas de safra e falta de capital agravam a situação no campo. Para especialistas, o aumento da judicialização expõe um problema estrutural entre o sistema financeiro e a realidade do agronegócio.
Sem segurança para plantar, o produtor vê a dívida crescer e a capacidade de recuperação diminuir, colocando em risco não apenas negócios individuais, mas a própria sustentabilidade do setor.
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