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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
CASO DAIANE

Vídeos gravados por Daiane desvendam emboscada e levam à conclusão de homicídio em Caldas Novas

Polícia aponta premeditação do síndico Cleber Rosa de Oliveira na morte da corretora Daiane Alves Souza. A perícia confirma execução fora do condomínio

Nívia Menegatpor Nívia Menegat em 19 de fevereiro de 2026
Daiane
Foto: Montagem/O HOJE

A Polícia Civil de Goiás (PC-GO) apresentou, na manhã de quinta-feira (19), no auditório da Secretaria de Segurança Pública, em Goiânia, a conclusão das investigações sobre o caso Daiane Alves Souza, de 43 anos. Participaram da coletiva o delegado-geral André Ganga, o delegado regional de Caldas Novas, Rodrigo Pereira, e o delegado titular da Delegacia de Investigação de Homicídios (GIH) de Caldas Novas, André Barbosa, além de outros responsáveis pela investigação.

Daiane, corretora de imóveis, desapareceu no dia 17 de dezembro de 2025, às 19h29, seu último momento foi registrado pelas câmeras do condomínio Amethist Tower, em Caldas Novas. A família só percebeu o desaparecimento no dia seguinte, ao notar que ela não estava no apartamento e que seus pertences pessoais permaneciam no local. Às 19h30 do dia 18 de dezembro, o caso foi comunicado à Polícia Civil, que inicialmente instaurou inquérito para apurar desaparecimento.

Durante a coletiva, André explicou que a conclusão do caso foi possível após a análise completa das provas, que foi concluída na madrugada desta quarta-feira (18), incluindo os últimos vídeos gravados pela própria vítima. Segundo as investigações, Cleber Rosa de Oliveira, autor do crime e síndico do prédio onde Daiane administrava apartamentos da família, descartou no esgoto o celular da vítima, que continha dois vídeos que ela havia gravado e enviado à uma amiga, enquanto descia para verificar o disjuntor do imóvel. 

A suspeita é de que estivesse gravando um terceiro vídeo quando foi interrompida pelo ataque de Cleber, o que reforçou para a polícia que não se tratava de desaparecimento voluntário.

O terceiro vídeo, no entanto, não chegou a ser enviado, mas foi recuperado pela polícia, na gravação o síndico aparece e detalhes completaram as provas sobre o caso. “Se ela estava gravando e enviando, é porque de alguma forma esse vídeo foi interrompido. Isso foi um fator crucial para entendermos que não se tratava de um desaparecimento voluntário”, pontuou.

Momentos antes, na gravação feita por Daiane mostra que a energia do apartamento estava desligada e nesse momento ela desce até o subsolo para conferir o que havia ocorrido. De acordo com análise pericial, em uma das imagens recuperadas do celular da vítima, mostra que Cleber já a aguardava no subsolo do condomínio onde ela morava. O síndico já tinha premeditado esse crime de acordo com a polícia, ele conhecia a estrutura do prédio, sabia os pontos cegos, estacionou o veículo de forma estratégica e desligou o disjuntor sabendo que Daiane desceria para verificar. O vídeo mostra o momento em que ela é surpreendida e atacada por ele, com o rosto parcialmente coberto e com luvas.

“A dinâmica foi clara: ele desligou a energia para que ela descesse ao subsolo, a incapacitou, retirou do local e a executou com disparos de arma de fogo”, explicou o delegado. A polícia afirma que o homicídio foi qualificado por motivo torpe, pela emboscada e pelo meio cruel.

Conflitos anteriores e intervalo de oito minutos reforçam tese de premeditação

Daiane
Investigação descarta participação de terceiros e confirma que os disparos ocorreram em área de mata às margens da GO-213
Foto: Nívia Menegat/O HOJE

Daiane havia se mudado para Caldas Novas para administrar os apartamentos da mãe. A atuação dela gerou conflitos com Cleber, que não concordava com os posicionamentos da corretora. Desde outubro do ano passado, os dois registraram boletins de ocorrência um contra o outro, em razão de desentendimentos constantes.

Com a conclusão de que se tratava de possível homicídio com ocultação de cadáver, o caso foi encaminhado ao GIH. A polícia passou então a analisar quem teria meios, motivo e oportunidade para cometer o crime.

Os investigadores também analisaram a movimentação no condomínio e no horário do desaparecimento. Ficou estabelecido que qualquer ação contra Daiane teria ocorrido em um intervalo de apenas oito minutos, entre o momento em que ela desaparece das imagens e a chegada de outra moradora ao subsolo.

Durante as investigações, porteiros, moradores, familiares e o próprio síndico foram interrogados. Em depoimento, Cleber afirmou que houve uma discussão e que, durante uma luta corporal, teria ocorrido um disparo acidental. No entanto, a perícia constatou inconsistências na versão apresentada.

Inicialmente, houve a suspeita de possível participação de uma segunda pessoa, filho de Cleber, Maicon Douglas Souza, que teria comprado um celular novo para o pai após o desaparecimento de Daiane. Também foram analisadas divergências nos relatos dos porteiros sobre horários de troca de turno. Contudo, ao final da apuração, ficou concluído que não houve participação de terceiros no homicídio.

Perícias também indicaram que os disparos não ocorreram no interior do condomínio, como ele alegou. Testes foram realizados pela Polícia Científica no subsolo, com porteiros posicionados na portaria. Eles afirmaram categoricamente não ter ouvido tiros. “Ficou materializado que aqueles disparos não foram realizados dentro do condomínio”, destacou o delegado. Segundo a investigação, Cleber, por ser síndico, possuía controle de acesso à garagem e conhecimento sobre entradas e saídas do prédio, inclusive em área que estava interditada para veículos devido a obras, permitindo apenas a circulação de pedestres.

O delegado João Paulo também comentou a versão apresentada pelo autor do crime em interrogatório. Inicialmente, ele afirmou que houve um encontro ocasional no subsolo e que, durante uma luta corporal, a arma teria disparado acidentalmente. “Ele alega que, ao tentar impedir que fosse filmado, entrou em luta corporal com a Daiane, a arma caiu ao solo e houve um disparo”, explicou.

Contudo, a versão foi considerada incompatível com as provas. “Quando ela o filma rapidamente, ele já está de luvas. Isso demonstra premeditação. Ele já havia posicionado o carro na vaga mais próxima do local onde pretendia render a vítima”, afirmou João Paulo.

Corpo é encontrado na GO-213 e perícia confirma execução fora do prédio

Daiane
Foto: Divulgação/PCGO

O corpo foi posteriormente localizado em uma região de mata, a cerca de 25 km da rodovia,  às margens da GO-213, a cerca de 20 km do prédio onde Daiane morava. A vítima foi atingida por dois disparos de arma de fogo, um na mandíbula e outro na região da cabeça, depois de ser retirada do prédio e levada para a mata. Foram realizados exames periciais no prédio, na caminhonete e em objetos apreendidos, incluindo caixa de ferramentas. Cleber estava com uma pistola sem autorização legal, mas, segundo informado, o fato de não possuir porte não influenciou na tipificação principal do crime.

Sobre Maicon, ficou comprovado que ele não participou da execução. Cleber teria confessado o crime ao filho e solicitado que ele assumisse temporariamente a administração do prédio, prevendo sua prisão e a possibilidade de bloqueio de aplicativos bancários. No dia 18 de janeiro, Cleber realizou um PIX para o filho, em valor não divulgado, com o objetivo de pagar a defesa, dinheiro que foi retirado de contas do próprio condomínio.

A polícia também esclareceu que não houve manipulação das imagens de segurança. O prédio possuía 11 câmeras, 10 conectadas a Digital Video Recorder (DVR) e uma com cartão de memória individual. Durante a investigação, Cleber solicitou a um técnico terceirizado que apenas as imagens de três câmeras, as dos elevadores e porta de saída pouco utilizadas, fossem enviadas para a investigação. O técnico afirmou desconhecer o desaparecimento de Daiane e apenas atendeu ao pedido feito.

Barbosa destacou que a elucidação do caso só foi possível após a consolidação de todas as provas, especialmente os vídeos gravados por Daiane no dia do crime, que foram determinantes para esclarecer a dinâmica dos fatos e comprovar a premeditação.

O superintendente da Polícia Científica de Goiás, Ricardo Matos, afirmou que a corporação atuou desde a fase inicial do desaparecimento, realizando perícia no local e recolhendo imagens e vestígios. Após o encontro do corpo, uma nova perícia foi feita e o cadáver encaminhado a Goiânia, onde exames de tomografia confirmaram, ainda no mesmo dia, que a vítima foi atingida por dois disparos de arma de fogo calibre .380, sendo um projétil recuperado e o outro com saída pelo olho esquerdo.

Segundo ele, exames de DNA identificaram sangue da vítima no veículo do suspeito e em uma sala no subsolo do prédio. No entanto, testes de detecção sonora comprovaram que um disparo no local seria audível em vários pontos, o que, aliado à pequena quantidade de sangue encontrada, indica que os tiros não ocorreram ali, mas em outro ambiente. A perícia também apontou que os dois disparos foram feitos do lado direito, com trajetória de baixo para cima e de trás para frente. 

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