quinta-feira, 12 de março de 2026
Cena musical

Quatro canções inauguram fase de gravações do Laboris na UFG

Projeto apoiado pela Lei Aldir Blanc equipou o laboratório da EMAC e viabilizou lançamentos inéditos da cena musical goiana

Luana Avelarpor Luana Avelar em 12 de março de 2026
Laboris
Foto: Roberta Ribeiro

O Laboris — Laboratório de Música Popular “Bororó Felipe”, da Escola de Música e Arte Cênicas da Universidade Federal de Goiás (EMAC-UFG), atravessa um momento de consolidação. Contemplado no edital de manutenção de Espaços Culturais da Lei Aldir Blanc, executado pela Secretaria de Cultura de Goiás, o projeto utilizou os recursos para fortalecer sua estrutura e ampliar a atuação junto à produção musical do estado.

Com o fomento, o laboratório realizou seis atividades formativas que reuniram mais de 300 participantes, produziu conteúdos audiovisuais que ultrapassaram 50 mil visualizações e promoveu quatro shows gratuitos no Centro Cultural UFG (CCUFG).

Mais do que ampliar a programação cultural, o investimento permitiu equipar o espaço com novos sistemas de áudio e consolidar o Laboris como ambiente apto a realizar gravações profissionais.

Segundo o professor da EMAC e idealizador do projeto, João Casimiro, a principal mudança foi estrutural. “Antes ele era um espaço que conseguia acolher grupos e projetos para ensaios, aulas e atividades formativas. Mas agora, com a compra dos equipamentos de áudio viabilizada pelo projeto, estamos prontos para também gravar, profissionalmente, tanto os trabalhos da universidade, quanto em parceria com a comunidade externa à UFG”.

Laboris
Professores Gilberto Assis e João Casimiro da EMAC. Foto: Roberta Ribeiro

Estúdio universitário e acesso à gravação

Como contrapartida do projeto, o Laboris publicou um edital para selecionar músicas inéditas que seriam produzidas no laboratório com participação de estudantes do curso de Produção Musical da EMAC.

A chamada recebeu mais de 80 inscrições. Para Casimiro, o número revela um obstáculo recorrente na cena independente: a dificuldade de acesso a estúdios e infraestrutura profissional.

“Ficamos felizes e impressionados com as mais de 80 músicas inscritas neste edital. Esse número mostra que há um gargalo e uma dificuldade de acesso a esse tipo de recurso pelos artistas. Além disso, nos faz pensar que estamos no caminho certo em equipar um espaço dentro da universidade pública, que apoie a produção musical goiana dessa forma”, afirma.

Quatro canções foram selecionadas e se tornaram os primeiros lançamentos com o selo Laboris: “Avenida Rio”, da banda Prehistoric Music Department; “Frevo Delas”, do grupo São Elas; “Ciranda do Apocalipse”, da artista Delírio; e “O Batalhão de Carlos Magno”, da cantora Débora Di Sá.

Da universidade para a criação autoral

A Prehistoric Music Department nasceu a partir da convivência acadêmica entre estudantes da área de música da UFG. O trio é formado por Nicolas Deretti, Isaac Lobo e Arthur Ribeiro. Inicialmente reunidos para tocar repertório instrumental de jazz e música brasileira, os músicos passaram a desenvolver composições próprias.

“Avenida Rio”, criada coletivamente, parte de uma imagem urbana recorrente: ruas tomadas pela água após chuvas intensas. “Essa música expressa quando um fluxo de água perde o controle e transborda. É a analogia a um alagamento, que transforma uma avenida num rio temporário. […] vivemos em uma cidade segregadora, em ruínas, moldada pela desigualdade social. Esse cenário nos faz imaginar uma Goiânia subaquática”, explica Nicolas Deretti.

Protagonismo feminino na música instrumental

Outro trabalho selecionado foi “Frevo Delas”, do grupo São Elas. O conjunto reúne quatro musicistas formadas ou em formação pela UFG: Ísis Krishna, Brenda Silva, Letícia Romando e Kesyde Sheilla. Na gravação realizada no Laboris, o grupo contou ainda com a participação da baixista Rayssa Almeida e da trompetista Lourrainy Cabral.

Ativo há três anos na cena musical goiana, o coletivo se dedica à música instrumental brasileira, especialmente ao choro, e defende a presença feminina em espaços historicamente ocupados majoritariamente por homens.

“Frevo Delas”, composto por Kesyde Sheilla e Ísis Krishna, celebra a música brasileira. “É importante registrar novas composições. O ‘Frevo Delas’ é uma celebração da música brasileira e da feminilidade”, afirma Kesyde.

Ciranda e crítica ambiental

Delírio é o nome artístico de Fernanda Maria, cantora, compositora e percussionista goianiense de 28 anos, estudante de Canto Popular na UFG. Desde 2023, ela se dedica a um projeto autoral que aborda temas como amor, identidade, liberdade e consciência ambiental.

A música “Ciranda do Apocalipse” nasceu de um sentimento de revolta diante das notícias recorrentes sobre a degradação ambiental. A banda é composta pelo multi-instrumentista Lucas Barbosa; a cantora e percussionista Conceição de Marianna; a sanfoneira Dani Frisson; o rabequeiro Vytor Rios e o baixista Bororó Felipe. A gravação realizada no Laboris contou ainda com a participação da percussionista Letícia Romano.

“Esse é meu primeiro single gravado. Projetos como esse de fomento à gravação elevam o potencial dos artistas da cena, servindo como incentivo na sua profissionalização e entregando um produto que além de registrar a sua obra, é divulgado lado a lado de outros artistas”, afirma Delírio.

Música e tradição popular

A quarta gravação é assinada pela cantora, compositora, atriz e artista circense Débora Di Sá. Formada em Canto pela UFG, ela desenvolve espetáculos autorais que unem música, teatro e linguagem circense e já lançou quatro álbuns.

A canção “O Batalhão de Carlos Magno” foi inspirada nas Cavalhadas de Pirenópolis e remete ao ritmo do galope dos cavalos presentes na encenação tradicional. A direção musical da gravação é de Nonato Mendes, responsável por um arranjo com influência fusion.

Depois de quase uma década sem lançar músicas inéditas, Débora destaca o impacto do projeto. “Não apenas para a minha trajetória artística, mas também para o fortalecimento e a valorização da música produzida em Goiânia, ampliando a visibilidade da criação autoral local e garantindo que essas obras possam existir, circular e alcançar novos públicos”.

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