sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Problema antigo

Marginal Botafogo volta a registrar erosões e expõe problema crônico em Goiânia

Erosões reaparecem em pontos críticos da Marginal após diversos reparos, o que reforça cenário de desgaste contínuo e risco para motoristas durante o período chuvoso

Renata Ferrazpor em
Marginal
Erosão Marginal Botafogo - Foto: Gabriel Louza/O HOJE

A Marginal Botafogo voltou a apresentar novos pontos de erosão após as chuvas intensas registradas nos últimos dias em Goiânia. Em um dos trechos mais críticos e que sempre apresenta problemas está localizado entre a Rua 21 e a Rua 10 na região central, isso porque o solo já dá sinais evidentes de instabilidade. Camadas de terra começaram a se desprender, formando trincas, rachaduras e buracos próximos ao canal do córrego e à pista, o que aumenta o risco de deslizamentos e acidentes.

Além disso, motoristas que passam diariamente pelo local relatam insegurança constante. Em horários de pico, o fluxo intenso de veículos se mistura com áreas parcialmente comprometidas, exigindo atenção redobrada. Em alguns casos, pequenos desvios improvisados surgem como alternativa, o que contribui para a desorganização do trânsito.

Outro ponto que chama atenção é o fato de que áreas que passaram por reparos recentes já voltam a apresentar desgaste. Ou seja, as intervenções realizadas não têm sido suficientes para conter o problema de forma duradoura. Com isso, a população passa a conviver com uma sensação de solução temporária, em que obras são feitas, mas não resolvem definitivamente a situação.

Problema que se repete ao longo dos anos

A recorrência das erosões na Marginal Botafogo revela um problema estrutural que se arrasta há décadas. Construída há mais de 30 anos, a via seguiu um modelo urbano que priorizava a canalização de cursos d’água para ampliar o espaço viário. Na época, a proposta atendeu à demanda de mobilidade, mas não considerou, de forma adequada, os impactos a longo prazo no sistema de drenagem.

Com o crescimento acelerado de Goiânia, principalmente nas regiões centrais e adjacentes à bacia do córrego, o cenário se agravou. Áreas que antes absorviam a água da chuva foram substituídas por asfalto, concreto e edificações. Como consequência, o volume de água que chega ao canal aumentou significativamente, elevando a pressão sobre a estrutura da marginal.

A via já foi interditada diversas vezes nos últimos anos devido a alagamentos, erosões e riscos estruturais. Motoristas relatam prejuízos frequentes sempre que o trânsito é interrompido, além de congestionamentos e rotas alternativas improvisadas.

Além disso, o desgaste constante das estruturas exige investimentos recorrentes em manutenção. No entanto, grande parte dessas ações tem caráter emergencial, o que contribui para a repetição do problema. Assim, a marginal se tornou um exemplo claro de como intervenções paliativas não conseguem acompanhar a complexidade da dinâmica urbana atual.

Trechos críticos e riscos para motoristas

Atualmente, diferentes pontos da marginal apresentam sinais de comprometimento. Em um dos trechos mais preocupantes está próximo a região da 44, um local que havia sido recentemente recuperado já volta a apresentar abertura no solo, indicando falha na contenção. Esse tipo de situação reforça a percepção de que as soluções aplicadas não têm resistência suficiente para suportar o volume de água e a pressão exercida durante as chuvas.

Em alguns momentos, veículos sequer conseguem acessar determinados trechos durante muitas chuvas, o que gera dúvidas entre motoristas sobre a continuidade da via e a existência de rotas de saída.

Outro destaque é a região conhecida como “forno Cascavel”, onde a força da água se intensifica devido à convergência de diferentes microbacias. Nesse ponto, a enxurrada chega com grande velocidade, ampliando o risco de erosões e dificultando qualquer tipo de contenção mais simples. Técnicos apontam que parte da água percorre longas distâncias subterrâneas antes de chegar ao canal, o que aumenta ainda mais a pressão sobre a estrutura.

Diante desse cenário, a marginal se torna especialmente perigosa em períodos de chuva intensa. Motoristas podem ser surpreendidos por alagamentos rápidos, deslizamentos de terra e até interdições emergenciais, o que exige atenção constante.

Falta de solução definitiva levanta questionamentos

O especialista Fred Le Blue, que é urbanista, destaca ser unânime afirmar que o problema da Marginal Botafogo não é pontual, mas estrutural. A canalização rígida do córrego, associada a um sistema de drenagem defasado, impede que a água seja absorvida de forma eficiente. Como resultado, o excesso de volume se concentra na via, provocando desgastes contínuos.

Além disso, a urbanização desordenada ao longo dos anos contribuiu para agravar ainda mais a situação. Áreas verdes e espaços de infiltração foram reduzidos, enquanto o avanço urbano aumentou a impermeabilização do solo. Dessa forma, a água da chuva passou a escoar com maior velocidade, intensificando os impactos sobre a Marginal Botafogo.

Dentro desse cenário, a Prefeitura de Goiânia passou a apostar em medidas de contenção emergencial, como a instalação de totens de monitoramento com cancelas automáticas em diferentes pontos da via, especialmente no Complexo Jamel Cecílio. 

A proposta é bloquear o acesso de veículos de forma mais rápida durante temporais, reduzindo riscos para motoristas. No entanto, na prática, a medida tem sido vista como paliativa, já que atua apenas no controle do tráfego, sem resolver a fragilidade estrutural da marginal.

O contraste ficou evidente poucos dias após a implantação do sistema. Em menos de uma semana, uma erosão nas proximidades da ponte da Rua 21 voltou a comprometer a via, provocando interdição parcial e exigindo desvio. A situação reforça uma crítica recorrente: as cancelas até ajudam a evitar que carros entrem em áreas de risco, mas não impedem que o asfalto ceda ou que novas erosões surjam.

Dessa forma, as estruturas funcionam como um “tampão” diante de um problema mais profundo. Enquanto as intervenções continuarem focadas em soluções emergenciais, a tendência é que o ciclo de danos se repita. Sem uma reestruturação completa do sistema de drenagem e da própria concepção da via, a marginal seguirá vulnerável, especialmente durante o período chuvoso.

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