sexta-feira, 16 de outubro de 2026
história

A trajetória de glória, ruína e o futuro incerto do Jóquei Clube de Goiás

Eleição apertada marca reviravolta administrativa no tradicional Jóquei clube goianiense, que planeja transferir atividades para o Hipódromo da Lagoinha diante do impasse envolvendo a sede histórica no Centro

Anna Salgadopor em
Encontro entre representantes da Prefeitura de Goiânia e do Jóquei Clube marcou o início das negociações técnicas para redefinir dívidas e o futuro da sede no Centro da capital
Foto: Reprodução/TV Anhanguera

No coração da Avenida Anhanguera, no Setor Central de Goiânia, ergue-se uma estrutura de concreto que, para muitos, hoje não passa de um “elefante branco”. As paredes brutalistas do Jóquei Clube de Goiás (JCG), no entanto, guardam quase nove décadas de uma história que se entrelaça com a própria fundação da Capital. Atualmente, o clube atravessa um momento de transição dramática, marcado pelo abandono físico e por uma intensa disputa judicial e política que envolve novas eleições internas e um decreto de desapropriação pela prefeitura.

A história do Jóquei teve início em 1938, sob o nome de Automóvel Clube de Goiás. Segundo a historiadora Natane Rincon Azevedo, o lançamento da pedra fundamental ocorreu em 1935, evidenciando que a construção do clube se deu paralelamente à de Goiânia. “Era uma forma de lazer ‘moderna’ e diferente do que se havia em Goiás naquele momento”, afirma Natane, destacando que a inauguração contou com a presença de Pedro Ludovico Teixeira e Getúlio Vargas.

Nos primeiros anos, a sede apresentava arquitetura eclética, com traços de chalés e casarões coloniais. Tornou-se ponto de encontro oficial da elite política e econômica da nova Capital, palco de bailes de gala, carnavais memoráveis e apresentações de grandes orquestras. Entre 1947 e 1950, o clube recebeu doações do Estado, ampliou suas atividades para o hipismo e consolidou-se como referência social.

Com a expansão de Goiânia nos anos 1950 e o surgimento de clubes rivais na década seguinte, os sócios entenderam que a sede precisava acompanhar a nova feição da modernidade. O antigo casarão foi demolido para dar lugar a um projeto arrojado do renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, vencedor de concurso nacional em 1962.

A nova sede do Jóquei, concluída em 1975, transformou-se em marco do brutalismo, com traços fortes, pilares grandiosos e integração entre concreto e verde. Natane Azevedo observa que, a partir desse período, o público passou a incluir a classe média, especialmente jovens que fizeram do clube o centro da “era de ouro” do basquete goiano, formando atletas de nível olímpico.

Ainda assim, a arquitetura de vanguarda não impediu a descaracterização ao longo das décadas. “A construção de um muro ao redor do prédio foi uma alteração bastante significativa no projeto original”, critica Natane, ressaltando que a mudança simbolizou o afastamento das classes populares em um Centro cada vez mais diversificado.

O olhar dos especialistas: patrimônio e função social

A relevância do edifício é defendida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU/GO), que protocolou pedido de tombamento federal em 2017. Em nota oficial, o conselho afirma que “áreas sem uso tendem a sofrer processos acelerados de degradação física e perda de valor cultural”. O CAU/GO também reforça que qualquer novo uso deve “respeitar as características do projeto original de Paulo Mendes da Rocha, adotando soluções arquitetônicas sensíveis e criteriosas”.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), embora tenha apreciado a solicitação de tombamento em 2017 do Jóquei, decidiu pelo indeferimento do processo em sua Câmara Técnica Setorial. Para uma eventual preservação da autenticidade, técnicos indicam a necessidade de manter o sistema construtivo em concreto, a linguagem brutalista e as leituras espaciais dos vãos e pavimentos.

A arquiteta e urbanista Maria Esther Ribeiro acrescenta uma perspectiva crítica sobre o destino do espaço. Para ela, a desapropriação torna o edifício propriedade pública, o que exige debate amplo sobre sua integração à cidade. “Para você dar um uso integrado à cidade, a população precisa ser ouvida. Quem mora na região tem que ser ouvido”, defende. Maria Esther demonstra ceticismo em relação a propostas de gabinete, como a transformação do local em um “hub de games”: “O que ele não deve ser é demolido, porque tem uma expressão formal riquíssima para a arquitetura brasileira”.

A crise do Jóquei se aprofundou nas décadas de 1990 e 2000. A proliferação de condomínios fechados com áreas de lazer privativas, a migração da elite para setores como Bueno e Marista e a má administração resultaram em endividamento considerado insolúvel. Em 2015, o fornecimento de água e energia foi interrompido por falta de pagamento.

Um dos episódios mais polêmicos foi a parceria com a Faculdade Padrão, que levou à derrubada do histórico bosque do clube para a criação de estacionamento. “Essa remoção eliminou a relação mais interessante da proposta de Mendes da Rocha, que era a conexão entre o bosque e as águas”, lamenta a historiografia do local.

joquei
Foto: Reprodução

Cenário atual do Jóquei: eleições e desapropriação

O Jóquei Clube de Goiás vive hoje um momento decisivo, marcado por uma reviravolta administrativa. Em 19 de janeiro de 2026, por determinação judicial, o clube realizou eleições para definir sua direção. A Chapa “Novo Jóquei”, liderada pela advogada Nívea Cristina Ribeiro de Paula, venceu com 131 votos, superando a situação por margem apertada.

Mabel assinou decreto de utilidade pública em 2025 com a proposta de transformar o espaço em arena multiuso, centro cultural e hub de inovação e tecnologia. “Cidade que não tem patrimônio, que não tem história, não é uma cidade”, afirmou o prefeito. A indenização foi estimada em R$ 55,4 milhões, valor que a prefeitura tentou compensar com débitos tributários do clube, medida que ainda enfrenta resistência judicial.

Nívea de Paula assumiu prometendo regularização jurídica, ética e fiscal. “Essa vitória representa um resgate para as famílias joqueanas. Queremos olhar para o futuro, regularizar e cumprir obrigações”, declarou a nova presidente. Entre os desafios estão uma dívida já estimada em R$ 40 milhões e o processo de desapropriação conduzido pelo prefeito Sandro Mabel.

A desapropriação do Jóquei, ocorre em um contexto mais amplo de reestruturação da região central. O Governo de Goiás concluiu recentemente a compra do prédio da antiga superintendência regional da Caixa Econômica Federal, na mesma Avenida Anhanguera, por R$ 101,6 milhões. O imóvel deverá abrigar o Procon Goiás e departamentos das secretarias estaduais de Administração e Saúde, dentro de um plano de criação de um novo centro administrativo na área. O projeto prevê integração com equipamentos públicos próximos, incluindo o Centro de Convenções, e já havia mencionado, anteriormente, a possibilidade de intervenções na área do antigo Jóquei.

A nova diretoria obteve vitória simbólica e material com a reintegração de posse da área do estacionamento, sob domínio da Faculdade Padrão por décadas. Segundo Nívea de Paula, o plano é reestruturar o Hipódromo da Lagoinha como nova sede administrativa e social, caso a desapropriação da unidade do Centro seja confirmada. “Nossa intenção é construir um novo Jóquei, com uma sede social, áreas esportivas e um memorial próprio”, afirmou ao Jornal Opção.

O futuro do projeto de Paulo Mendes da Rocha permanece indefinido. As discussões em curso, porém, evidenciam que o Jóquei Clube ultrapassa a condição de propriedade privada em ruínas e se consolida como campo de disputa simbólica pela identidade urbana de Goiânia. Como resume Natane Azevedo, “a verdadeira ruptura com a memória urbana será se o local perder o seu propósito cultural e esportivo”.

 

Leia mais: Motorista é presa após dirigir embriagada, bater em árvore e morder agente penal em Inhumas; veja o vídeo

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

VÍDEO mostra ladrões entrando de carro na mansão da família Matsunaga em SP

TROCA DE TIROS

VÍDEO mostra ladrões entrando de carro na mansão da família Matsunaga em SP

Filha de Elize Matsunaga e avós não estavam no imóvel; três funcionários foram feitos reféns, ...
Golpe do falso advogado causa prejuízo de até R$ 1 milhão em Goiás

Alerta

Golpe do falso advogado causa prejuízo de até R$ 1 milhão em Goiás

Polícia Civil alerta para criminosos que se passam por profissionais para cobrar valores de vítima...
Pastor derruba portão de motel para fugir após morte de homem em Catanduva (SP); entenda

MORTE EM MOTEL

Pastor derruba portão de motel para fugir após morte de homem em Catanduva (SP); entenda

Homem de 47 anos estava com a vítima e a namorada dela; Polícia Civil investiga a morte de Fabríc...
Festival Viva Goiânia terá bloqueios e desvios no trânsito da Capital; confira

Atenção as mudanças

Festival Viva Goiânia terá bloqueios e desvios no trânsito da Capital; confira

Intervenções começam na noite de segunda-feira (19) e seguem até domingo (25); comércio e circu...
Goiás tem oito projetos para enfrentar o vício em apostas

FIM DAS BETS

Goiás tem oito projetos para enfrentar o vício em apostas

Ação da União pede R$ 1 bilhão das bets, e Goiás já tem lei estadual de prevenção à ludopat...
Goiânia intensifica ações para reduzir riscos de alagamentos durante chuvas

Prevencão

Goiânia intensifica ações para reduzir riscos de alagamentos durante chuvas

Comurg já limpou mais de 4 milhões de metros quadrados de margens de córregos em 2026; SET monito...
Idoso é preso suspeito de colocar inseticida na comida da esposa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro

TENTATIVA DE FEMINICÍDIO

Idoso é preso suspeito de colocar inseticida na comida da esposa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro

Perícia identificou o mesmo componente tóxico no alimento e em um frasco encontrado na cozinha
leste vila nova

memória goiana

Setor Leste Vila Nova preserva a memória operária de Goiânia

Formado a partir da ocupação de trabalhadores na década de 1930, bairro reúne histórias de luta...