Abertura de rua dentro do Parque Flamboyant vira possibilidade e acende alerta sobre impacto ambiental em Goiânia
Proposta prevê abertura de via de pista dupla cortando o parque para ligar as ruas 46 e 56, com previsão de pavimentação de área verde e corte de árvores para desafogar o trânsito
A Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) de Goiânia está no centro de uma polêmica urbanística ao propor a abertura de uma rua de pista dupla cortando o Parque Flamboyant, no Jardim Goiás. O projeto prevê a ligação entre as ruas 46 e 56 e tem como justificativa oficial desafogar o trânsito local, criando um eixo alternativo de retorno para motoristas no sentido oeste-leste.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência técnica dentro da própria administração municipal. Em posicionamentos enviados ao jornal O Popular, órgãos estratégicos classificaram a intervenção como prejudicial e sugeriram alternativas menos invasivas.
O plano da Seinfra prevê a implantação da via em uma das extremidades do parque, no trecho onde se inicia a canalização do Córrego Sumidouro. Para viabilizar a obra, estima-se a pavimentação de 1,3 mil metros quadrados de área verde e o corte de dez árvores, sendo oito coqueiros e duas de outras espécies. Atualmente, o principal acesso ao interior do bairro ocorre pela Rua 56-A, uma viela estreita e com pouca infraestrutura, ou pela Avenida Jamel Cecílio, que registra congestionamentos severos nos horários de pico.
Em parecer técnico encaminhado ao O Popular, a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) foi categórica ao classificar a obra como “ambientalmente inviável”. O órgão destaca que a área é protegida por lei e já sofre com adensamento urbano severo. Segundo o relatório, qualquer modificação no perímetro do parque deveria priorizar sua ampliação e a recuperação da vegetação nativa da Área de Preservação Permanente (APP) do Córrego Sumidouro, e não sua redução para a passagem de veículos.
Na mesma linha, a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Seplan) e a Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) também manifestaram discordância em pareceres enviados ao jornal. A Seplan sustenta que a alternativa mais adequada seria a regularização e o alargamento da Rua 56-A (oficialmente Rua 7). A pasta identificou que lotes e imóveis abandonados ao longo da via poderiam ser desapropriados, permitindo sua expansão sem intervenção na área preservada. A SET corroborou essa avaliação e recomendou o indeferimento da proposta da Seinfra, por considerar a ampliação da faixa de rolamento da 56-A a solução mais adequada diante dos impactos ambientais apontados.

Foto:Reprodução
O arquiteto e urbanista Fred Le Blue critica a iniciativa e a classifica como uma variante radical de uma política que reduz espaços públicos para privilegiar o automóvel. Para ele, a proposta representa um contrassenso, já que o Parque Flamboyant foi criado em 2007 como compensação ambiental pelas torres erguidas em seu entorno. “Qual compensação será realizada para compensar essa descompensação?”, questiona o urbanista, ao alertar para riscos ao lençol freático e à permeabilidade do solo em uma região já fragilizada.
Le Blue defende que o foco deveria ser uma reengenharia completa do trânsito, com desestímulo ao uso de carros e prioridade ao transporte público e a modais sustentáveis, como bicicletas. Ele avalia que o adensamento excessivo do Jardim Goiás, com a concentração de equipamentos como o Centro Cultural Oscar Niemeyer e condomínios de alto padrão, contribuiu para o cenário atual. Para o especialista, a tentativa de “dinamitar” o parque atenta contra o direito à cidade e ao bem comum, sobretudo por se tratar de um dos poucos espaços públicos gratuitos e democráticos da região.
Enquanto o debate se intensifica, a Seinfra sustenta que o projeto permanece em fase de estudos técnicos. Em nota enviada ao jornal O HOJE, a pasta informa que realiza análises para avaliar as melhores condições de tráfego e mobilidade urbana na região do Parque Flamboyant e da Rua 56-A. Segundo a secretaria, os estudos estão em fase inicial e consideram fluxo de veículos, segurança viária, impacto ambiental e alternativas de engenharia para melhorar a circulação no entorno do parque.
A Seinfra ressalta que o processo ocorre de forma integrada, com diálogo com moradores da região e órgãos como a SET, a Amma e a Seplan. O órgão informa ainda que somente após a conclusão das análises complementares poderá se manifestar de forma definitiva sobre eventual realização de intervenções na área.
Plano de “obras rápidas” de Mabel coloca áreas verdes sob pressão
A proposta surge no contexto da gestão de Sandro Mabel (União Brasil), que lançou programas voltados à execução acelerada de alterações urbanas e infraestrutura nos bairros de Goiânia. O plano de “obras rápidas”, embora tenha como objetivo atender demandas imediatas de mobilidade e zeladoria, desperta preocupação entre ambientalistas e especialistas quanto ao futuro das áreas verdes da Capital.
Para Fred Le Blue, há uma orientação “antropocênica” e “automovelcêntrica” na gestão, sem um “sinal vermelho” para a subtração de espaços públicos. Segundo ele, reduzir praças e canteiros para ampliar o fluxo viário é ineficaz a longo prazo, sobretudo em uma cidade com 1,5 veículo por habitante.
A resistência da Amma e da Seplan no caso do Parque Flamboyant pode criar precedente. A Amma alerta que o adensamento no entorno dos parques, com subsolos profundos, tem provocado rebaixamento do lençol freático e comprometido a infiltração de água.
A preocupação é que, sob o argumento de “obras rápidas”, o direito ao meio ambiente equilibrado seja relegado. Como afirma Le Blue, o interesse coletivo deve prevalecer sobre soluções que favoreçam o transporte individual. O caso do parque é visto como teste para a política ambiental e urbanística da atual gestão. Outros dois episódios ampliam o debate: o projeto de um mercado no Parque Vaca Brava e a criação de estacionamentos no Parque das Laranjeiras.
No Setor Bueno, Mabel planeja um mercado público moderno, por meio de Parceria Público-Privada (PPP), em área de cerca de 5 mil m² na orla do Parque Vaca Brava. O ex-secretário Osmar Pires afirma que o local abriga nascentes do Córrego Vaca Brava, essenciais ao lago, e que construções de grande porte podem comprometer o lençol freático. A área já possui decisão do STJ reconhecendo sua destinação ambiental. Moradores apontam ainda falta de infraestrutura para absorver o aumento do fluxo de veículos.
No Parque das Laranjeiras, projeto da vereadora Rose Cruvinel (UB) propôs reduzir calçadas na Avenida dos Flamboyants para criar cerca de 190 vagas de estacionamento. O MP-GO apurou possível alteração da destinação da área e impactos na drenagem e na convivência social. Sandro Mabel afirmou que as obras foram adiadas para remanejamento de cabos de fibra óptica e negou impacto em áreas verdes.
A Amma ressaltou que a área se tratava de servidão administrativa destinada à passagem de linhas de transmissão de energia. Segundo a presidente do órgão, Zilma Peixoto, normas federais proibiam tanto o plantio de árvores de grande porte quanto a instalação de estacionamentos nesses locais, devido ao risco elétrico.