Cabem mais 2 na chapa oficial ao Senado, Caiado e Mendanha
É dificílimo fazer campanha para chapa com muitos candidatos, ainda mais quando o voto é o mais diferente em 8 anos, porém no caso de Goiás vai ser bom para Daniel
Uma das pessoas mais solitárias do mundo é o candidato a senador no Brasil. E vive um paradoxo, seu isolamento se amplia quando tem ao lado um companheiro concorrendo ao mesmo cargo, como nas eleições deste ano. Complicou-se ainda mais com a liberalidade de cada chapa majoritária ter mais de uma dupla disputando as duas vagas ao Senado. Em Goiás, há um dos casos mais emblemáticos do Brasil. O grupo do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) decidiu lançar quatro ao Senado, com expectativa de acrescentar dois – o próprio Caiado, caso não vingue o projeto ao Planalto, e Gustavo Mendanha (PSD), ex-prefeito de Aparecida de Goiânia.
Explicando o trecho inicial. O senatoriável é sozinho porque ninguém o ajuda. Quem está tentando a Assembleia Legislativa pede votos somente para si e para o federal que o financia. Em casos raros, também para os que pretendem as chefias dos Executivos nacional e estaduais. Em casos raríssimos, a turma dos dois algarismos (13, 15, 22, 45…) se une e inclui seu aliado que tenta o Palácio na Capital da República. Chega. É só. Raramente, os cabos eleitorais são instruídos a gastar tempo com tantos nomes e números, se concentram em quem os remunera.
Casamento com separação de males
O paradoxo é como se houvesse um casamento litigioso. É preciso conquistar voto de acordo com a suposta preferência. Por exemplo: o quarteto de senatoriáveis da situação é formado pela primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil), pelo ex-ministro Alexandre Baldy (PP), o senador Vanderlan Cardoso (PSD) e o deputado federal Zacharias Calil (MDB). O governador Ronaldo Caiado ficou de se filiar ao PSD neste sábado (14), em Jaraguá, no Vale do São Patrício, a 120km de Goiânia. Depois de décadas, mudou de partido por dois motivos, o primeiro é que a direção nacional do União Brasil está com os pés em quatro canoas e não abre mão dos três iates, os ministérios que ocupa no governo Lula. O segundo é a suposta garantia da palavra, dada pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.
Fez as contas? Pois é, o PSD está com um pré-candidato ao Senado já certo (Vanderlan), outro à espera (Mendanha) e o hors-concours (Ronaldo Caiado). Se a tese é de evitar impedir a saída de quem quer que seja, o jeito talvez seja Mendanha voltar ao MDB, onde seu pai, Léo Mendanha, e ele fizeram carreira. Se Kassab descumprir o que prometeu e Caiado amargar mais uma traição, terá vaga assegurada na chapa e, de acordo com pesquisas, na lista de eleitos. Ninguém poderia reclamar de o governador e a primeira-dama ocuparem duas vagas: o PP de Baldy já teve arranjo pior com o presidente de seu diretório nacional, Ciro Nogueira (PP-PI), para colocar de primeira-suplente a própria mãe, Eliane Nogueira, que assumiu quando ele foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (2021-22).
As famílias que vão juntas ao Congresso
O MDB de Calil fez o mesmo com o então casal Suplicy, Marta e Eduardo. O União Brasil usou artifício igual em mais de dez Estados, inclusive em Goiás: Iris Rezende tinha como primeiro-suplente seu irmão Otoniel Machado, que virou senador quando o mano foi para o Ministério da Justiça de FHC (1997-98). O PSDB também usou essa estratégia em várias unidades da federação, Goiás entre elas: Lúcia Vânia e seu então marido Irapuan Costa Júnior saíram ela a deputada federal e ele a senador em 1986.
No caso de Ronaldo Caiado deixar a campanha presidencial antes mesmo de começá-la, Gracinha pode ir para a Câmara dos Deputados? Essa alternativa é bastante comentada. E ela de suplente dele? Muito pouco falada. E ele de suplente dela? Nada, nunca. Em 2022, ele foi beneficiário dessa ideia do à época deputado federal Waldir Soares, a de consultar o Tribunal Superior Eleitoral sobre o número máximo de candidatos a senador, se era por chapa ou por partido, tanto fazia, ele teve três, os demais somente um. Agora, o beneficiário será somente Daniel, pois Wilder Morais (PL) contará com no máximo dois e, se depender do deputado federal Gustavo Gayer, apenas ele mesmo. Com esse cenário, excelente para Daniel, péssimo para Wilder.
5 cargos, 6 nomes, 19 algarismos para decorar e eleger um Fundão
É extrema a dificuldade de explicar em vídeo ou presencialmente que o eleitor pode escolher dois senadores, apenas um, nenhum, anular e até votar em branco. Aí reside para Daniel o senão dos múltiplos senatoriáveis – é pequena a disposição do eleitor em ficar ouvindo o pedido de voto. Com razão.
São cinco cargos e seis nomes a se escolher, 19 algarismos para memorizar. As pessoas têm o maior trabalho para decorar senhas de quatro dígitos, usadas várias vezes diariamente, imagine encaixar a pauta política entre os compromissos de cabeça… Daí a grande quantidade de abstenções ao Senado na mais recente eleição (1.057.056), nulos (332.630) e brancos (310.369). O total de votos perdidos, 1.700.055, foi mais que o dobro do conseguido pelo vencedor no pleito, Wilder Morais (799.022).
Voto diferentão assim, só a cada oito anos, quando são renovados 2/3 das 81 vagas de senadores. As campanhas eleitorais duram mais de ano e a pré e a oficial, ainda assim não se explica a contento a utilidade do senador, suas responsabilidades, o que pode ou não fazer. Afinal, tendo ou não papéis definidos (e os principais são legislar e fiscalizar), não haverá tempo nem vontade de os cabos eleitorais das vans, das redes sociais e do horário do TRE dizerem os propósitos de cada concorrente. Não, não é arrumar emenda para show nem cargo para o pessoal do partido. Também não é aprovar Fundão Eleitoral para bancar as vans com cabos eleitorais, as monetizações nas redes sociais e marqueteiros com suas produtoras no horário do TRE. (Especial para O HOJE)