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quinta-feira, 5 de março de 2026
INUSITADO

Aluno advertido por usar short em academia de Anápolis (GO) vence ação milionária

Justiça entendeu que nota pública do estabelecimento ampliou constrangimento e violou dignidade do aluno após repercussão do caso

Nívia Menegatpor Nívia Menegat em 5 de março de 2026
Aluno advertido por usar short em academia de Anápolis (GO) vence ação milionária
Aluno advertido por usar short em academia de Anápolis (GO) vence ação milionária. Foto: Reprodução

O aluno Marcus Vinicius Cardoso de Andrade, de 42 anos, denunciou ter sido advertido por usar um short considerado inadequado na academia Hope, no Jardim Europa, em Anápolis (GO), deverá receber R$ 20 mil após ingressar com uma ação por danos morais contra o estabelecimento.

A decisão foi anunciada nesta terça-feira (3) pela juíza Luciana de Araújo Camapum Ribeiro, do 3º Juizado Especial Cível de Anápolis. A decisão ainda cabe recurso.

Para o administrador de empresas e produtor, a situação teve caráter homofóbico, ofensivo e discriminatório. Em conversa ao G1, Marcus afirmou ter sentido um “sopro de esperança” após a decisão judicial. “A sentença a meu favor tem um caráter educativo para quem ainda acredita que suas crenças e preconceitos podem ser impostos a outras pessoas sem qualquer consequência”, afirmou.

O aluno ainda enfatizou a satisfação com o resultado, que segundo ele não está relacionada ao valor da indenização, mas à mensagem transmitida pela decisão. “Não é pelo valor ganho na causa, mas pela mensagem poderosa que ela traz: nós temos o direito de existir e de frequentar qualquer lugar ou estabelecimento sem passar por constrangimentos”, disse.

De acordo com a sentença, a advertência inicial feita ao aluno dentro da academia sobre o vestuário não foi considerada, isoladamente, um ato ilícito. A magistrada compreendeu que o estabelecimento possui o direito de estabelecer regras e códigos de vestimenta, ressaltando que a abordagem ocorreu de forma discreta, em uma sala reservada.

No entanto, o fator determinante para a condenação foi a nota oficial divulgada pela academia após a repercussão do caso na imprensa. A juíza avaliou que houve falha na prestação do serviço na comunicação posterior ao episódio.

Na decisão, também foi destacado que, ao justificar a postura adotada com a expressão “agradar e honrar a Deus”, a academia introduziu um elemento religioso inadequado. Segundo a magistrada, essa justificativa ampliou a repercussão negativa do caso e reforçou a percepção pública de reprovação moral relacionada à orientação sexual do aluno.

Diante disso,  Luciana de Araújo concluiu que houve ofensa à dignidade e à honra de Marcus. O valor da indenização foi fixado em R$ 20 mil com caráter pedagógico.

Denúncia de aluno sobre advertência em academia

O episódio ocorreu na manhã do dia 30 de junho de 2025, após Marcus finalizar o treino na academia localizada no Jardim Europa, em Anápolis. Segundo ele, até então nunca havia tido problemas no local. De acordo com o relato, um funcionário o chamou para conversar em uma sala de vidro e informou que um aluno havia reclamado do tamanho do short que ele usava.

Aluno advertido por usar short em academia de Anápolis (GO) vence ação milionária
Aluno advertido por usar short em academia de Anápolis (GO) vence ação milionária. Foto: Reprodução

“Ele disse que um dos alunos relatou estar incomodado com o meu vestuário, porque minha bermuda era muito pequena, e que a esposa dele, que também treinava ali, teria se sentido constrangida.”, contou.

Marcus afirmou que já havia concluído o treino e aguardava uma carona do marido quando foi chamado para a conversa. Durante o diálogo, foi informado de que o short não era considerado apropriado por supostamente contrariar o código de vestimenta da academia. “Eles disseram que prezavam pela moral e pelos bons costumes, e que aquele era um ambiente familiar”, relatou.

Na época, a academia divulgou uma nota afirmando ser “um ambiente acolhedor, respeitoso e seguro para todos”. O estabelecimento também declarou que a roupa utilizada pelo aluno seria adequada para corridas ao ar livre, mas não para determinados movimentos de musculação.

Na mesma nota, a empresa afirmou que foi sugerido ao aluno o uso de uma bermuda de compressão por baixo do short, como forma de garantir mais conforto e segurança para todos. Após a repercussão do caso, os comentários da publicação foram limitados.

Marcus treinava na academia havia quase dois anos e decidiu compartilhar o episódio nas redes sociais após o ocorrido. “Eu publiquei porque me senti extremamente constrangido. Me senti como alguém que não tinha o direito de estar ali”, disse.

A academia afirmou ainda que a orientação ao aluno seguia diretrizes previstas em contrato, relacionadas ao uso de roupas que garantam liberdade de movimento sem causar desconforto a terceiros.

Marcus, porém, afirmou que não foi informado sobre essas regras contratuais. Segundo ele, começou a frequentar o local após indicação de um amigo e não chegou a assinar o documento.

Após o episódio, o aluno cancelou o próprio plano e também o da mãe. A mensalidade da academia é de cerca de R$ 1.500 e Marcus havia pago antecipadamente um ano de treinos, totalizando aproximadamente R$ 15 mil. O valor foi reembolsado pela empresa.

 

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