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segunda-feira, 2 de março de 2026
MERCADO IMOBILIÁRIO E JUVENTUD

Geração Z adia, mas não desiste da casa própria

Levantamentos indicam que jovens veem aluguel como etapa estratégica, enquanto mantêm a propriedade como meta de longo prazo

Luana Avelarpor Luana Avelar em 2 de março de 2026
Geração
Foto: iStock

A geração que cresceu sob a promessa da mobilidade permanente realmente abriu mão da casa própria? A pergunta ganhou espaço nos últimos anos, impulsionada pela imagem de jovens que priorizam viagens, experiências e flexibilidade. Pesquisas recentes, contudo, indicam que o diagnóstico é precipitado. O sonho do imóvel próprio segue presente entre os nascidos a partir do fim dos anos 1990, ainda que condicionado por obstáculos econômicos.

Levantamento “Retratos do Morar”, realizado em 2025 pelo Ipsos-Ipec a pedido do Grupo QuintoAndar, mostra que 50% dos jovens entre 18 e 28 anos afirmam pretender comprar um imóvel. O índice supera a média nacional, de 41%, contrariando a narrativa de ruptura geracional. A diferença sugere que, mesmo diante de novas formas de viver a cidade, a propriedade segue associada à segurança e estabilidade.

O principal obstáculo é o material. Quase 47% dos entrevistados apontam não ter recursos suficientes para a entrada ou para assumir financiamento habitacional. A combinação entre renda pressionada, crédito caro e preços elevados nas áreas urbanas adia a decisão. O aluguel surge, assim, como alternativa pragmática diante das restrições, não como escolha definitiva de estilo de vida.

Moradia como serviço e estratégia

Estudo conduzido pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná reforça essa percepção. A pesquisa, centrada em jovens urbanos de classe média e alta escolaridade nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, indica que 90% desejam possuir casa própria na terceira idade. A locação é compreendida majoritariamente como fase transitória.

Nesse arranjo, a moradia deixa de ser vista apenas como patrimônio acumulado e passa a funcionar como serviço ajustável às circunstâncias profissionais. Dividir apartamento, optar por unidades compactas ou mudar de endereço conforme oportunidades de emprego aparecem são estratégias compatíveis com trajetórias marcadas por incerteza e dinamismo no mercado de trabalho.

A flexibilidade, contudo, não significa ausência de planejamento. Para muitos jovens, a compra do imóvel está vinculada à conquista de maior estabilidade financeira e profissional. A propriedade surge como marco simbólico de consolidação, etapa posterior a um período de experimentação e mobilidade.

Localização acima da metragem

Outro traço identificado pelas pesquisas é a valorização da localização. Parte expressiva da geração Z prefere abrir mão de espaço interno para viver em bairros centrais ou melhor conectados por transporte público. A proximidade de equipamentos culturais, vida noturna e polos de emprego ligados à economia digital pesa mais do que a metragem ampla em áreas distantes.

A escolha por imóveis compactos em regiões valorizadas revela cálculo racional. Ao priorizar deslocamentos mais curtos e acesso facilitado a oportunidades profissionais, o jovem reduz custos indiretos e amplia possibilidades de inserção no mercado. A moradia torna-se instrumento de circulação na cidade.

Geração Z e o desejo por casas no futuro

Apesar da preferência atual por apartamentos menores, 75% dos entrevistados na pesquisa acadêmica manifestam desejo de morar em casas no futuro. O percentual é superior ao observado entre gerações anteriores, nas quais apartamentos aparecem como opção predominante. A diferença sugere que expectativas residenciais variam conforme a etapa da vida e as experiências acumuladas.

Para quem ainda não enfrentou os encargos de manutenção de uma casa, a imagem de espaço amplo e jardim preserva apelo simbólico. Ao mesmo tempo, a vivência em imóveis compactos nas grandes cidades molda percepções sobre praticidade e custos. O imaginário convive com a realidade econômica.

Segurança e contradições

Mesmo em cenário de mobilidade valorizada, a casa própria permanece associada à proteção diante de instabilidades. O imóvel representa garantia contra oscilações de renda e contra a volatilidade do mercado de aluguel. A propriedade funciona como reserva patrimonial e como expressão de pertencimento.

Há, entretanto, tensão entre o projeto de longo prazo e as escolhas do presente. Parte desses jovens destina parcela relevante da renda a experiências, viagens e consumo cultural, o que pode dificultar a formação de poupança necessária à aquisição do imóvel. Em ambiente de crédito oneroso, o adiamento tende a se prolongar.

No campo estético, a relação com a moradia também expressa singularidade. Profissionais relatam que clientes dessa faixa etária buscam imprimir identidade marcante aos espaços, combinando referências contemporâneas e elementos retrô. Mesmo em imóveis alugados, a personalização é tratada como extensão da trajetória individual.

Os dados sugerem que a ideia de “geração aluguel” simplifica fenômeno mais amplo. A geração Z reorganiza prioridades, negocia com restrições econômicas e adia decisões estruturais. O sonho da casa própria, longe de ter sido abandonado, permanece como horizonte de estabilidade em meio às transformações do mercado imobiliário e do trabalho.

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Foto: freepik

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