HPV: a vacina gratuita que ainda enfrenta desinformação dentro de casa
Pesquisa da Fundação do Câncer revela que 22% das famílias acreditam que a vacina contra o HPV estimula a iniciação sexual precoce
Ao menos 6 mil mulheres morrem por ano no Brasil por um câncer que a ciência já sabe como prevenir. São cerca de 16 mortes diárias provocadas pelo câncer do colo do útero, doença causada, em mais de 95% dos casos, pelo vírus HPV. Existe vacina. É gratuita. Está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde desde 2014. E, mesmo assim, há famílias que recusam levar seus filhos para se imunizar. O obstáculo não é a fila no posto de saúde. É a desinformação que mora dentro de casa.
Levantamento da Fundação do Câncer aponta que 22% dos pais e responsáveis acreditam que imunizar os filhos contra o HPV pode incentivar o início precoce da vida sexual. É um dado que assusta, mas não surpreende a ginecologista Vânia Marcella Calixtrato. Ela escuta essa afirmação com frequência no consultório, e a desmonta com uma frase direta: “Ela não tem influência sobre o comportamento sexual”. A vacina foi desenvolvida para prevenir infecções antes da exposição ao papilomavírus, o que a torna mais eficaz, daí a importância de se promover a imunização ainda na adolescência.
A ciência já investigou essa crença a fundo. Pesquisadores da Universidade de Harvard acompanharam jovens em estados americanos com e sem campanhas ativas de vacinação contra o HPV e não encontraram diferença no padrão de iniciação sexual entre os dois grupos. Vacinar não antecipa nada. Não vacinar, por outro lado, expõe.
O vírus que avança
O HPV se transmite pelo contato sexual e age na parte inferior do útero, região de conexão com a vagina. Na maior parte dos casos, o próprio organismo elimina o vírus sem que a pessoa sequer saiba que foi infectada. O problema está na parcela em que a infecção persiste: as lesões se instalam, evoluem e, sem diagnóstico e tratamento, resultam em tumor maligno. Estima-se que entre 9 e 10 milhões de brasileiros vivam com o vírus hoje, com 700 mil novos casos de infecção a cada ano.
O INCA projeta 17.010 casos de câncer do colo do útero por ano no triênio 2023-2025, numa taxa bruta de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres. Em Goiás, foram registrados 981 casos em 2024 e 622 notificações em 2025, número ainda preliminar.
A vacina disponível pelo SUS é quadrivalente e protege contra quatro tipos do vírus: os de número 6 e 11, ligados a verrugas anogenitais, e os de número 16 e 18, responsáveis pela maioria dos cânceres do colo do útero, do pênis, anal e oral. Desde 2024, o esquema é de dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.
Mitos que resistem aos fatos
O receio sobre o comportamento sexual não é o único equívoco que circula entre as famílias. Entre 36% e 57% das crianças e adolescentes ouvidos na pesquisa da Fundação do Câncer acreditavam que o imunizante pode ser prejudicial à saúde. A ginecologista Vânia Marcella Calixtrato responde a essa preocupação com dados clínicos: efeitos adversos graves são extremamente raros. “O mais comum são apenas reações leves como dor no local da aplicação ou febre baixa, riscos que são infinitamente menores do que os perigos de um câncer invasivo”, observa.
Há ainda quem acredite que, após o contato com o vírus, a vacinação perde o sentido. A especialista esclarece que o imunizante é indicado para mulheres de até 45 anos, independentemente do histórico de exposição ao HPV. “Ela as protege de outras cepas com alto grau de associação com o câncer do colo do útero, além de proteger contra verrugas genitais e outros tipos de câncer”, informa. A eficácia está documentada: pesquisadores da Fiocruz analisaram dados do SUS de mais de 60 milhões de mulheres entre 2019 e 2023 e registraram redução de 58% nos casos de câncer do colo do útero e de 63% nas lesões pré-cancerosas graves entre as vacinadas.
A escola como frente de combate do HPV
O Brasil atingiu, em 2024, cobertura vacinal de 82% entre meninas de 9 a 14 anos, superando a média global da OMS. Entre os meninos da mesma faixa etária, o índice chegou a 67%. Ainda assim, o Ministério da Saúde contabilizou 7 milhões de adolescentes de 15 a 19 anos sem nenhuma dose aplicada. São jovens que já ultrapassaram a faixa etária de maior eficácia do imunizante e que carregam uma vulnerabilidade que poderia ter sido evitada.
Para Vânia, enfrentar esse cenário exige ir além dos postos de saúde. “Esses mitos precisam ser combatidos com informações científicas, demonstrando que a vacina é uma ferramenta preventiva, não relacionada ao comportamento sexual”, defende.
A proposta da médica é concreta: aproximar as escolas das unidades de saúde, criar espaços de esclarecimento onde as dúvidas possam ser respondidas antes de virarem convicções equivocadas. “A escola é um ambiente crucial para disseminar informações. Parcerias entre escolas e unidades de saúde para promover a vacinação, esclarecer dúvidas e desmistificar mitos ajudariam a aumentar a adesão”, sugere.
Austrália, Reino Unido e Suécia já demonstraram que o caminho funciona. Países que investiram em alta cobertura vacinal registraram quedas expressivas nos índices de lesões pré-cancerosas e de casos invasivos. O Brasil tem estrutura pública para replicar esses resultados. O que ainda falta é vencer a batalha que não acontece nos laboratórios nem nas clínicas, mas nas conversas dentro de casa, onde um mito mal esclarecido pode custar uma vida.

Leia mais: Dia de Conscientização sobre o HPV reforça alerta para baixa cobertura vacinal em Goiás