sexta-feira, 16 de outubro de 2026
OPINIÃO

Mendanha e Baldy: suplentes onde estão ou senadores noutras chapas

Chapa do governo está completa, faltando apenas o vice, pois foram amparados Zacharias Calil e Vanderlan Cardoso, mas há o silêncio ensurdecedor de dois governistas candidatos majoritários na eleição passada que podem migrar para adversários de Daniel

Nilson Gomespor em
MOntagem com Mendanha e Baldy lado a lado
Exatamente 10 anos depois, esses personagens se entrelaçam de novo, agora na montagem das chapas para o Senado e o Governo de Goiás - Foto: Gustavo Mendanha e Alexandre Baldy - Foto Divulgação e André Saddi

O médico Zacharias Calil estava sentado numa fileira do meio no pequeno auditório da sede do PP, diretório de Goiânia, presidido pelo senador Wilder Morais. O partido estava montando a chapa de candidatos a vereador em Goiânia e Calil reforçaria demais o time, pois estava na mídia após separar siameses. Vivia-se 2016, presidente da República era Dilma Rousseff (PT) e governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

Dali a alguns meses, Dilma iria cair, Wilder teria protagonismo com seu substituto, Michel Temer (MDB), o deputado federal Alexandre Baldy (PTN) seria ministro e o vereador Gustavo Mendanha se elegeria prefeito de Aparecida com apoio do superpopular Maguito Vilela, pai de Daniel Vilela (MDB). Exatamente 10 anos depois, esses personagens se entrelaçam de novo, agora na montagem das chapas para o Senado e o Governo de Goiás.

Calil não topou tentar a Câmara da Capital, pois havia a possibilidade de derrota, já que quase todas as vagas de vereador são ocupadas por igrejas ou distribuidores de miçangas. Dois anos depois, se elegeria deputado federal. Seria reeleito em 2022 e, agora, quer ser candidato a senador. Estava no União Brasil da primeira-dama Gracinha Caiado, que por ele vai ocupar uma das vagas de candidatos ao Senado. Flertou com o PL de Wilder, frequentou seus eventos e só não se filiou porque cobrava a garantia do posto na chapa majoritária. Vendo que podia perder o colega de profissão, Ronaldo Caiado superou a própria vontade de não inchar a chapa, como fez em 2022 e deu zebra, levou Calil para o MDB de Daniel e tchau para o PL de Wilder. Ao mesmo tempo, o governador acolheu o senador Vanderlan Cardoso (PSD) e assegurou que seria um dos três candidatos oficiais do governo ao Senado, junto com Calil e Gracinha.

Como Baldy virou ministro e Mendanha, prefeito

Ué, como ficam Baldy e Mendanha? Se continuarem fiéis ao governo, serão no máximo suplentes de Calil, Vanderlan, Caiado (Gracinha ou Ronaldo). Provavelmente, vão recusar, pois muita coisa lhes aconteceu depois de 2016. Apoiado por graúdos do Congresso como os senadores Wilder e Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Baldy foi para o Ministério das Cidades do governo Temer. Ali se destacou e Wilder perdeu para ele o comando do PP goiano. Distribuindo obras federais para todo lado, Baldy resolveu ficar no cargo até o fim do mandato de Temer e atraiu Vanderlan Cardoso, que lançou para senador, que era o propósito de Wilder. Marconi, que renunciou ao governo para sair ao Senado, preferiu Lúcia Vânia como companheira de chapa. Baldy era seu aliado, mas levou Vanderlan para ser candidato a senador de Daniel Vilela. Resultado: Marconi, Lúcia e Wilder foram derrotados e Vanderlan teve sua primeira vitória depois de deixar a Prefeitura de Senador Canedo.

Antes de o galo cantar três vezes, Vanderlan rompeu com Baldy e virou bolsonarista fanático. Foi o mesmo nível de puxada de tapete que Mendanha aplicou em Daniel. Maguito surfava em índices maravilhosos graças a sua excelente administração em Aparecida. Daniel, que em 2012 havia convencido o pai a apoiar seu amigo Mendanha a presidente da Câmara local, no fatídico 2016 exagerou: pediu a Maguito que deixasse seu preferido, Euler Morais, e lançasse Mendanha à sua sucessão. O pai resmungou, lutou, relutou e acabou cedendo. Maguito não estava vivo para ver Mendanha trair Daniel e ser candidato a governador contra aquele que o colocara na presidência do Legislativo e na chefia do Executivo aparecidenses.

Wilder e Marconi presidiram o PP, como Baldy

Por que contar história tão comprida? Para atiçar o raciocínio de quem gosta de política. Juntem-se os fatos. Baldy havia sido secretário de Indústria e Comércio de Marconi e o deixou para lançar Vanderlan na chapa adversária. Agora, mais uma vez, o ex-ministro se depara com um grupo aliado que lotou a chapa de candidatos ao Senado e ele ficou fora. Por que Baldy não pode tentar ser senador junto com Wilder, que o ajudou a ser ministro e foi presidente do PP em Goiás, ou de Marconi, de quem foi secretário e que também foi presidente do PP no Estado? Ah, mas ele está à frente da Agência de Habitação e seu irmão é secretário de Indústria e Comércio… E daí? Joel Sant’Anna tem ligações antigas e umbilicais com Caiado, independente de Baldy. Agehab vai demorar décadas para empatar com o número de casas que ele distribuiu no ministério.

Mendanha acabou voltando para o lugar de onde não deveria ter saído, o grupo de Daniel. Seu 1º mandato de prefeito lhe proporcionou obter 95,81% dos votos de Aparecida. A razão de tamanho sucesso foi ter herdado a máquina azeitada e dinheiro que não acabava nunca – acabou acabando de forma mal-acabada quando irresponsavelmente deixou a 2ª maior cidade goiana nas mãos de Vilmarzinho Mariano. A Covid levou os dois pais de Gustavo, Léo Mendanha e Maguito Vilela, que se estivessem aqui ficariam envergonhados ao virem o punhal cravado nas costas de Daniel, que daqui a poucos dias será governador e vai confiar um cargo de senador nas mãos que o apedrejaram…

Para quem tenta o governo, quanto mais candidatos ao Senado, melhor

Mendanha e Baldy: suplentes onde estão ou senadores noutras chapas
Como as vagas de senador neste ano são duas, poderiam ser seis os candidatos na chapa de Daniel Vilela? Claro, até porque o majoritário ao Executivo é o único beneficiado com essa profusão de senatoriáveis – Foto: Marconi Perillo, Wilder Morais e Daniel Vilela – Fotos Divulgação PSDB, Edilson Rodrigues Agência Senado e Benedito Braga

O temor dos governistas é consequência de 2022, quando Ronaldo Caiado foi reeleito governador no 1º turno e seus três candidatos (havia uma vaga) ao Senado perderam para Wilder Morais, que obteve menos de 800 mil votos. Como as vagas de senador neste ano são duas, poderiam ser seis os candidatos na chapa de Daniel Vilela? Claro, até porque o majoritário ao Executivo é o único beneficiado com essa profusão de senatoriáveis. Mas fechou-se o repolho: serão só três e os três serão alguém de sobrenome Caiado, Zacharias Calil e Vanderlan Cardoso.

Outro que trancou a chapa de senador foi o PL, que apesar das duas vagas vai apresentar apenas o deputado federal Gustavo Gayer. Será péssimo para Wilder, até porque Gayer só faz campanha para si mesmo, talvez um pouco para o presidenciável de sua legenda, Flávio Bolsonaro. Para Wilder, o ideal é agir como Caiado fez para Daniel: quanto mais candidatos ao Senado, melhor. Se Mendanha e Baldy forem para Marconi, serão duas portas abertas para o ex-governador voltar ao Palácio em que esteve por quatro mandatos.

O PL lançar apenas um candidato ao Senado proporcionaria um desperdício de votos até para Gayer. Será imprescindível fazer duas campanhas, uma pedindo votos para ele e outra ensinando a anular o 2º voto, pois a urna eletrônica recebe o 1º e não sossega até o eleitor digitar novamente os três números, só então passa para o cargo seguinte. Outro perigo proporcionado pela ausência de 2º voto é que Gayer não o herdaria dos demais concorrentes. Por exemplo: quem votar no 444 de Gracinha não terá o estímulo para o 222 de Gayer, a mesma coisa com o 555 de Ronaldo Caiado ou Vanderlan. Mais uma barreira é a ideológica, pois o deputado só fala para seu nicho, daí a possibilidade de engessar a preferência de quem está ao centro. (Especial para O HOJE)

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