segunda-feira, 16 de março de 2026
Saúde

Menopausa pode afetar sono, saúde mental e funcionamento do cérebro

Para aliviar os sintomas da menopausa, parte das mulheres recorre à terapia de reposição hormonal

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 16 de março de 2026
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Menopausa pode afetar sono, saúde mental e funcionamento do cérebro. | Foto: Reprodução/Freepik

A menopausa representa uma fase importante na vida da mulher e costuma ser acompanhada por diversas mudanças físicas e emocionais. Durante essa transição, muitas mulheres relatam sintomas que podem impactar a rotina, como alterações de humor, dificuldades de sono e ondas de calor. Estudos também indicam que o período pode estar associado a mudanças cognitivas, incluindo dificuldades relacionadas à memória, atenção e linguagem.

Para aliviar esses sintomas, parte das mulheres recorre à terapia de reposição hormonal (TRH), tratamento utilizado para reduzir os efeitos das alterações hormonais típicas dessa fase. Na Inglaterra, estima-se que cerca de 15% das mulheres utilizem a terapia para tratar sintomas da menopausa. Em alguns países da Europa, esse índice é ainda maior, variando de aproximadamente 18% na Espanha a cerca de 55% na França.

Apesar do uso relativamente frequente, ainda há lacunas no entendimento sobre os impactos da menopausa e da terapia hormonal na saúde cerebral, na cognição e no bem-estar mental. Com o objetivo de aprofundar essa análise, pesquisadores avaliaram dados de quase 125 mil mulheres participantes do UK Biobank, um grande banco de informações genéticas e de saúde que reúne dados de cerca de 500 mil pessoas.

As participantes foram divididas em três grupos: mulheres na pré-menopausa, mulheres na pós-menopausa e mulheres na pós-menopausa que faziam uso de terapia de reposição hormonal. A idade média em que ocorreu a menopausa foi de aproximadamente 49 anos, faixa etária semelhante à idade em que muitas participantes iniciaram o tratamento hormonal.

Os resultados apontaram que a menopausa esteve associada a pior qualidade do sono, maior frequência de problemas de saúde mental e até alterações estruturais no cérebro. Mulheres na pós-menopausa relataram com mais frequência sintomas de ansiedade e depressão quando comparadas às mulheres que ainda não haviam passado por essa fase. Elas também demonstraram maior tendência a procurar atendimento médico ou psiquiátrico e a utilizar medicamentos antidepressivos.

Problemas relacionados ao sono também foram mais comuns nesse grupo. As participantes relataram maior incidência de insônia, menor duração do sono e níveis mais elevados de cansaço ao longo do dia.

Análises de imagens cerebrais revelaram ainda reduções significativas no volume da massa cinzenta após a menopausa. Esse tecido é formado principalmente por células nervosas e desempenha papel essencial no funcionamento do sistema nervoso central. As reduções foram mais evidentes em regiões ligadas à memória e ao aprendizado, como o hipocampo e o córtex entorrinal, além de áreas associadas à regulação emocional e à atenção, como o córtex cingulado anterior.

Essas áreas também estão entre as primeiras afetadas pela doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência. Segundo os pesquisadores, as alterações observadas podem indicar que mudanças cerebrais relacionadas à menopausa contribuem para aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento da doença ao longo do envelhecimento. Esse fator poderia ajudar a explicar, ao menos em parte, a maior prevalência de demência entre mulheres.

O estudo também avaliou possíveis efeitos da terapia de reposição hormonal sobre os resultados de saúde. As análises indicaram que o uso da TRH não esteve associado à reversão da redução da massa cinzenta cerebral observada após a menopausa.

Mulheres que utilizavam terapia de reposição hormonal apresentaram níveis mais altos de ansiedade e depressão, mas análises indicaram que esses sintomas já existiam antes do início do tratamento. Por outro lado, o estudo identificou um possível benefício cognitivo: a TRH pode ajudar a retardar a redução da velocidade psicomotora, habilidade ligada ao tempo de reação e coordenação, que costuma diminuir com o envelhecimento.

Reposição hormonal na menopausa

Apesar de amplamente utilizada para o alívio dos sintomas da menopausa, a terapia de reposição hormonal (TRH) ainda levanta questionamentos entre pesquisadores. A comunidade científica destaca que são necessárias mais evidências para compreender de forma definitiva os benefícios e os possíveis riscos associados ao tratamento.

Estudos publicados nos últimos anos apresentam resultados divergentes. Enquanto algumas pesquisas apontam que o uso da TRH pode estar relacionado ao aumento do risco de demência, outras sugerem justamente o contrário, indicando uma possível redução desse risco entre mulheres que utilizam a terapia.

Diante dessas inconsistências, especialistas defendem a ampliação das investigações sobre os efeitos da reposição hormonal, especialmente no que se refere às diferentes formas de administração e às doses utilizadas para o controle dos sintomas da menopausa. Um estudo conduzido com 538 mulheres participantes do banco de dados UK Biobank indicou que os efeitos da terapia não apresentaram diferenças significativas quando analisados fatores como a formulação do medicamento, a via de administração e o tempo de uso.

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O sono adequado desempenha papel essencial durante a menopausa. | Foto: Reprodução/Freepik

Pesquisadores também analisaram os níveis hormonais alcançados durante a terapia de reposição hormonal. Os dados indicaram que cerca de uma em cada quatro mulheres que utilizavam a dose máxima do tratamento ainda apresentava níveis baixos de estradiol, principal forma de estrogênio, em torno de 200 picomoles por litro. O estudo apontou ainda que mulheres mais velhas e usuárias de adesivos hormonais tinham maior probabilidade de apresentar concentrações reduzidas do hormônio.

Especialistas explicam que os níveis considerados ideais de estrogênio para aliviar os sintomas da menopausa variam entre 220 e 550 picomoles por litro. Isso sugere que aproximadamente 25% das participantes podem não ter alcançado o efeito terapêutico esperado com o tratamento.

Diante desse cenário, pesquisadores ressaltam a necessidade de ampliar os estudos sobre os impactos da TRH, incluindo seu possível papel na prevenção de alterações cerebrais e na redução do risco de demência, além de identificar a dose e a forma de administração mais eficazes.

Paralelamente, evidências indicam que hábitos de vida saudáveis podem ajudar a proteger a saúde do cérebro durante e após a menopausa. A prática regular de exercícios, atividades que estimulam o raciocínio, alimentação equilibrada, sono adequado e boas relações sociais são fatores associados à preservação da cognição.

Estudos também apontam que a atividade física pode contribuir para o aumento do volume do hipocampo, região do cérebro ligada à memória. Já o sono adequado desempenha papel essencial na consolidação das memórias e na eliminação de resíduos tóxicos do cérebro.

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