quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Agronegócio

Goiás concentra 15% das recuperações judiciais no agro e expõe crise no campo

Estado é o 2º no ranking nacional, com 296 pedidos em 2025, em meio à alta dos custos, queda nas commodities e dificuldades nas safras

João César Almeidapor em
Goiás
Avanço das recuperações judiciais entre produtores rurais goianos revela o agravamento da crise no campo - Foto: Valter Campanato/ABr

Avanço das recuperações judiciais entre produtores rurais goianos revela o agravamento da crise no campoAs dificuldades para o produtor rural brasileiro se intensificaram nos últimos anos, com aumento dos custos de produção, redução nos preços dos produtos e dificuldades com as safras. Esse aumento é percebido quando se analisa o número de pedidos de recuperações judiciais e de renegociações de dívidas por parte dos produtores, que, em 2025, chegaram a 1.990 pedidos em todo o Brasil.

 

Esse dado é da Serasa Experian, que desde 2021 faz medições sobre os pedidos de recuperação judicial no território nacional. O resultado do ano passado foi o maior da série histórica, superando os 193 pedidos registrados no primeiro ano do levantamento. Se comparado com os números de 2024, os pedidos tiveram um incremento de 56,4% em apenas um ano.

 

Nesse levantamento são considerados três segmentos da cadeia produtiva: produtores rurais pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas relacionadas ao setor. O Estado de Goiás é o segundo no ranking, respondendo por 15% desse total (296 casos), atrás somente do Mato Grosso.

 

Os produtores rurais pessoas físicas lideraram o volume de solicitações em 2025, somando 853 pedidos, o que representa um aumento de 50,7% em relação aos 566 registrados em 2024. No início da série histórica, essa categoria quase não aparecia nos registros, com apenas 13 pedidos em 2021, 20 em 2022 e 127 em 2023, o que demonstra uma rápida intensificação do endividamento nesse segmento.

 

 

A recuperação judicial permite aos produtores rurais renegociar suas dívidas para manterem suas atividades. Fernando Barnabé, presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), destaca a importância desse mecanismo para evitar a paralisação do trabalho no campo, mas manifesta preocupação com o aumento no número de pedidos. “É uma forma legítima de reorganizar as finanças, mas o aumento dos casos exige atenção porque pode afetar o sistema de crédito rural”, afirma.

 

O problema para o crédito rural é a desconfiança de instituições financeiras quando vão realizar empréstimos e financiamentos. Na prática, quando mais produtores entram em recuperação judicial, bancos e instituições financeiras ficam mais cautelosos na hora de emprestar dinheiro. Isso pode tornar o crédito mais difícil e caro, o que impacta diretamente a produção no campo.

 

Com essa situação, a produção pode ser afetada, já que muitos produtores dependem desses financiamentos para continuarem ou iniciarem seus trabalhos.

 

Em Goiás, a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), vem acompanhando a situação de inadimplência do setor rural no Estado. Para isso foi criado o Comitê Jurídico de Crédito Rural, no intuito de auxiliar a entidade no estudo e exame dos assuntos jurídicos para apoiar os produtores rurais, e, também, foi criado o Grupo de Trabalho do Adimplemento do Setor Rural de Goiás.

 

Segundo o gerente técnico da Faeg, Edson Novaes, foi apurado que no final de 2025, a inadimplência da carteira de crédito rural em Goiás chegou a cerca de 6,48% do total de crédito rural disponibilizado (R$ 80 bilhões). Nesse levantamento são contabilizadas dívidas com 90 dias ou mais de atraso.

 

A dificuldade para honrar com os pagamentos é causada por diversos fatores, como as sucessivas quebras de safras, por conta das secas prolongadas ou chuvas intensas que ocasionaram perdas de safra e redução de suas produtividades. Nessa situação, os produtores acumulam dívidas oriundas de contratos de custeio e investimento vencidos e que os mesmos não tiveram condições de honrar.

 

“A queda nos preços das principais commodities nas últimas safras (soja, milho, pecuária de corte e leite), juntamente com o aumento dos custos de produção, impactam também na renda e na capacidade de pagamento dos produtores, impedindo que os mesmos pudessem pagar os seus compromissos financeiros e continuar produzindo”, complementa Novaes.

 

Para auxiliar os produtores, a Faeg tem realizado algumas ações de suporte na renegociação, prorrogação e alargamento de operações de crédito, tanto de dívidas ainda não vencidas quanto já vencidas junto a bancos, cooperativas e instituições privadas. “Até fevereiro de 2026 tínhamos a MP 1314/2025 que era o único instrumento em nível nacional, que o produtor tinha para renegociar suas dívidas. No entanto, os juros eram extremamente elevados, partindo de 15% ao ano. Mesmo com essa taxa elevada, a medida propiciou que muitos pudessem renegociar e ter um fôlego para financiar a próxima safra”, explicou o gerente técnico da Faeg.

 

Além disso, a uma atuação da Federação junto à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na articulação de propostas legislativas que ampliem as possibilidades de renegociação com condições mais compatíveis com a capacidade de pagamento dos produtores.

 

 

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