quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Manda vê

A história do Maestro Cláudio Elísio e o método que ensina a cantar sem destruir a voz

O maestro goiano que transformou gagueira em superpoder e já formou mais de mil cantores

Luana Avelarpor em
Cláudio Elísio
Foto: Gabriel Louza_ O Hoje

Poucos imaginariam que a voz segura e articulada do Maestro Cláudio Elísio pertence a alguém que foi, por anos, extremamente gago. Nascido em Pirenópolis, em Goiás, ele contou sua história no podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho, na última segunda-feira (23), ao longo de mais de uma hora de conversa sobre trajetória, método e a filosofia que resume em quatro palavras: menos massa, mais timbre.

Um começo sem nenhuma credencial

Cláudio Elísio
Foto: Gabriel Louza_ O Hoje

O primeiro contato com o violão veio aos 16 anos. Com 17, já cobrava 50 reais por mês para ensinar o que sabia a um único aluno. Não porque fosse bom. Porque era atrevido. Aos 20, enquanto trabalhava como empacotador no Novo Mundo, foi chamado por um colega para ajudar o ministério de louvor de uma igreja. O grupo que encontrou pela frente não afinava, não entrava no tempo certo e repetia os mesmos erros com tanta frequência que o baterista já sabia de cor quando a virada ia sair errada. Cláudio tentou ajudar. Não funcionou. “Era terrível”, admitiu. Foi esse fracasso que o colocou em movimento.

Décadas de estudo sem parar

A partir dali, Cláudio mergulhou no estudo com uma dedicação que, décadas depois, ainda não parou. Fez Belting Contemporâneo com o Maestro Mônicaoni Araújo, estudou canto lírico contemporâneo e mergulhou no Speed Level Singing, método criado pelo americano Seth Ricks, que acompanhou Michael Jackson por cerca de 30 anos. Quando parou para contar, estava perto de 50 professores diferentes. E faz questão de dizer, sem cerimônia, que até hoje paga para aprender com quem sabe algo que ele ainda não sabe.

No caminho, ganhou concursos de canto promovidos pela UEG e chegou a finais de competições transmitidas pela Band. Foi cantando que percebeu que seu lugar não era no palco como intérprete, mas na sala de aula como formador. “Eu sou muito melhor como professor do que como cantor”, disse ao podcast, sem qualquer desconforto. A prova, para ele, é simples: hoje, praticamente todos os seus alunos cantam infinitamente melhor do que ele.

O método que transformou vozes

O centro do trabalho de Cláudio é o conceito de menos massa, mais timbre. A base é fisiológica. A fonoaudióloga Sílvia Pinho usa o termo “massa recrutável” para descrever o quanto de fibra muscular as pregas vocais acionam durante o canto. Quanto mais massa recrutada, mais esforço, mais cansaço e mais desgaste. A escola tradicional trabalhou durante décadas com recrutamento alto, resultando em vozes que impressionam em um show e somem no vigésimo do mês.

Cláudio aponta que o pedagogo italiano Francesco Lamperti já aplicava, no século XIX, uma lógica oposta, mesmo sem saber nomear o que fazia. Cantores formados nessa escola, como Pavarotti e Andrea Bocelli, obtêm projeção máxima com esforço mínimo. Para tornar o conceito concreto, ele recorre ao dueto entre Murilo Huff e Marília Mendonça em Dois Enganados: a diferença de abordagem é audível e visível, de um lado muito esforço muscular, do outro leveza, projeção e economia de força.

Os alunos de Cláudio Elísio provam o método

Um dos casos que Cláudio cita com mais orgulho é o da cantora Letícia Mendes, que chegou até ele desafinada e hoje se apresenta com projeção, afinação e presença de artista profissional. Há alunos que estudam com ele há cinco, seis anos, com voz, contrato e carreira consolidada. Mais de mil pessoas já passaram pelo seu método, entre iniciantes, músicos de igrejas, cantores sertanejos e dubladores profissionais.

Para quem questiona se um professor precisa ser melhor do que o aluno, Cláudio tem uma resposta direta: o maior vocal coach do mundo, Steve Rigs, trabalhou com Madonna, Michael Jackson e Stevie Wonder, e dificilmente se encontra um vídeo dele cantando. “O treinador do Cristiano Ronaldo joga bola igual a ele?”, pergunta. A resposta dispensa complemento.

O episódio completo com Cláudio Elísio está disponível no canal do podcast Manda Vê.

Leia mais: Débora Vitória ocupa espaço no sertanejo autoral

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