Custo de vida consome até 60% da renda das famílias goianas e aperta orçamento
Supermercado, contas fixas e moradia lideram gastos mensais do custo de vida; especialista afirma que sensação de perda do poder de compra é realidade no Estado
Manter as contas em dia tem se tornado um desafio crescente para as famílias goianas. Pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, revela que o custo de vida médio em Goiás chega a R$ 3.370 por mês, posicionando-se na 9ª colocação no ranking nacional, em média, o custo de vida mensal do brasileiro é de R$ 3.520, e o Estado goiano é o primeiro abaixo da média nacional de gastos. O valor considera despesas com moradia, supermercado, contas recorrentes, transporte, saúde, educação e lazer.
Entre os principais gastos, supermercado, contas fixas e moradia concentram 57% do orçamento mensal dos brasileiros. Na prática, isso significa que mais da metade da renda familiar já está comprometida com despesas essenciais, aquelas que não podem ser adiadas.
Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, esse percentual elevado reduz a capacidade de reação das famílias diante de aumentos de preços. “Quase 60% da renda já comprometida, é um problema porque não tem muito espaço de manobra. Se a gente tem uma alteração de preço, tem inflação, acaba que vai pesar muito mais essa parcela que é grande desse orçamento”, afirma.
Segundo ele, essa estrutura de gastos limita não apenas o consumo, mas também a capacidade de poupança. “O outro problema é que para outros gastos a gente não tem orçamento. O que pode levar as pessoas a não conseguirem pagar suas contas, poupar e fazer novas reservas”, explica. E diante de qualquer imprevisto, a saída pode ser o endividamento, que tende a se transformar em uma bola de neve.
A percepção de que o dinheiro não rende também aparece na pesquisa. Apenas dois em cada dez brasileiros consideram fácil gerenciar pagamentos e despesas do dia a dia. Em Goiás, a sensação de aperto se intensificou nos últimos anos.
Ongaratto avalia que esse sentimento não é apenas subjetivo. “A gente teve um aumento do custo de vida em Goiânia muito rápido nos últimos anos. E antes, você não tinha uma margem maior, você não gastava esses 57% da sua renda só com o básico, então esse valor era menor. Quando esse valor que ele independe dos seus gastos, ele começa a ficar maior, a sensação de perda de poder de compra é ainda mais intensificada”, destaca.
Ele lembra que, no período pós-pandemia, houve geração de empregos, mas sem avanço proporcional da renda. “Se gerou muito emprego, porém o salário não reage, ele está em um ponto mais baixo do que deveria estar. Então você não compara a sua renda e o seu custo de vida com o vizinho, compara com aquilo que você vivenciou tempos atrás”, pontua.
Entre os fatores que mais pressionaram o orçamento em Goiás, o economista cita o reajuste da energia elétrica, que se aproximou de 20% no último ano. O aumento nos preços dos imóveis e dos aluguéis também elevou o peso da moradia. A alimentação, especialmente fora de casa, completa o cenário de pressão, impulsionada pela inflação de serviços.
A realidade do custo de vida do goiano
A realidade se reflete na rotina de famílias como a do auxiliar administrativo Carlos Henrique Souza, 38 anos, casado e pai de dois filhos. A casa vive com renda equivalente a dois salários mínimos, atualmente em R$ 1.621 cada, totalizando R$ 3.242 por mês.
“Só de aluguel pagamos R$ 900. Supermercado passa fácil de R$ 800. Quando somamos luz, água, internet e transporte, quase não sobra nada”, relata. Segundo ele, despesas extras, como material escolar ou remédios, exigem cortes em outras áreas. “Lazer quase não existe mais. A gente prioriza o essencial.”
Diante desse cenário, o especialista defende consumo consciente e revisão constante das despesas. “Se ele é necessário, qual é o recurso que eu estou utilizando aquele gasto, cheque especial? Crédito rotativo? Evitar qualquer tipo de operação financeira com juros abusivos”, orienta. Ele também recomenda cautela até mesmo com modalidades consideradas acessíveis, como o crédito consignado, devido ao custo financeiro.
A formação de reserva, sempre que possível, é outro ponto destacado. “Tem que criar o hábito de poupar”, afirma Ongaratto. No entanto, ele reconhece que, em períodos de forte alta do custo de vida, mesmo famílias organizadas enfrentam dificuldades.
Com despesas básicas cada vez mais pesadas e renda pressionada, o orçamento doméstico exige planejamento rigoroso. Para muitas famílias goianas, a estratégia tem sido rever contratos, renegociar contas e apertar o cinto. A sensação de aperto, indicam os números e os relatos, não é apenas percepção: tornou-se parte da rotina financeira.