Pesquisa goiana aponta dificuldade de mulheres identificarem violência psicológica
A pesquisa aponta relação direta entre violência de gênero e transtornos mentais e reforça a dificuldade de reconhecimento do abuso emocional por 100% do público entrevistado
A violência contra a mulher é um problema crônico na sociedade brasileira, com números cada vez mais alarmantes. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SSP-GO), em 2025, Goiás apresentou um aumento de 6% nos casos de feminicídio, saindo de 56 para 59. Porém, algo que não entra nestas estatísticas são os casos de abuso psicológico e emocional, já que são mais difíceis de serem identificados.
Para diminuir um pouco esta lacuna, uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Goiás (UFG), investigou a relação entre a violência de gênero e o desenvolvimento de transtornos mentais. A partir dessa premissa, a pesquisadora identificou uma dificuldade das mulheres perceberem que são vítimas de violência emocional.
A pesquisa foi desenvolvida na dissertação de mestrado de Rosilene da Silva Ribeiro, no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/UFG). O estudo foi feito em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Rio Verde (GO), e em suas conclusões apontou à urgência de qualificar profissionais de saúde e que fatores sociais podem influenciar na perpetuação da violência.
A inquietação da pesquisadora começou a partir de seu trabalho nos Caps, desde 2018. “Eu percebi que a maioria absoluta das mulheres que estavam no Caps por um processo de adoecimento mental grave, elas relataram em algum momento da vida terem sido abusadas (violência física, sexual e psicológica)”, descreve.
No primeiro momento da pesquisa foi aplicado o questionário “World Health Organization Violence Against Women (WHO VAW)”, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao todo 94 mulheres foram entrevistadas com 13 perguntas fechadas, sendo quatro perguntas sobre violência emocional, seis sobre violência física e três sobre violência sexual.
O resultado foi que todas as entrevistadas já foram vítimas de violência psicológica, um índice de 100%. “Esse tipo de violência não é sempre reconhecido. A mulher não se sente e não se percebe violentada, então, para ela, às vezes, esse tipo de violência é comumente proferida por parceiro íntimo”, explica a pesquisadora.
Os abusadores não começam com grandes ações, nestes casos, se inicia em comentários depreciativos, xingamentos ou calúnias proferidas para a vítima, e se estende até gritos e humilhações públicas. Rosilene comenta que durante as abordagens com as entrevistadas muitas chegavam a falar que não serviam para a pesquisa, pois nunca haviam sido vítimas de violência. “Quando eu fazia a pergunta sobre violência emocional, por exemplo, elas diziam que já”, ressalta.
A pesquisa também apontou que fatores socioeconômicos têm grande influência na vulnerabilidade e dificultam a saída dos relacionamentos abusivos. Um dos casos que a pesquisadora recorda é de uma mulher jovem, que vive na zona rural, e que relatava com naturalidade as agressões físicas do marido contra ela. “Ela não tinha como sair, porque ela falava assim: se hoje eu sair desse relacionamento, eu vou levar os meus filhos pra onde? Pra rua?”, conta.
Outro ponto é a diferença entre as zonas urbana e rural. Nos casos que acontecem em cidades, há uma maior participação de vizinhos e familiares nas denúncias e na percepção da violência. Porém, quando se trata de lugares mais afastados dos centros urbanos é mais difícil ter pessoas próximas para interferir e acabar com a violência, além disso, na visão de Rosilene, as pessoas na zona rural ainda acreditam muito em ditados como “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.
“Na zona rural, ela não tem vizinhos, não tem pessoas que estão ali testemunhando essa violência. Porque na maioria das vezes quem denuncia são os familiares ou os vizinhos. Então isso facilita a ação do agressor. Isso faz com que esse homem se sinta mais à vontade para cometer as violências, já que ele não está sendo visto por um terceiro”, expõe.
Durante a pesquisa e a escrita da dissertação, o principal transtorno mental relacionado aos casos de violência emocional são transtornos depressivos e transtornos ansiosos.
A pesquisadora finaliza falando sobre como a violência contra mulher não começa apenas no momento da agressão física, “o homem que espanca, o homem que arrasta a mulher por um quilômetro embaixo do carro, o homem que dá 15 facadas no rosto, o homem que soca a mulher 60 vezes no elevador, ele não fez isso do nada. Sempre antes desses eventos muito chocantes dessas tentativas e desses feminicídios, esse homem já cometeu muita violência emocional”, finaliza.
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