Safra de soja enfrenta clima irregular, queda de produtividade e margens apertadas
Atraso no plantio da soja, colheita travada pelas chuvas e custos elevados pressionam a rentabilidade do produtor goiano
O ciclo da soja 2025/26 em Goiás tem sido caracterizado por uma série de desafios que testam a resiliência e a capacidade estratégica dos produtores rurais. Desde o início dos trabalhos, a irregularidade climática impôs um ritmo lento ao plantio, e agora, com o início da colheita, novos obstáculos, tanto meteorológicos quanto econômicos, surgem no horizonte. O Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária em Goiás (Ifag) tem acompanhado de perto essa evolução, sinalizando uma safra de margens apertadas e produtividade levemente inferior à do ciclo anterior.
A instalação da safra de soja foi marcada por um atraso expressivo em relação à média histórica e ao ciclo passado. Até o final de outubro, apenas 15,96% dos 5 milhões de hectares previstos haviam sido semeados em território goiano, um percentual significativamente abaixo da média nacional de 36% para o mesmo período.
Essa lentidão foi consequência direta da irregularidade das chuvas em outubro, fenômeno típico de anos sob influência do La Niña, que provoca precipitações mal distribuídas e concentradas. Embora o vazio sanitário da soja tenha terminado em 25 de setembro, muitos agricultores optaram por aguardar condições de umidade mais favoráveis para garantir a germinação e a uniformidade das plantas, evitando perdas precoces.
Regionalmente, o Sudoeste goiano liderou o progresso da semeadura inicial da soja, com municípios como Montividiu atingindo 70% de sua área e Rio Verde chegando a 50% ainda em outubro. Em contraste, regiões como o Entorno do Distrito Federal e o Sudeste apresentaram um ritmo muito limitado; cidades como Cristalina e Luziânia não passavam de 3% da área semeada naquele momento, aguardando a normalização das chuvas.
Ciclo da soja em Goiás
Atualmente, o cenário em Goiás é de início de colheita da soja, mas o ritmo segue ditado pelo clima. De acordo com Leonardo Machado, gerente técnico do Ifag, o Estado encontra-se na “reta de largada”, com cerca de 2% a 3% da área total colhida. Esse avanço concentra-se principalmente nas lavouras de ciclo precoce do Sudoeste, incluindo Jataí, Rio Verde e Mineiros.
Entretanto, o trabalho das colheitadeiras tem sido travado por chuvas frequentes nessas regiões. “A colheita está sendo muito travada pela chuva”, observou Machado, relatando que a umidade elevada reduz a velocidade das máquinas no campo. Apesar da lentidão operacional, o Ifag destaca que, até o momento, não há uma preocupação crítica com a degradação da qualidade dos grãos que estão sendo retirados do campo.
As projeções de produtividade para esta safra da soja são mais conservadoras do que as do ano passado. Enquanto o ciclo anterior registrou uma média de 70 sacas por hectare, as expedições de safra do Ifag indicam agora uma média entre 66 e 68 sacas por hectare. Com isso, a produção total de Goiás deve ficar ligeiramente abaixo do teto de 20 milhões de toneladas, um recuo em relação ao recorde anterior.
A saúde das plantas também exige atenção redobrada. Durante o desenvolvimento das lavouras, foi registrada a presença recorrente de mosca-branca, além de plantas daninhas como o pé-de-galinha e o caruru. Com o atual excesso de umidade no final do ciclo, o alerta se volta para as doenças fúngicas e de fim de ciclo, incluindo casos isolados de ferrugem asiática. O produtor deve manter o afinco no controle fitossanitário para evitar que a umidade elevada comprometa o potencial produtivo remanescente.
Um dos pontos de maior preocupação para o setor é a rentabilidade. O cenário econômico de 2025 combina custos de produção elevados com preços de comercialização mitigados. Cálculos do Ifag apontam que um produtor em terra própria precisa de pelo menos 55 sacas por hectare apenas para cobrir seus custos, considerando o valor da saca em torno de R$ 110. No mercado futuro, as negociações têm ocorrido na casa dos R$ 108 para entrega em fevereiro.
A comercialização da soja está avançando lentamente, com apenas cerca de 35% da produção vendida até o momento. A tendência é que, com o avanço da colheita e o aumento da oferta, os preços sofram ainda mais pressão negativa. Por isso, a recomendação técnica é que o produtor seja extremamente criterioso na tomada de decisão e na gestão de custos para manter a sustentabilidade do negócio.
O atraso inicial na soja gerou uma preocupação imediata com a janela de plantio da segunda safra, especialmente do milho. Em Goiás, a data limite considerada ideal para o plantio do milho safrinha é 20 de fevereiro.
Diante do risco climático, observa-se uma mudança de comportamento: o produtor goiano está mais consciente e avesso a riscos. Aqueles que não conseguirem plantar milho dentro da janela de segurança devem migrar para culturas alternativas, como o sorgo e o girassol, que possuem maior resistência e flexibilidade. Embora se espere um crescimento na área de milho, o incremento proporcional deve ser maior para essas outras culturas de segunda safra.