terça-feira, 20 de outubro de 2026
Instabilidade

Imposto zero na importação impacta indústria e pode gerar instabilidade

Após alta de tarifas em fevereiro para proteger a indústria nacional, decisão da Camex busca reduzir custos e conter pressões inflacionárias, mas gera incertezas no setor produtivo

Renata Ferrazpor em
Imposto
Foto: Miguel Ângela/CNI

A decisão do governo federal de zerar, por quatro meses, o Imposto de Importação de 970 produtos reacendeu o debate sobre os efeitos das mudanças frequentes na política econômica brasileira, especialmente em Estados com forte base industrial como Goiás. 

A medida, aprovada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), ocorre pouco mais de um mês após o aumento das tarifas sobre mais de mil itens, adotado como estratégia para proteger a indústria nacional.

Agora, ao reverter parte dessas cobranças, o governo busca aliviar custos de produção e ampliar a oferta de insumos no mercado interno. Entre os itens beneficiados estão máquinas, equipamentos industriais, produtos de informática e outros insumos considerados essenciais, mas com produção insuficiente no País. A decisão atende, sobretudo, a demandas do setor produtivo, que vinha pressionando por uma revisão das tarifas.

De acordo com o economista Leonardo Ferraz, esse movimento faz parte de uma estratégia de ajuste conjuntural. “O aumento do imposto de importação serve para proteger a indústria nacional e evitar concorrência externa mais barata. Já a redução ou zeragem ocorre quando há pressão inflacionária ou necessidade de baratear insumos e ampliar a oferta”, explica. Segundo ele, esse tipo de medida não é incomum, mas pode gerar ruídos no mercado quando ocorre com frequência.

Em Goiás, os impactos são observados com atenção por empresários e entidades do setor industrial. Isso porque o Estado possui cadeias produtivas fortemente integradas ao mercado internacional, especialmente nos segmentos de agroindústria, alimentos, farmacêutico, mineração e metal-mecânico. 

Com o aumento das tarifas em fevereiro, houve elevação de custos para empresas que dependem de equipamentos importados. Agora, com a suspensão temporária do imposto, a expectativa é de algum alívio ainda que limitado.

Impactos no setor produtivo goiano

Apesar da redução, especialistas alertam que os efeitos não são imediatos. Isso porque empresas ainda trabalham com estoques adquiridos sob a antiga carga tributária. “O repasse ao consumidor ou a redução de custos na ponta pode levar de 30 a 90 dias, e mesmo assim não é garantido”, destaca Ferraz. Ele ressalta que, em muitos casos, a medida apenas evita novos aumentos, sem necessariamente gerar queda de preços.

Além disso, o cenário levanta preocupações sobre previsibilidade econômica. Para o economista, a alternância entre aumento e redução de impostos pode sinalizar instabilidade. “Investidores e empresários precisam de regras claras. Quando há mudanças frequentes, isso pode indicar reação a problemas já instalados, e não uma política de longo prazo”, afirma.

Outro ponto de atenção é o impacto sobre a indústria nacional. Com a redução do imposto, produtos importados tendem a ficar mais competitivos, o que pode pressionar as empresas brasileiras. “Isso pode reduzir margens de lucro, desestimular investimentos e, em alguns casos, afetar o nível de emprego”, completa.

Na prática, setores como o de plásticos já sentem os efeitos das oscilações. Empresários relatam aumento de custos recentes, especialmente em itens como sacolas plásticas, que registraram alta significativa. Ao mesmo tempo, o setor se mobiliza para entender como a nova medida pode influenciar preços e competitividade nos próximos meses.

Embora a decisão de zerar o imposto seja vista como positiva no curto prazo, especialistas apontam que ela não resolve problemas estruturais da economia brasileira. Entre eles estão a baixa produtividade, os altos custos logísticos, a dependência de insumos importados e a complexidade do sistema tributário.

“É uma medida paliativa. Ajuda a conter pressões momentâneas, mas não resolve as causas da inflação nem fortalece a indústria de forma sustentável”, avalia Ferraz. Segundo ele, o risco é que o País continue dependente de ajustes emergenciais, sem avançar em reformas estruturais.

Diante desse cenário, Goiás acompanha de perto os desdobramentos. A expectativa é que o mercado se ajuste ao longo dos próximos meses, mas o episódio reforça a necessidade de políticas mais estáveis e previsíveis.

Leia mais:  Rigor da China trava exportação de soja e pressiona mercado em Goiás

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