Conflitos no Oriente Médio ampliam preocupação com custos do agro em Goiás
Alta do petróleo e possível valorização do dólar podem pressionar fertilizantes, fretes e produção agrícola, com reflexos no preço dos alimentos
O cenário geopolítico global, marcado pela intensificação de conflitos no Oriente Médio, acendeu um alerta vermelho no governo brasileiro e entre especialistas do setor econômico. A principal preocupação reside no impacto direto que a instabilidade internacional pode exercer sobre o custo de vida da população, especialmente no que diz respeito à escalada de preços dos alimentos. O Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, manifestou publicamente seu receio de que o agravamento das tensões armadas em diversas partes do mundo reverbere nas prateleiras dos supermercados brasileiros.
A conexão entre a guerra no Oriente Médio e o prato de comida do brasileiro não é direta, mas ocorre por meio de uma complexa engrenagem econômica. Segundo o ministro Teixeira, o aumento do preço do petróleo é o primeiro dominó a cair nessa sucessão de impactos. Uma alta no barril de petróleo encarece o transporte e, simultaneamente, pressiona o dólar. “Se o dólar aumentar, vai ter impacto. Porque nós compramos fertilizantes em dólar. O preço do petróleo interfere na produção”, explicou o ministro durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, do CanalGov.
Essa pressão cambial é crítica porque produtos fundamentais da cesta básica e da balança comercial brasileira, como a carne, a soja e o milho, são precificados em moeda norte-americana. A variação no cenário internacional é rapidamente transmitida para os custos internos, gerando inflação nos alimentos. Teixeira concluiu sua fala em tom de preocupação: “Rezo para que essa guerra não interfira no preço dos alimentos no Brasil”.
Enquanto o cenário federal observa com cautela os movimentos externos, o Estado de Goiás apresenta uma dinâmica econômica que combina vulnerabilidade aos custos globais com uma notável resiliência interna. O economista Luiz Carlos Ongaratto destaca que a economia goiana tem superado as expectativas nacionais.
De acordo com o especialista, em 2025, o crescimento do PIB estadual ficou em torno de 4,4%, um índice significativamente superior à média brasileira de aproximadamente 2,5%. Em momentos de pico, como no primeiro trimestre do mesmo ano, o Estado chegou a registrar um crescimento de 7,7% na comparação anual.
Para o economista, o setor produtivo de Goiás possui características que o protegem parcialmente de crises agudas. Ongaratto explica que o agronegócio, pilar da economia local, funciona como uma “posição defensiva”. “A demanda global por alimentos tende a se manter mesmo em cenários econômicos desafiadores, garantindo estabilidade de renda, exportações e investimentos”, afirmou.
Apesar da força inegável do campo, o especialista ressalta que o diferencial competitivo de Goiás tem sido a sua diversificação. O Estado não é mais dependente apenas da produção primária; houve um avanço considerável na indústria, na construção civil e na logística. Goiânia, por exemplo, consolidou-se como um polo que concentra riqueza de diversas cidades e Estados vizinhos.
Entretanto, Luiz Carlos mantém uma visão realista sobre os riscos imediatos das guerras internacionais. Ele observa que, até o momento, os combustíveis no Brasil não apresentaram oscilações bruscas, apesar da alta do petróleo no mercado externo. Contudo, ele alerta que “o impacto pode ser sentido nos derivados de petróleo, indústria química e fertilizantes”, embora ressalte que ainda não existem dados conclusivos sobre a extensão desse efeito no momento.
A preocupação do economista e do ministro Teixeira encontra eco nas instituições do setor. O agronegócio goiano já demonstra inquietação com a possibilidade de elevação dos custos de produção e logística, o que pode pressionar severamente as margens de lucro dos exportadores. O Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás aponta que a instabilidade no Oriente Médio deve provocar aumentos não apenas no petróleo e fertilizantes, mas também no frete internacional.
Diante deste quadro de incertezas, Ongaratto aponta que os principais desafios para o Estado agora envolvem a ampliação da infraestrutura logística, o fortalecimento da agroindústria e a qualificação da mão de obra. Para ele, a receita para o crescimento sustentado de Goiás reside na combinação de um agronegócio competitivo com a expansão contínua dos setores industrial e logístico, aproveitando a localização estratégica do Estado no centro do País.
Em suma, embora o Brasil enfrente o risco de uma inflação de alimentos importada pelos conflitos globais, a solidez de economias regionais como a de Goiás, baseada na produção de itens essenciais e na diversificação setorial, oferece um contrapeso importante, ainda que não totalmente imune às pressões do dólar e dos insumos internacionais.