segunda-feira, 5 de outubro de 2026
OPINIÃO

Ser presidente é destino e saída de Ratinho dá chance a Caiado

A uma semana de deixar o governo, goiano é premiado com a oportunidade de se reencontrar com as ruas e estradas do Brasil, percorridas tantas vezes na política classista e na oposição de direita, que agora se reencontram com o centro

Nilson Gomespor em
Ser presidente é destino e saída de Ratinho dá chance a Caiado
Caiado e Ratinho| Foto: Jonathan Campos/Governo do Paraná

A rusga estadual entre o governador Ratinho Jr. (PSD) e o senador Sergio Moro (a caminho do PL) redundou na saída do Paraná da disputa presidencial, o que pode abrir espaço para a candidatura de Ronaldo Caiado, seu colega em dose dupla, no cargo e no partido. A última vez em que os dois Estados concorreram ao Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo federal, foi em 2018, ambos malvotados: Henrique Meirelles, goiano de Anápolis igual a Caiado, obteve 1,2%, superior ao 0,8% de Álvaro Dias, ex-senador e ex-governador paranaense nascido em São Paulo, cujo busto foi tatuado em cores nas costas de Jorge Kajuru, senador goiano também nascido em São Paulo. Ainda não está tatuado nem escrito, mas é provável que agora Ratinho ajude Caiado.

Num país polarizado, a tarefa de Caiado não é fácil. Na verdade, nunca foi. É difícil se eleger vereador em Caldazinha (na Grande Goiânia, ao lado de Senador Canedo) e Moiporá (no Oeste goiano), imagine a Chefe do Executivo federal. O governador goiano, a uma semana de passar a faixa para seu vice, Daniel Vilela (MDB), recebeu a chance de realizar o que já disse diversas vezes: “Ser presidente da República é destino”. Talvez Caiado tenha encontrado o seu. Tentou em 1989, quando foi restabelecido o voto direto, mas era sua primeira eleição e nunca havia administrado nada além da União Democrática Ruralista (UDR), organizada para defender o direito à propriedade durante a Assembleia Nacional Constituinte.

Desde então, foram cinco mandatos de deputado federal, quatro anos no Senado e dois governos em Goiás. Não mudou de partido, pois o PSD é originário do PFL, de onde também emergiram dois de seus fundadores: o presidente nacional, Gilberto Kassab, e o ex-presidente do diretório regional, Vilmar Rocha. Excelentes para articular, serão fundamentais nas conversações com outras siglas, sobretudo as de centro e direita. No início, Kassab defendia a pretensão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Após o ex-presidente Jair Bolsonaro escolher seu filho Flávio Bolsonaro (PL/RJ), Kassab reafirmou a fidelidade à família (foi ministro de Infraestrutura do pai) e manifestou apoio. Depois, Kassab mostrou-se mais próximo de Ratinho.

PORTAS ABERTAS PELA ÉTICA

No dia 14 deste março, Kassab veio a Jaraguá, filiou Caiado e disse que marcaria história se chegasse à Presidência, algo que se aproximou bastante nesses dez dias. O próximo passo é montar um time para a campanha, com seus amigos de sempre, dos que fez como médico de periferia no Rio de Janeiro, como líder ruralista em todos os quadrantes do país, ao circular bem em todos os ambientes de portas abertas pelo bom conceito quanto à ética.

Vai precisar de marketing agressivo, como o que Carlos Bolsonaro fez para o pai em 2018 e 2022 e está fazendo agora para o irmão, com o adendo de que ruas e estradas são palco de Caiado, seja em cima de um trator, na carroceria de uma caminhonete, à vontade em alguma de suas mulas ou andando a pé. Plano de governo com inovações, que não dá voto (se desse, Renan Santos, do Missão, estaria em primeiríssimo lugar), mas estabelece um diferencial entre os que falam bobagens e os que trabalham com seriedade. As melhores experiências nas áreas de educação e segurança pública no país inteiro são dos dois governadores do PSD, Caiado e Ratinho — o sistema educacional em outro Estado administrado pelo partido, o Rio Grande do Sul de Eduardo Leite, também é sinônimo de avanços.

BOM DESEMPENHO NAS REGIÕES METROPOLITANAS

Os exemplos de políticas públicas dos três gestores pessedistas precisam ser levados às praças, sobretudo à maior ágora de todos os tempos: a internet. Será um desafio interessante casar essa expertise com as necessidades de regiões específicas, como o Nordeste. É provável que Caiado se destaque com seus ótimos números de redução da violência, assim como os de Ratinho, nas regiões metropolitanas de Recife (3,7 milhões de habitantes), Salvador (3,8 milhões) e Fortaleza (4,2 milhões). Porém, nos sertões, vai precisar de muita argumentação para convencer que o Bolsa Família e a infinidade de programas sociais gerados a partir dele foram ideias de um aliado seu, o baiano Antônio Carlos Magalhães (1927–2007).

Caiado vai ganhar a eleição na Bahia, terra natal de sua mulher, Gracinha Carvalho Caiado, pois ganhou mais dois polos de convencimento: o citado combate à criminalidade e a nova paisagem do Oeste do Estado, que se povoou de lavouras altamente produtivas e ele foi um dos semeadores das riquezas do agro. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra é de seu partido, mas vive à espera do apoio ou, no mínimo, da isenção do presidente Lula na disputa estadual. O petista deve ficar com uma chapa alinhada, com João Campos (PSB) ao governo, Carlos Costa de vice e, para o Senado, Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT). Populistas e demagogos, como nas demais unidades federativas da região e também no Norte. Restarão as grandes cidades e os empreendedores, menos acessíveis a programas assistenciais como Gás do Bem.

Caiado precisa ter espaço para falar, pois tem poder de persuasão, é forte no discurso e possui conteúdo para eventuais embates. Como sempre, falta-lhe um mote: o de Flávio é o antipetismo; o de Lula é a defesa do trabalho com menor esforço. Assim, é possível que Caiado ganhe em todo o Centro-Oeste, graças ao agro e à proximidade com o sucesso de suas realizações; no interior dos Estados do Sul-Sudeste; nas áreas metropolitanas do Norte-Nordeste; divida com Lula o público do campo com menos terra e com Flávio a direita mais ideológica. O centro tende a ser caiadista — talvez até o Centrão tradicional, não o das emendas, mas o de antigos enfrentamentos políticos, quando falar em direita era praticamente proibido. (Especial para O HOJE)

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