sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Por trás dos chocolates

Por que o símbolo da Páscoa é o ovo e o coelho?

Por trás dos chocolates e das decorações, há séculos de tradições pagãs, cristãs e folclóricas que explicam como esses dois símbolos chegaram até a data mais doce do calendário

Luana Avelarpor em
Páscoa
Foto: Shutterstock

Todo ano, na Páscoa, ovos de chocolate enchem as prateleiras e coelhos de pelúcia decoram as vitrines. Mas por que exatamente esses dois símbolos? O que um roedor e um ovo têm a ver com a ressurreição de Jesus Cristo? A resposta passa por uma mistura fascinante de tradições pagãs, folclore europeu e estratégias da Igreja Católica ao longo dos séculos.

A origem do ovo pascal

O ovo é um símbolo de vida, renascimento e fertilidade em praticamente todas as culturas antigas. Muito antes do cristianismo, povos da Mesopotâmia, do Egito e da Pérsia já trocavam ovos decorados na chegada da primavera, celebrando o fim do inverno e o retorno da vida à natureza.

Com a expansão do cristianismo pela Europa, a Igreja incorporou esse simbolismo ao calendário religioso. O ovo passou a representar o túmulo selado de onde Jesus ressuscitou, e a casca quebrada tornou-se metáfora da pedra removida da entrada do sepulcro. A tradição de pintar ovos vermelhos, ainda presente em países como Grécia e Rússia, simboliza o sangue de Cristo derramado na crucificação.

Há ainda uma explicação mais prática. Durante a Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa, os cristãos eram proibidos de consumir ovos. As galinhas, no entanto, não sabiam disso e continuavam botando. Os ovos acumulados ao longo da Quaresma eram então decorados e distribuídos como presentes no domingo de Páscoa, celebrando o fim do jejum.

A transformação do ovo de galinha no ovo de chocolate aconteceu muito depois, no século XIX, na Europa, impulsionada pelo desenvolvimento da indústria chocolateira. A França e a Alemanha são apontadas como os berços do ovo de Páscoa de chocolate, que rapidamente se espalhou pelo mundo e se tornou o presente mais associado à data.

A origem do coelho da Páscoa

O coelho tem uma origem menos religiosa e mais folclórica. A história começa na mitologia germânica, com Eostre, deusa da primavera e da fertilidade. Segundo a lenda, ela teria transformado um pássaro ferido em uma lebre para salvá-lo do inverno, mas o animal conservou a capacidade de botar ovos. Em agradecimento, a lebre decorava esses ovos e os oferecia às crianças.

A ligação com a Páscoa se fortaleceu quando tribos germânicas cristãs que celebravam Eostre foram convertidas ao cristianismo. A Igreja, seguindo uma estratégia já conhecida de absorver tradições locais para facilitar a conversão, incorporou alguns elementos da festa ao calendário cristão. O nome Páscoa em inglês, Easter, é derivado justamente do nome da deusa Eostre.

O coelho, por sua vez, chegou à Páscoa como símbolo de fertilidade e renovação, características que se alinhavam ao espírito da data. Na tradição alemã do século XVII, surgiu o Osterhase, o coelho de Páscoa que escondia ovos coloridos nos jardins para as crianças encontrarem. Os imigrantes alemães levaram esse costume para os Estados Unidos no século XVIII, e de lá a tradição se espalhou pelo mundo inteiro.

Leia mais: Filmes e séries sobre Jesus Cristo para refletir durante a Páscoa

Por que os dois juntos?

A combinação do coelho e do ovo na Páscoa é, portanto, resultado de uma longa sobreposição de culturas e tradições. Os dois símbolos compartilham o mesmo campo semântico, vida, fertilidade, renovação e primavera, e foram sendo absorvidos pelo calendário cristão ao longo de séculos. A indústria do chocolate fez o resto, transformando os dois em ícones comerciais que hoje movimentam bilhões em todo o mundo.

No Brasil, onde a Páscoa chega no outono e não na primavera, os símbolos chegaram já desconectados do contexto climático original, mas ganharam força pela tradição religiosa e, claro, pelo apelo irresistível do chocolate.

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