Bicudo volta a nascer em vida livre após décadas
Filhote nasce em reserva de Minas e reacende debate sobre conservação
O nascimento de um bicudo em vida livre, na Reserva Particular do Patrimônio Natural Porto Cajueiro, em Januária, no norte de Minas Gerais, rompe um silêncio de décadas. Classificado como criticamente ameaçado de extinção no Brasil, o bicudo não registrava reprodução natural na área havia anos. O filhote nasceu em 20 de fevereiro e passou a ser monitorado por equipes do Projeto Bicudo.
A presença do novo bicudo é resultado de um esforço iniciado em 2018, quando começaram as solturas graduais da espécie na reserva. Cerca de 200 aves, nascidas em criadouros conservacionistas, foram reintroduzidas no ambiente. O ninho foi localizado no início de fevereiro com dois ovos; até agora, apenas um eclodiu.
Bicudo e a reconstrução de uma população
A reprodução do bicudo em ambiente natural é tratada como indicador de viabilidade ecológica. O objetivo do projeto é estabelecer, no longo prazo, uma população autossustentável na região. O acompanhamento revelou ainda um dado incomum: apenas a fêmea permanece junto ao ninho, comportamento atípico para a espécie.
Conhecido também como bicudo-do-norte ou bicudo-preto, o bicudo mede cerca de 15 centímetros. O macho adulto apresenta plumagem preta com mancha branca nas asas, enquanto fêmeas e filhotes exibem tons castanhos. No passado, era comum nas regiões Centro-Oeste e Norte do país e em áreas da América Central e Amazônia.
Hoje, estima-se que restem entre 100 e 250 indivíduos de bicudo em vida livre no Brasil. Em contraste, mais de 200 mil vivem em cativeiro. O descompasso é atribuído à captura ilegal, impulsionada pelo canto valorizado no comércio clandestino. Entre 2015 e 2018, 7.673 exemplares foram comercializados, segundo dados da Proteção Animal Mundial.
Comércio ilegal e proteção internacional
Em dezembro de 2025, a Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas decidiu incluir o bicudo no Apêndice I da CITES, categoria que proíbe o comércio internacional da espécie, salvo exceções rigorosamente autorizadas.
A reprodução recente sugere que aves mantidas por gerações em cativeiro podem recuperar comportamentos naturais, como a seleção de área segura e a construção de ninhos. Ainda distante de garantir estabilidade populacional, o nascimento do filhote altera o horizonte da conservação.
O retorno do bicudo à reprodução em liberdade não resolve o desequilíbrio entre gaiolas e natureza, mas introduz um dado novo: a possibilidade concreta de reconstrução. Em um cenário de perda acelerada de biodiversidade, o canto que antes simbolizava captura pode, agora, anunciar sobrevivência.
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