terça-feira, 17 de março de 2026
mercado de R$ 40 bilhões

Estética sem controle vira epidemia de erros no Brasil

O boom da estética no Brasil criou um mercado de R$ 40 bilhões, uma legião de profissionais sem qualificação e vítimas que ninguém contabiliza direito

Luana Avelarpor Luana Avelar em 17 de março de 2026
Brasil
Foto: freepik

O país que se tornou referência mundial em cirurgia plástica enfrenta hoje uma crise de proporções mal dimensionadas: o crescimento acelerado de um mercado de R$ 40 bilhões anuais sem a contrapartida de regulação, fiscalização e qualificação profissional que procedimentos invasivos exigem. O resultado aparece nas estatísticas, nos consultórios e, cada vez mais, nos tribunais.

São Paulo dá a medida do problema. O Conselho Regional de Medicina paulista registrou 2.830 sindicâncias em 2023. Em 2025, eram 4.002, alta de 41% em apenas dois anos. E esses são só os casos envolvendo médicos. Quando o Cremesp passou a monitorar também denúncias contra profissionais de outras áreas que realizam procedimentos invasivos, o retrato ficou ainda mais grave: 248 queixas no primeiro ano de monitoramento, 472 no seguinte, com 44 ações judiciais abertas. A Anvisa mapeou que clínicas de estética respondem por 52% de todas as denúncias de serviços de saúde recebidas pela agência.

Seringa na mão, currículo vazio

Entre 2012 e 2023, o Conselho Federal de Medicina contabilizou 9.566 casos de exercício ilegal da medicina no Brasil, média de dois por dia. Mais da metade tinha relação com procedimentos estéticos. Em quatro de cada dez situações, o responsável não tinha sequer formação básica na área da saúde.

O fenômeno tem endereço e tem data. A pandemia fechou salões, academias e clínicas, empurrou profissionais para a informalidade e abriu caminho para a migração desordenada para o setor estético. Cabeleireiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, biomédicos e dentistas passaram a anunciar harmonizações, preenchimentos e aplicações de toxina botulínica como se fossem serviços de rotina. 

A percepção de que procedimentos injetáveis são rápidos e sem risco ignora uma realidade anatômica elementar: qualquer agulha que perfure a pele pode encontrar um vaso, um nervo, um tecido profundo. Nas mãos erradas, o caminho até a necrose, a cegueira ou a deformidade permanente pode ser mais curto do que o intervalo entre uma sessão e outra.

A ilusão fabricada em vídeo

As redes sociais viraram o principal vetor de desinformação do setor. Procedimentos complexos são apresentados em vídeos de noventa segundos, editados para parecerem indolores e com resultados garantidos. Influenciadoras recebem tratamentos em troca de publicidade e entregam ao seguidor uma versão recortada da realidade, sem contraindicações, sem riscos, sem o consultório de cirurgia plástica que tentará desfazer o estrago meses depois.

O caso de Maíra Cardi tornou-se símbolo dessa distorção. A influenciadora relatou que um procedimento estético deixou seu rosto deformado, com risco de necrose, exigindo intervenção cirúrgica extensa para tentar remover o material injetado. Não foi um caso isolado. Foi o caso que ganhou visibilidade.

O plástico que o corpo rejeita, mas não expulsa

Nenhuma substância concentra hoje mais preocupação entre os especialistas do que o polimetilmetacrilato, o PMMA. Desenvolvido originalmente para tratar a perda de gordura facial em pacientes com HIV, o material migrou para o mercado estético e passou a ser aplicado em volumes muito superiores aos originalmente previstos.

O problema com o PMMA não é só o que ele causa. É o que ele não deixa ser feito. Por ser permanente e não reabsorvível, o material se integra aos tecidos e torna sua remoção um procedimento mutilante. Com o tempo, provoca granulomas que alteram o metabolismo do cálcio e comprometem progressivamente os rins. Há pacientes que chegaram à insuficiência renal crônica e foram impedidos de entrar na fila de transplante porque o órgão novo também seria afetado.

O Conselho Federal de Medicina, a Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica pediram formalmente à Anvisa o banimento do PMMA para uso estético. A agência avaliou o pedido e manteve a substância no mercado, autorizando seu uso apenas para finalidade reparadora, sob prescrição médica. Nenhuma ação para proibição está em curso.

O que a Austrália fez enquanto o Brasil debate

Em setembro de 2025, a agência reguladora australiana colocou em vigor um conjunto de regras que redesenhou o setor no país. Profissionais que realizam procedimentos injetáveis passaram a ser obrigados a comprovar experiência clínica mínima antes de atuar de forma independente. Prescrições remotas de toxina botulínica foram proibidas. A publicidade nas redes sociais ganhou restrições severas, incluindo a vedação ao uso de depoimentos de influenciadoras. Quem descumprir responderá com multa e, em casos graves, com prisão.

O Reino Unido caminhou na mesma direção, propondo um sistema que classifica os procedimentos por nível de risco e vincula cada faixa a exigências específicas de formação profissional. A lógica dos dois países é idêntica: estética invasiva é medicina, e medicina tem regras.

O projeto no Senado

No Brasil, essa lógica tramita em câmara lenta. Um projeto de lei que tornaria obrigatória a notificação de complicações decorrentes de procedimentos estéticos existe desde 2018. Em 2023, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e remetido ao Senado, onde aguarda votação sem data definida. Não existe sequer um banco de dados nacional capaz de mensurar com precisão a extensão real do problema. Os números disponíveis são, muito provavelmente, apenas uma fração do que de fato acontece.

No dia 20 de março, a Sociedade Brasileira de Dermatologia reúne especialistas, representantes do Judiciário e autoridades médicas para discutir saídas concretas. O consenso aponta para três frentes: penas mais duras para o exercício ilegal da medicina, fiscalização que funcione na prática e uma população suficientemente informada para exigir qualificação antes de se submeter a qualquer procedimento.

O Brasil tem o mercado. Falta ter a proteção.

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Procedimentos injetáveis lideram denúncias de complicações estéticas; casos envolvem profissionais sem formação médica e podem causar danos irreversíveis. Foto: freepik

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