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“Cancelas são fita de isolamento”, diz especialista após Marginal ceder com chuva em Goiânia

Trecho em meia-pista confirma alerta de que tecnologia com cancelas não resolve falhas históricas de drenagem e planejamento urbano

Renata Ferrazpor em
Marginal
Erosão nas imediações da ponte da Rua 21 levou à interdição parcial e trânsito em meia pista; prefeitura iniciou obra emergencial para conter o avanço - Foto:Divulgação/SET

A Marginal Botafogo ganhou, no domingo (8), novos totens de monitoramento com cancelas automáticas no Complexo Jamel Cecílio, promessa da prefeitura de Goiânia para fechar vias “de forma mais inteligente” durante temporais. No entanto, poucas horas depois, a própria marginal voltou a dar sinais de esgotamento.

Uma erosão nas proximidades da ponte da Rua 21, no Centro, provocou interdição parcial e trânsito em meia-pista, com desvio pela alça da 11ª Avenida no sentido Centro. O contraste entre a tecnologia recém-instalada e o asfalto cedendo reforçou uma crítica que já circulava desde o anúncio da medida: a cancela controla o tráfego, mas não segura a estrutura.

A Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) afirmou que interditou o trecho entre a Rua 21 e a Rua 10 para uma obra emergencial de contenção, a fim de “garantir a segurança do tráfego” até a conclusão de um projeto definitivo de drenagem e contenção. 

O secretário Francisco Lacerda atribuiu os danos ao desgaste de um canal construído em meados de 1978, apontando impactos acumulados por grandes volumes de água no período chuvoso e ações químicas e ambientais que aceleram a deterioração. Na prática, a prefeitura reconhece o caráter paliativo da intervenção: recompõe encosta, recupera pontos do leito e estabiliza a área afetada para reduzir riscos imediatos mas ainda sem entregar a solução estrutural prometida.

É justamente aí que a avaliação do urbanista Fred Le Blue ganha peso no desdobramento desta semana. Antes mesmo do novo processo erosivo, ele já tratava as cancelas como resposta provisória, comparando o bloqueio de vias a um aviso de emergência, não a uma correção do problema. Agora, com a marginal novamente comprometida, o especialista endurece o diagnóstico e coloca a erosão como consequência previsível.

“O nosso ‘cancelamento’ das cancelas foi legítimo, porque quase toda extensão da marginal está à beira do abismo. A erosão já estava anunciada, assim como as estruturas de viadutos e pontes, que por sorte, não caíram dessa vez.” Para ele, o episódio não é “azar” nem evento isolado: é sinal de uma infraestrutura que opera no limite.

Fred também amplia a crítica para além do ponto onde a pista cedeu. Ele afirma que o desenho urbano da marginal empurrou o canal e a via para um cenário de risco contínuo, agravado por ocupações e decisões históricas sobre uso do solo: “Esse novo capítulo dessa novela revela que o recuo entre a pista e o canal é inócuo e que o canal, em função também dos terrenos grilados, doados ou vendidos às margens da Marginal, foi projetado de forma mal dimensionada em relação ao volume de água.” 

Na leitura do urbanista, a política pública se concentrou em reagir aos sintomas, alagamento e risco imediato enquanto o problema real segue crescendo por baixo: drenagem insuficiente, canal dimensionado aquém das necessidades atuais e um corredor urbano que envelhece sem requalificação profunda.

Enquanto isso, o prefeito Sandro Mabel defende que os totens não servem apenas para “abaixar a cancela”. Ele diz que o sistema opera o ano inteiro com câmeras, sensores, painéis de LED e inteligência artificial para orientar motoristas em tempo real e permitir “fechamentos mais pontuais”. A prefeitura também afirma que os equipamentos podem ser remanejados quando obras maiores, como os “piscinões”, saírem do papel. 

Para Fred, porém, o simbolismo da cancela fala mais alto do que a tecnologia embarcada: “As cancelas seguem sendo o equivalente à fita listrada amarelo e preta da vigilância sanitária, indicando que algo da política pública de gestão da infraestrutura, da mobilidade e da drenagem ruiu”. Ou seja: o equipamento até ajuda a reduzir a exposição ao perigo, mas confirma que o perigo já se instalou.

O urbanista aponta que a Marginal Botafogo virou um retrato de falhas encadeadas: planejamento de drenagem, controle do uso do solo, zeladoria e educação ambiental. E, ao projetar o futuro, ele defende uma mudança de lógica: em vez de insistir em “segurar” uma estrutura sempre no limite, a cidade deveria redesenhar o corredor. 

Fred sugere transformar a marginal em parque linear, com requalificação ambiental e retomada de ideias do projeto urbano original de Goiânia, citando Attílio Corrêa Lima. A proposta tem ambição e custo, mas também dialoga com um fato que a erosão aponta: remendos sucessivos tendem a perder para a próxima chuva forte.

Goiás em alerta: clima pode piorar a pressão sobre a Marginal

11 abre 2 - Com alerta para pancadas intensas e rajadas acima de 50 km_h em Goiás, temporais podem ampliar alagamentos e acelerar novos danos ao trecho-Foto_ Equatorial
Foto: Equatorial Goiás

O cenário meteorológico desta semana reforça a preocupação com a Marginal Botafogo. Um informativo do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) indica que Goiás entra em alerta para instabilidades associadas à convergência de um corredor de umidade sobre o Brasil Central, somada ao avanço de uma frente fria pelo Sudeste. 

Na prática, isso significa aumento de áreas de instabilidade, com pancadas localmente fortes, potencial para descargas elétricas e rajadas de vento acima de 50 km/h, combinação que costuma elevar ocorrências de alagamentos, quedas de árvores e danos a estruturas urbanas.

O boletim destaca risco potencial para tempestades em diversas regiões do Estado e aponta volumes que podem variar entre 20 e 40 mm por hora, com possibilidade de superar 50 mm em um dia, além de ventos fortes e raios. Para uma via como a Marginal Botafogo, que canaliza água, recebe escoamento de diferentes áreas e convive com histórico de sobrecarga chuvas intensas funcionam como “teste de estresse”. 

Se a drenagem já opera no limite, cada evento mais severo aumenta a chance de novos processos erosivos, deslocamento de materiais, danos em encostas e necessidade de interdições emergenciais.

A própria prefeitura admite que atua, agora, para “preservar a estrutura” até a conclusão do projeto definitivo. Só que, com a previsão de instabilidade, esse intervalo vira um período de maior vulnerabilidade: a erosão pode avançar, o asfalto pode perder a base e o canal pode sofrer desgaste acelerado. 

O risco não se resume ao trânsito lento; ele se estende à segurança viária e à integridade das estruturas próximas, como pontes e viadutos, especialmente quando o solo permanece encharcado e a água encontra caminhos por baixo da pista.

Além disso, o clima severo tende a gerar efeitos em cascata. A Equatorial Goiás, por exemplo, informou que monitora condições climáticas 24 horas por dia e mantém equipes em prontidão diante de temporais, já que ventos e alagamentos podem provocar interrupções por queda de árvores e danos à rede.

Leia mais: Saiba como fica a previsão do tempo para esta terça-feira (10) em Goiânia

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