segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Análise

Em ano eleitoral, governo Lula mantém relação pragmática com Congresso

Indicações, cargos e acordos pontuais marcam relação com o Centrão, que tende à trégua para evitar conflitos durante a disputa eleitoral

Bruno Goulartpor em
Lula
Na prática, o governo tem buscado manter uma relação equilibrada com lideranças do Legislativo. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Bruno Goulart

A relação entre o governo do presidente Lula da Silva (PT) e o Congresso Nacional segue marcada pelo pragmatismo, característica já comum da política brasileira. Em ano eleitoral, essa lógica fica ainda mais evidente, com menos espaço para conflitos e mais abertura para acordos que garantam estabilidade.

Na prática, o governo tem buscado manter uma relação equilibrada com lideranças do Legislativo. Um exemplo são as indicações para cargos importantes. O deputado Odair Cunha (PT-MG) é o nome apoiado para o Tribunal de Contas da União (TCU), com respaldo do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Já o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, foi indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Lula, mas enfrentou resistências. Agora, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), afirma que o nome pode ser aprovado na Casa Alta.

Para especialistas ouvidos por O HOJE, essas movimentações mostram uma relação baseada na troca de apoios. O doutor em sociologia política José Elias Domingos explica que isso faz parte do funcionamento do sistema político brasileiro. “Há uma necessidade constante de negociação entre o Executivo e o Legislativo”, afirma.

Altos e baixos na relação

Segundo o cientista político Lehninger Mota, a relação entre Planalto e Congresso não é estável. “Relação de altos e baixos. Em alguns momentos houve tensão, em outros, cooperação, como na aprovação da reforma tributária”, diz.

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Mota avalia que, neste momento, os interesses são mais pontuais. “Em ano eleitoral, não há tanto espaço para grandes embates. A relação fica mais baseada em acordos específicos”, explica. Mesmo assim, o governo conseguiu avançar em pautas importantes. “Não foi do jeito que queria, mas evitou perdas, principalmente na reforma tributária”, completa.

Trégua para evitar desgaste

A tendência agora é de uma espécie de trégua entre governo e Centrão. Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, o momento pode ser resumido de forma simples: ninguém quer conflito. “O governo não quer estressar o Centrão. E o Centrão também não quer brigar com o governo”, afirma. Segundo Zancopé, ainda não houve um episódio recente que tenha colocado essa relação à prova.

O historiador cita que projetos mais polêmicos teriam o potencial de mudar esse cenário. “Se o governo enviasse propostas mais sensíveis, isso poderia alterar o clima no Congresso”, diz. José Elias Domingos reforça que essa calmaria interessa aos dois lados. “O governo precisa de estabilidade para enfrentar a eleição e o Centrão quer tranquilidade para garantir espaço e reeleição”, afirma.

Cargos e emendas como negociação

Outro ponto importante nessa relação é o uso de cargos e recursos para garantir apoio político. O especialista em marketing político e mestre em comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Felipe Fulquim destaca que essa prática é comum. “O governo tem instrumentos para negociar, como cargos e emendas. Isso ajuda a construir maioria”, explica.

Fulquim diz acreditar que essa estratégia deve continuar ao longo do ano. “A tendência é manter o Centrão próximo, com espaços no governo e apoio a pautas de interesse”, diz. Além disso, o governo também aposta em medidas populares. “Ações para ajudar pessoas endividadas, por exemplo, são formas de ampliar apoio político e social”, afirma.

Próximos desafios

Mesmo com esse cenário mais estável, há desafios pela frente. Propostas mais sensíveis, como mudanças na carga horária de trabalho, no caso do fim da jornada 6×1, podem testar a relação entre governo e Congresso. Por enquanto, no entanto, o clima é de cautela. Palácio do Planalto e Centrão evitam conflitos, não arriscam grandes disputas e preferem manter o equilíbrio.

No fim, a relação segue baseada em interesses e negociações, algo já conhecido na política brasileira, mas que ganha ainda mais força em ano eleitoral. (Especial para O HOJE)

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