Comunicação de Caiado deve evitar confronto com bolsonarismo
Governador goiano deve adotar estratégia de direita moderada e ampliar visibilidade nacional; especialista alerta para risco em fugir do embate com Flávio Bolsonaro
Com a desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior, em disputar a Presidência da República pelo PSD, o nome do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ganhou tração dentro da cúpula do partido. A tendência é que Caiado seja oficializado como pré-candidato ao Palácio do Planalto ainda neste mês, o que acelera não apenas as articulações políticas, mas também as definições de estratégias de comunicação.
Oficialmente, a assessoria do governador nega qualquer movimento a respeito de definições sobre a comunicação de Caiado e afirma que as estratégias serão traçadas somente após a oficialização da escolha de Gilberto Kassab, caso o governador seja o escolhido para representar o PSD.
Porém, segundo informações do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, as estratégias já teriam sido definidas. A leitura predominante é de que a propaganda de Caiado tentará apresentar o governador como um nome da direita moderada para se diferenciar do bolsonarismo mais radical. A estratégia passa por ampliar o conhecimento nacional sobre sua gestão em Goiás, com foco em áreas como segurança pública, educação e saúde.
Ao mesmo tempo, a comunicação deve evitar ataques diretos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também pré-candidato ao Planalto. “Atacar o Flávio é dar tiro no pé”, disse um aliado do governador para o colunista. A avaliação é de que o confronto direto não é a estratégia ideal para o governador.
No entanto, para o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando em Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB), Guilherme Carvalho, essa estratégia carrega riscos estruturais. Segundo o cientista, a tentativa de construir uma “terceira via” em sistemas presidencialistas como o brasileiro tende a esbarrar na lógica de polarização.
“A literatura da ciência política internacional mostra que, em sistemas com dois turnos, há uma tendência à concentração de forças em dois polos”, afirma Carvalho, em conversa com a reportagem do O HOJE.
“O Caiado sempre foi da direita tradicional brasileira. Em 1989, não havia ninguém mais à direita de Caiado, nem entre os nomes que estavam disputando aquela eleição e nem no espectro político institucional. Ele buscar ser um caminho de terceira via é um tiro no pé”, destaca Guilherme.
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Estratégia de evitar o confronto
Na avaliação do professor, ao evitar o confronto direto com o senador, o governador pode acabar por abrir mão justamente do eleitorado que precisa conquistar para se viabilizar. O cientista ressalta que o governador está se viabilizando institucionalmente, porém, falta se viabilizar no campo político nacional.
“O adversário do Caiado é o Flávio. O adversário dele no primeiro turno não é o Lula. Ele não disputa voto à esquerda. Se não disputar o eleitor de direita com o Flávio, ele vai crescer por onde? É o Flávio que detém o voto que o Caiado deveria estar buscando, que é o voto da direita tradicional”, avalia Carvalho.
O cientista ainda frisa o fato de que apenas o eleitor que acredita em uma “terceira via” não é o suficiente. “As pesquisas mostram que esse eleitor não é muito mais do que 12%. 12% não é suficiente para ir para o segundo turno. Se ele não tiver o eleitor de direita, não vai conseguir emplacar.”