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quinta-feira, 5 de março de 2026
Violência Cotidiana

Meninas relatam violência nas escolas; saiba o que revela estudo

Pesquisa nacional revela racismo, sexualização e assédio na rotina de alunas em escolas brasileiras

Luana Avelarpor Luana Avelar em 5 de março de 2026
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Foto: FreePik

A imagem da escola como espaço seguro de aprendizagem entra em choque com a experiência relatada por milhares de meninas brasileiras. Levantamento nacional sobre violência de gênero no ambiente escolar revela que constrangimentos, sexualização e episódios de agressão fazem parte da rotina de muitas alunas, sobretudo das meninas negras.

A pesquisa “Livres para sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, conduzida pela organização Serenas em parceria com a Plano CDE e publicada no Observatório de Educação do Instituto Unibanco, reuniu respostas de 1.383 professores do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio em todas as regiões do país. O estudo também incluiu entrevistas e grupos focais com estudantes, educadores e gestores escolares.

Os dados revelam um cenário em que comportamentos violentos contra meninas são frequentes e, em diversos casos, tratados como situações corriqueiras do cotidiano escolar.

Meninas negras enfrentam dupla vulnerabilidade

Entre os professores ouvidos, 52% afirmam já ter presenciado tratamento desigual direcionado a meninas negras em atividades pedagógicas. O resultado indica que o racismo se soma à desigualdade de gênero, ampliando a exposição dessas estudantes a constrangimentos e exclusões.

A pesquisa aponta que a violência no ambiente escolar nem sempre assume forma explícita. Comentários depreciativos, estereótipos sobre comportamento feminino e julgamentos sobre aparência ou postura fazem parte de um conjunto de práticas que atravessam a convivência escolar.

Meninas consideradas “atrevidas”, “exibidas” ou que fogem de expectativas tradicionais de comportamento aparecem entre os principais alvos de comentários e reprovação social dentro das escolas.

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Sexualização e constrangimentos frequentes

O levantamento mostra que 68% dos professores já testemunharam comentários constrangedores sobre a aparência das meninas. Em muitos casos, esses comentários ocorrem em sala de aula ou em espaços coletivos da escola.

Episódios de sexualização também são recorrentes. Sete em cada dez professores relatam situações em que meninas foram alvo desse tipo de comportamento. Em 42% dos casos mencionados, educadores afirmam ter presenciado toques não consentidos praticados por estudantes homens em colegas.

Esses episódios muitas vezes são tratados como brincadeiras ou conflitos entre estudantes, o que contribui para que situações de violência sejam relativizadas ou ignoradas.

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comentários sobre aparência, desigualdade racial e agressões físicas aparecem com frequência nas escolas e impactam diretamente o aprendizado das meninas. Foto: FreePik

Violência cotidiana dentro e fora da escola

Os dados mostram que o problema não ocorre de forma isolada. Para 31% dos professores, episódios de desrespeito e agressões acontecem quase todos os dias nas escolas. Outros 16% relatam que esses casos aparecem semanalmente. O bullying aparece como uma das formas mais disseminadas de violência, citado por 76% dos educadores entrevistados.

Além do espaço físico da escola, o ambiente digital também se tornou extensão dessas agressões. Ataques e exposições de meninas em redes sociais ou aplicativos de mensagens foram relatados por 47% dos professores.

Em 43% dos casos, houve divulgação de conteúdo íntimo de meninas em grupos virtuais, prática que amplia a exposição pública e os impactos emocionais sobre as vítimas.

Embora a maioria dos docentes reconheça a gravidade dessas situações, parte das práticas ainda não é identificada de forma clara como violência de gênero, o que dificulta respostas institucionais mais consistentes.

Quando o machismo também parte dos adultos

O estudo também revela que comportamentos discriminatórios não se restringem aos estudantes. Entre os professores entrevistados, 51% dizem já ter presenciado comentários machistas feitos por colegas educadores dentro da escola. Para 17% dos participantes, esse tipo de situação ocorre com frequência mensal ou maior, evidenciando que práticas discriminatórias também podem partir de adultos responsáveis pela formação dos estudantes.

Esse ambiente influencia diretamente o percurso escolar das meninas. Segundo a pesquisa, 86% dos docentes reconhecem que a violência de gênero afeta o processo de aprendizagem das alunas. Entre eles, 71% afirmam já ter observado impactos concretos, como retraimento em sala de aula, queda no rendimento e menor participação nas atividades escolares.

No caso das meninas negras, o peso das agressões tende a ser ainda maior, pois a violência de gênero se soma ao racismo estrutural presente nas relações sociais.

Reconhecimento do problema, preparo insuficiente

Apesar da gravidade do cenário, o estudo aponta que muitos profissionais ainda se sentem despreparados para lidar com o tema. Cerca de 29% dos professores afirmam ter pouca ou nenhuma preparação para discutir violência de gênero com estudantes.

A formação específica também é limitada. Apenas 33% participam de palestras ou seminários sobre o assunto, enquanto 22% fazem cursos opcionais. Somente 10% relatam ter acesso a formações obrigatórias sobre violência de gênero no ambiente escolar. Mesmo assim, existe consenso sobre a responsabilidade da escola. Entre os professores ouvidos, 99% afirmam que a instituição deve atuar na prevenção da violência de gênero.

O desafio, apontam os dados da pesquisa, é transformar esse reconhecimento em políticas educativas, formação docente e estratégias permanentes capazes de garantir que meninas possam estudar em ambientes onde respeito e segurança não sejam exceção, mas regra.

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