terça-feira, 17 de março de 2026
bem-estar espiritual

Paz interior e propósito de vida protegem o coração

Pesquisa brasileira da Unirio associou bem-estar espiritual à saúde dos vasos sanguíneos; fé religiosa isolada não mostrou o mesmo benefício

Luana Avelarpor Luana Avelar em 17 de março de 2026
coração
Foto: freepik

Sentir que a vida tem sentido e cultivar a paz interior pode fazer bem não apenas para a mente, mas também para o coração. É o que sugere uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e publicada na revista científica PLOS One. O estudo encontrou uma associação entre bem-estar espiritual e menor probabilidade de disfunção endotelial, um marcador precoce de risco cardiovascular. A relação se manteve mesmo após os pesquisadores considerarem outros fatores que costumam influenciar a saúde do coração, como índice de massa corporal, ansiedade e depressão.

O papel do endotélio

Para entender o significado do achado, é preciso conhecer o papel do endotélio no organismo. Trata-se de uma camada fina de células que reveste internamente todos os vasos sanguíneos. Ela regula a dilatação e a contração das artérias, controla o fluxo de sangue, modula processos inflamatórios e participa da formação de coágulos. Quando essa estrutura começa a funcionar de forma inadequada, surge a disfunção endotelial: os vasos perdem capacidade de se dilatar, a inflamação aumenta e cresce o risco de obstruções arteriais. É um dos primeiros sinais de alerta do sistema cardiovascular, frequentemente silencioso.

Como o estudo foi feito

A pesquisa avaliou 148 adultos saudáveis entre 18 e 60 anos. Todos passaram por exames vasculares e responderam questionários sobre ansiedade, depressão e espiritualidade, sem vinculação a nenhuma religião específica. Os pesquisadores analisaram três dimensões da experiência espiritual: paz interior, sentido ou propósito de vida e fé. Por meio de perguntas que transformam experiências subjetivas em dados mensuráveis, foi possível cruzar os resultados com os exames de cada participante.

Espiritualidade não é religiosidade

Um ponto central do estudo é a distinção entre dois conceitos frequentemente confundidos. A religiosidade diz respeito à crença e à prática de uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um fenômeno mais amplo, presente em todas as pessoas, independentemente de seguirem alguma tradição religiosa. Ela envolve a busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo e com o mundo. Essa diferença se revelou fundamental nos resultados: paz interior e sentido de vida foram as dimensões com associação mais forte à saúde vascular. A fé religiosa isolada não mostrou o mesmo efeito protetor, sugerindo que o impacto biológico vem de um estado interno de equilíbrio e coerência com a própria vida, e não necessariamente da prática religiosa em si.

Por que a paz interior protege o coração

A hipótese dos pesquisadores envolve os mecanismos biológicos do estresse. Estados emocionais positivos, como a sensação de propósito e paz interior, tendem a reduzir a ativação crônica do sistema de estresse no organismo. Essa ativação prolongada gera inflamação, prejudica o funcionamento vascular e eleva o risco cardíaco. A conexão entre saúde emocional e saúde cardiovascular já é reconhecida pela ciência. Fatores como estresse crônico, ansiedade e depressão são considerados riscos reais para o coração. O estudo da Unirio acrescenta que dimensões positivas da experiência humana também exercem papel ativo nessa equação.

Próximos passos

Os pesquisadores pretendem acompanhar os mesmos participantes ao longo do tempo para verificar se níveis mais elevados de bem-estar espiritual se associam a menor incidência de doenças cardiovasculares. O grupo também desenvolve pesquisas com intervenções práticas, como meditação, visualização terapêutica e realidade virtual, investigando se essas estratégias são capazes de reduzir o estresse e proteger a saúde do coração.

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