domingo, 25 de outubro de 2026
NEGÓCIOS

Mercado de trabalho registra recorde de demissões por justa causa

Demissões por justa causa batem recorde no Brasil e crescem quase 200% desde 2019

Otavio Augustopor em
Mercado de trabalho registra recorde de demissões por justa causa
Foto Divulgação

O número de demissões por justa causa no Brasil atingiu o maior patamar da série histórica em 2025, revelando transformações importantes nas relações de trabalho. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) indicam que 638,7 mil trabalhadores foram desligados nessa modalidade no último ano, crescimento de quase 200% em comparação com 2019, período anterior à pandemia. O levantamento mostra ainda que apenas em janeiro de 2026 foram registrados 65,3 mil casos, aumento de 22% em relação ao mesmo mês do ano passado.

A justa causa é a punição mais severa prevista na legislação trabalhista e ocorre quando o empregador entende que houve falta grave por parte do trabalhador, como desonestidade, agressão, abandono de emprego ou descumprimento reiterado de regras internas. O aumento desse tipo de desligamento revela mudanças estruturais no comportamento de empresas e trabalhadores em um cenário marcado por maior rotatividade, novas dinâmicas de gestão e transformações geracionais no mercado de trabalho.

Maior proporção da série histórica

Além do volume absoluto recorde, a participação das demissões por justa causa também atingiu o maior nível já registrado. Em 2025, esse tipo de desligamento representou 2,6% do total de rescisões de contrato formal no país, segundo análise de dados do Caged.

Especialistas apontam que o movimento vem se intensificando nos últimos cinco anos e reflete uma combinação de fatores. Entre eles estão a retomada das atividades presenciais após a pandemia, maior monitoramento das empresas sobre a produtividade dos funcionários e a entrada de novas gerações no mercado de trabalho.

Outro fator relevante é a própria dinâmica do mercado. A taxa de desemprego no Brasil caiu significativamente nos últimos anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice passou de 14,9% em março de 2021 para cerca de 5,4% no trimestre encerrado em janeiro de 2026, um dos menores níveis da série recente.

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Foto Divulgação

Mercado mais aquecido influencia desligamentos e demissões

Com o mercado de trabalho mais aquecido e a dificuldade de encontrar profissionais, muitas empresas ampliaram o leque de contratações. Esse movimento levou à entrada de trabalhadores com menor experiência ou qualificação em determinadas funções, o que pode aumentar o risco de conflitos ou de descumprimento de normas internas.

Ao mesmo tempo, os próprios trabalhadores passaram a ter mais opções de emprego. Esse cenário contribuiu para elevar o nível de exigência em relação às condições de trabalho e ao ambiente corporativo.

Um indicador dessa mudança é o aumento da rotatividade voluntária. Em 2025, mais de 36% dos desligamentos registrados no Caged ocorreram por iniciativa do próprio trabalhador, refletindo um mercado mais dinâmico e competitivo.

Leia também: Mulheres empreendedoras crescem em Goiás e já está em 37,5% das empresas abertas em 2026

Setores com maior incidência de demissões

As demissões por justa causa tendem a se concentrar em setores com grande volume de contratações e elevada rotatividade. Atividades como hipermercados, frigoríficos e call centers aparecem entre as que apresentam maior proporção desse tipo de desligamento.

Em dezembro de 2025, por exemplo, as dispensas por justa causa representaram 10,7% das rescisões em hipermercados, 9,6% no abate de aves em frigoríficos e 9% nas operações de atendimento em centrais de telemarketing.

Esses setores costumam oferecer vagas de menor remuneração média e exigem rotinas intensas de trabalho, o que pode gerar maior número de conflitos ou descumprimento de normas internas.

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Retorno ao presencial aumenta conflitos e demissões

Entre profissionais de escritórios e empresas de serviços, outro fator que contribui para o aumento das demissões por justa causa é o retorno ao trabalho presencial. Após anos de home office ou modelo híbrido durante a pandemia, muitas organizações voltaram a exigir presença integral nos escritórios.

Essa mudança trouxe de volta regras mais rígidas de controle de jornada, como horário fixo de entrada, tempo de intervalo e presença física no ambiente corporativo. O novo cenário gerou choques de cultura organizacional e conflitos entre empresas e funcionários acostumados a maior autonomia.Em estados com forte presença de setores intensivos em mão de obra, como comércio, logística e agroindústria, o fenômeno também é percebido. Em Goiás, por exemplo, o mercado de trabalho formal tem registrado crescimento consistente nos últimos anos, impulsionado pela expansão do agronegócio, da indústria de alimentos e do setor de serviços.

Especialistas apontam que o aumento das demissões por justa causa reflete um período de transição nas relações de trabalho. De um lado, empresas buscam maior controle e produtividade. De outro, trabalhadores demonstram expectativas diferentes em relação ao ambiente profissional, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e oportunidades de crescimento.

 

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