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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
neurocognição normal

Maconha e ayahuasca: estudo contesta dano cognitivo

Pesquisa com 219 voluntários não identificou prejuízo duradouro em memória, atenção ou funções executivas após abstinência controlada

Luana Avelarpor Luana Avelar em 26 de fevereiro de 2026
maconha
Avaliação incluiu 126 variáveis e exigiu período mínimo de abstinência antes da aplicação dos testes neuropsicológicos. Foto: iStock

A associação entre uso frequente de maconha e perda permanente de memória ou atenção tornou-se um enunciado repetido em debates públicos e familiares. A ayahuasca, por sua vez, costuma ser vinculada a perfis considerados excêntricos ou mentalmente instáveis. Um estudo conduzido na Catalunha por pesquisadores da Espanha, com colaboração da USP de Ribeirão Preto, examinou essas premissas a partir de dados empíricos e não encontrou evidência de déficit cognitivo duradouro entre usuários regulares das duas substâncias.

O artigo, intitulado “Personalidade, não cognição, distingue usuários crônicos de ayahuasca e Cannabis de não usuários”, teve como primeiro autor José Carlos Bouso e como autor sênior Jordi Riba, ambos vinculados ao Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânicos, em Barcelona. Também assinam o trabalho Jaime Hallak e Rafael dos Santos, da USP.

Desenho do estudo – Maconha e ayahuasca

Foram avaliados 219 voluntários divididos em três grupos: 69 frequentadores do Santo Daime na Espanha, 56 integrantes de clubes catalães de Cannabis e 94 pessoas que não utilizavam nenhuma das substâncias. Para evitar interferência do efeito farmacológico imediato, os pesquisadores exigiram abstinência mínima de dez dias no caso da ayahuasca e de 30 dias para a maconha.

A investigação examinou 126 variáveis por meio de baterias neuropsicológicas e questionários estruturados. No total, 27.594 observações foram submetidas a tratamento estatístico. O perfil demográfico indicou diferenças discretas: usuários de Cannabis eram, em média, mais jovens e iniciaram o consumo por volta dos 18 anos; adeptos da ayahuasca começaram a participar dos rituais em torno dos 36.

Cognição sob análise

O estereótipo do consumidor crônico de maconha inclui dificuldade persistente de concentração e memória prejudicada. Nos testes aplicados, contudo, usuários regulares não apresentaram desempenho inferior ao dos não consumidores em memória de trabalho, responsável pelo processamento imediato de informações, nem em memória executiva, ligada ao planejamento e à organização de comportamentos.

Parte da literatura anterior havia apontado redução nessas capacidades após uso de Cannabis. A divergência pode estar associada ao momento da avaliação. Estudos que identificaram déficits frequentemente aplicaram testes durante o efeito agudo da substância ou logo após o consumo. Nesse contexto, eventuais alterações tendem a refletir impacto farmacológico transitório, e não comprometimento estrutural.

Personalidade como fator distintivo

Se o desempenho cognitivo não diferenciou os grupos, traços de personalidade apresentaram maior peso estatístico. No grupo da ayahuasca destacou-se a autotranscendência, entendida como a capacidade de ultrapassar o foco exclusivo no próprio eu e conectar-se a perspectivas mais amplas. Também foi observada menor persistência associada a padrões de ruminação prolongada.

Entre os frequentadores de rituais havia maior incidência prévia de diagnósticos de transtornos como depressão. O estudo não permite concluir se essas características antecedem o uso da substância ou se se relacionam a ele, uma vez que se trata de um recorte transversal e não longitudinal.

Limites e implicações

Os autores ressaltam que os dados representam um instantâneo. Não houve comparação com avaliações anteriores dos mesmos indivíduos, o que impede inferir causalidade. O trabalho tampouco sustenta benefícios cognitivos decorrentes do uso regular. Limita-se a registrar que, nas condições examinadas e após período mínimo de abstinência, não foram identificadas diferenças estatisticamente relevantes no desempenho intelectual entre os grupos.

A pesquisa desloca o debate da ideia de deterioração cognitiva automática para uma análise mais precisa das variáveis envolvidas. Ao examinar um conjunto amplo de indicadores e controlar o tempo de abstinência antes dos testes, o estudo sugere que generalizações sobre dano cerebral permanente não encontram respaldo nos dados apresentados.

Entre convicções difundidas e resultados empíricos, o trabalho acrescenta um elemento de complexidade à discussão. Não encerra o debate, mas estabelece que, ao menos na amostra analisada, personalidade diferenciou mais do que cognição usuários crônicos de ayahuasca e Cannabis em relação a não usuários.

Leia mais: Cannabis medicinal e o custo legal do cuidado

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