sexta-feira, 10 de abril de 2026
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Temporal expõe falhas estruturais, causa alagamentos e pressiona prefeitura de Goiânia

“Não é a drenagem, é o modelo da cidade”, diz urbanista sobre caos após chuva que caiu em Goiânia

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 10 de abril de 2026
Alagamentos
Foto: Reprodução/TV Anhanguera

A forte chuva que atingiu Goiânia na tarde de quarta-feira (8) provocou uma série de transtornos e evidenciou, mais uma vez, a vulnerabilidade da Capital diante de eventos climáticos intensos. Em pouco mais de uma hora, o grande volume de água foi suficiente para causar alagamentos em vias importantes, arrastar veículos e comprometer a mobilidade em diferentes regiões da cidade.

De acordo com a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), foram registradas 25 ocorrências relacionadas ao temporal, sendo 18 quedas de árvores, com maior concentração no Setor Goiânia 2, e outros sete casos de galhos quebrados. As equipes atuaram de forma contínua para remover troncos e a chamada “massa verde” para liberar as vias e reduzir os riscos para motoristas e pedestres.

Além disso, os estragos também atingiram estruturas urbanas. Em diferentes bairros, a força da água danificou o asfalto, abriu erosões e comprometeu as calçadas. 

Moradores relataram medo da invasão da água em suas residências, principalmente em áreas mais baixas e com histórico de alagamentos. Em alguns pontos, a enxurrada também carregou lixo e entulho, o que agravou o entupimento de bocas de lobo e dificultou ainda mais o escoamento da água.

Outro fator que contribuiu para o agravamento dos impactos foi justamente o acúmulo de resíduos descartados de forma irregular. Segundo dados da prefeitura, centenas de toneladas de lixo são retiradas mensalmente da rede de drenagem, o que evidencia um problema recorrente que interfere diretamente no funcionamento do sistema pluvial da cidade. Segundo dados municipais, somente no primeiro trimestre de 2026, mais de 210 mil toneladas de resíduos foram retiradas das ruas e da rede de drenagem .

Alagamentos e acidentes expõem pontos críticos

Os alagamentos voltaram a atingir pontos conhecidos da Capital. A Marginal Botafogo foi novamente tomada pela água, o que levou à interdição parcial da via. Já na Perimetral Norte, um acidente entre um ônibus e um caminhão agravou ainda mais os transtornos no trânsito, provocou congestionamentos e exigiu a atuação das equipes de resgate e de trânsito.

Outros pontos da Capital, como a Avenida 85, o Setor Crimeia Leste e a região do Perim, também registraram ocorrências. Em alguns casos, veículos foram arrastados pela enxurrada e motoristas ficaram ilhados, sendo necessário o resgate por equipes do Corpo de Bombeiros. A repetição dessas cenas reforça o histórico de vulnerabilidade em áreas específicas da cidade.

Dados do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) mostram que o volume de chuva chegou a 99,2 milímetros em algumas regiões, especialmente no Setor Goiânia 2. Em pelo menos 17 pontos monitorados, o índice ultrapassou 25 milímetros, considerado crítico pela Defesa Civil para ocorrência de alagamentos.

O impacto também atingiu o comércio. Estabelecimentos tiveram mercadorias danificadas pela água e, em alguns casos, precisaram suspender temporariamente o funcionamento para limpeza e reparos, o que ampliou os transtornos. Em paralelo, moradores enfrentaram dificuldades para retornar para casa ou sair de regiões alagadas, o que afetou diretamente a rotina da população.

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Modelo urbano agrava impactos das chuvas

Para especialistas, os problemas vão além da intensidade da chuva. A arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza explica que o modelo de urbanização é um dos principais fatores que contribuem para os alagamentos. “Todo local por onde a água passar que tiver sua superfície impermeabilizada ou que retenha essa água, vai ficar alagado. Goiânia alaga porque, no modelo de cidade que a gente vive, a água não tem tempo nem espaço para escoar até o seu caminho natural”, afirma.

Segundo Maria Ester, a drenagem não deve ser vista como problema central. “Drenagem é a característica. A urbanização e a gestão são os responsáveis”, destaca. A especialista aponta que a ocupação de áreas de preservação permanente e a impermeabilização excessiva agravam o cenário. 

“A gente ocupa áreas de alagamento, cimenta tudo e constrói em cima. Esse é um modelo errado de urbanização. E a gestão muitas vezes não fiscaliza adequadamente”, completa.

Maria Ester também chama atenção para intervenções urbanas que podem intensificar os impactos. “Obras como a Marginal Botafogo acabam agravando um problema que já é complexo. Os rios são dinâmicos, especialmente no Cerrado, e quando são ‘encaixotados’, a drenagem piora significativamente”, explica.

Necessidade de soluções mais amplas

A arquiteta e urbanista ainda defende que soluções mais amplas precisam ser adotadas, como a ampliação de áreas permeáveis, preservação de nascentes e recuperação de matas ciliares, além de políticas públicas voltadas ao planejamento urbano sustentável.

Em meio aos impactos do temporal, a Prefeitura de Goiânia anunciou o início de obras estruturais na Marginal Botafogo a partir deste sábado (11), na altura da Rua 21, no sentido Centro. A intervenção prevê desde movimentação de terra até recuperação de estruturas e recomposição asfáltica, com interdição total do trecho.

Apesar disso, o histórico de intervenções na via levanta questionamentos sobre a efetividade das ações. Isso porque a região já passou por obras anteriores, muitas consideradas paliativas, sem impedir novos episódios de alagamento. A expectativa é que, desta vez, as intervenções tenham caráter mais duradouro, embora ainda haja cautela por parte de especialistas e da população.

Além das obras pontuais

Para a urbanista, soluções estruturais precisam ir além de obras pontuais. “Uma das alternativas é ‘desencapar’ a cidade, permitindo que a água encontre seu caminho até os rios sem obstáculos”, afirma. Maria Ester também reforça a necessidade de adaptação das vias. “Se as ruas funcionam como caminhos de escoamento, elas precisam estar preparadas para chuvas intensas”, pontua.

Enquanto isso, o alerta permanece. O Cimehgo indica risco de novas chuvas volumosas, com possibilidade de rajadas de vento e descargas elétricas nos próximos dias. Diante desse cenário, a repetição dos transtornos reforça a necessidade de planejamento urbano mais eficiente, capaz de reduzir, de forma definitiva, os impactos das chuvas na capital goiana.

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