Mercado pet avança e já supera alimentos básicos no consumo das famílias
Gastos com animais crescem acima de itens essenciais e refletem mudança estrutural no comportamento do consumidor
O mercado pet deixou de ser um nicho complementar e passou a disputar espaço direto com itens essenciais no orçamento das famílias. Dados recentes mostram que os gastos com animais de estimação já crescem em ritmo superior ao dos alimentos básicos na América Latina, evidenciando uma mudança estrutural no comportamento de consumo.
Levantamento da Worldpanel by Numerator aponta que o segmento de pet food ampliou em 30% sua participação dentro do total de bens de consumo massivo (FMCG), superando categorias tradicionalmente prioritárias. O avanço ocorre mesmo em um cenário de pressão inflacionária sobre itens essenciais, o que indica uma reorganização das prioridades dentro dos lares.
Humanização impulsiona consumo
A principal explicação para esse fenômeno está na chamada “humanização” dos pets. Cada vez mais tratados como membros da família, os animais passaram a ocupar posição central nas decisões de compra.
No Brasil, essa tendência é evidente. O país já reúne cerca de 160 milhões de animais de estimação e ocupa a terceira posição no ranking global do setor. A presença média de mais de um pet por residência reforça o vínculo emocional e o aumento do gasto com alimentação, saúde e bem-estar.
Essa mudança também é demográfica. Lares formados por pessoas com mais de 65 anos e sem filhos concentram hoje 16% do valor de mercado do segmento, reforçando o papel dos animais como companhia e suporte emocional.

Setor bilionário e resiliente
O avanço do consumo se reflete nos números. O mercado pet brasileiro movimentou R$ 75,4 bilhões em 2024 e deve alcançar cerca de R$ 77 bilhões em 2025. Mesmo com crescimento mais moderado recentemente, o setor segue entre os mais resilientes da economia.
O segmento de alimentação lidera com folga, representando mais da metade do faturamento total. Em seguida, aparecem serviços veterinários, produtos de saúde animal e acessórios.
Além disso, o setor gera impacto relevante na economia, com milhões de empregos diretos e indiretos, especialmente em clínicas, pet shops e serviços especializados.
Digitalização acelera transformação
Outro fator decisivo para o crescimento é a digitalização. Nos últimos três anos, o e-commerce de alimentos para pets cresceu mais de 300% em valor na América Latina, com aumento de 60% na penetração entre consumidores.
O Brasil lidera essa expansão, com aumento consistente de novos lares compradores e maior adesão aos canais digitais. O modelo de compras recorrentes, com entregas programadas, tem ganhado força e ampliado o ticket médio.
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Em mercados mais maduros, como o México, o comércio eletrônico já representa parcela relevante do setor, enquanto países como a Argentina combinam digitalização com estratégias de consumo mais racional.
Prioridade mesmo em crise
Um dos pontos mais relevantes do avanço do mercado pet é sua resistência a cenários econômicos adversos. Enquanto categorias básicas crescem em ritmo mais lento, os gastos com animais continuam em alta.
O “share of spend” da categoria pet atingiu 4% do total de FMCG, com crescimento 60% superior ao observado em itens essenciais. Esse dado reforça que o bem-estar dos animais passou a ser priorizado mesmo em momentos de restrição orçamentária.

Na prática, isso significa que os consumidores estão dispostos a reduzir gastos em outras áreas antes de comprometer cuidados com seus pets.
Novos negócios e oportunidades
O cenário abre espaço para novos modelos de negócio. Serviços de assinatura, planos de saúde animal, alimentação premium, produtos naturais e soluções tecnológicas estão entre os segmentos que mais crescem.
Pequenas e médias empresas têm encontrado oportunidades nesse ecossistema, impulsionadas pela diversificação da demanda e pela especialização dos serviços.
Com a combinação de vínculo emocional, digitalização e expansão econômica, o mercado pet se consolida como um dos mais dinâmicos do varejo contemporâneo — e, cada vez mais, um concorrente direto das categorias consideradas básicas no orçamento das famílias.