O que muitos jovens não sabem antes de fazer rinoplastia
Caso recente envolvendo participante do BBB 26 levanta debate sobre idade ideal
Juliano Floss tinha 18 anos quando operou o nariz. Hoje, participante do BBB 26, ele admite publicamente que se arrepende. A declaração poderia soar como mais uma confissão de reality show, passageira e sem consequência. Mas ela tocou em algo que cirurgiões e otorrinolaringologistas discutem há anos longe dos holofotes: a rinoplastia feita cedo demais, pela razão errada, pode deixar marcas que nenhuma revisão cirúrgica consegue apagar completamente. E o número de casos assim é muito maior do que parece.
A rinoplastia está entre as cirurgias plásticas mais realizadas no mundo. Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery mostram que mais de 1 milhão de procedimentos no nariz são feitos por ano globalmente. No Brasil, a cirurgia também está entre as mais procuradas, principalmente por adolescentes e adultos jovens, um perfil que, segundo especialistas, exige atenção redobrada antes de qualquer decisão. A pressão estética sobre essa faixa etária nunca foi tão intensa.
Quando a rinoplastia acontece cedo demais
“A rinoplastia pode ser realizada a partir do momento em que o crescimento facial está completo, o que geralmente ocorre por volta dos 15 a 16 anos nas meninas e 17 a 18 anos nos meninos. No entanto, a maturidade emocional é tão importante quanto a maturidade física. Pacientes muito jovens podem ter expectativas irreais e isso aumenta o risco de arrependimento”, explica Eduardo Landini Lutaif Dolci, otorrinolaringologista, professor instrutor da Santa Casa de São Paulo e membro titular da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial.
Um dos procedimentos com mais revisões
A anatomia, nesse caso, é só parte do problema. O nariz continua sofrendo pequenas mudanças ao longo da vida, o que pode alterar a percepção do resultado com o passar dos anos. Mas o que mais pesa na insatisfação futura raramente está no espelho. Está na cabeça.
A American Society of Plastic Surgeons aponta a rinoplastia como um dos procedimentos com maior índice de revisões cirúrgicas, justamente porque o resultado depende de fatores anatômicos, cicatrização e, sobretudo, das expectativas de quem está na mesa de operação. Estudos internacionais indicam que entre 5% e 15% dos pacientes desejam algum tipo de correção após o procedimento, o que faz da conversa pré-operatória uma etapa tão decisiva quanto o próprio bisturi.
A pressão estética e as redes sociais
Dolci faz uma distinção que deveria ser mais conhecida fora dos consultórios. Quando há indicação funcional, como desvio de septo ou dificuldade respiratória, a cirurgia pode trazer benefício claro e duradouro. O problema começa quando a motivação vem de outro lugar. “Quando existe indicação funcional, a cirurgia pode trazer grande benefício. O problema acontece quando a decisão é motivada apenas por pressão estética, redes sociais ou comparação com padrões irreais. O paciente jovem ainda está em fase de construção da própria imagem e isso pode levar a insatisfação futura”, afirma o especialista.
É exatamente nesse ponto que o caso de Floss deixa de ser uma curiosidade de programa de TV e se torna um dado clinicamente relevante. Jovens expostos a padrões estéticos intensificados pelas redes sociais chegam às consultas com referências construídas por filtros, edições e rostos que, muitas vezes, também foram operados. A decisão, nesses casos, parte de uma comparação que nunca será justa.
A consulta pré-operatória, segundo o especialista, precisa ir além da análise física. Ela deve incluir avaliação detalhada da motivação, conversa franca sobre os limites reais do procedimento e, quando necessário, acompanhamento psicológico antes de qualquer agendamento. “A rinoplastia pode melhorar muito a autoestima quando bem indicada. Mas é fundamental que o paciente entenda que não existe cirurgia perfeita e que a decisão deve ser tomada com maturidade, não por impulso”, orienta Dolci.
O arrependimento de Floss não invalida a cirurgia. Invalida a pressa. E serve de aviso para quem está prestes a tomar a mesma decisão pelos mesmos motivos, na mesma idade, sem as perguntas certas na sala de espera.
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