segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Eleições 2026

Chegada de Nunes Marques ao comando do TSE ocorre em momento sensível

Transição antecipada amplia tempo de preparação do Tribunal Superior Eleitoral e coloca nova gestão diante de desafios como desinformação, IA e polarização política

Bruno Goulartpor em
Nunes Marques
Tendência é de uma gestão com perfil “mais formalista e garantista”, aponta especialista. Foto Gustavo Moreno/STF

Bruno Goulart

A decisão da ministra Cármen Lúcia de antecipar sua saída da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) muda o ritmo da preparação para as eleições deste ano e amplia o tempo de transição no comando da Justiça Eleitoral. A eleição de Kássio Nunes Marques está marcada para a próxima terça-feira (14), com posse prevista para maio. Ao justificar a medida, a ministra afirmou que a mudança busca garantir “equilíbrio e tranquilidade na passagem das funções”.

Inicialmente, a troca de comando ocorreria apenas em julho, o que deixaria cerca de cem dias para a nova gestão organizar o pleito. Com a antecipação, esse prazo será maior, o que permite ajustes com mais calma. Na nova composição, o ministro André Mendonça assume a vice-presidência do Tribunal.

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Especialistas avaliam que a mudança ocorre em um momento delicado. As eleições devem ser marcadas pelo uso crescente da inteligência artificial, tanto em campanhas quanto na disseminação de informações falsas. Para o advogado eleitoralista Júlio Meireles, a chegada de Nunes Marques acontece em um cenário “particularmente sensível”. Segundo o profissional, a tendência é de uma gestão com perfil “mais formalista e garantista”, que busque equilibrar o combate a abusos com a preservação da liberdade de expressão.

Meireles alerta que o principal desafio será transformar regras em ações práticas. “A efetividade dessas normas dependerá diretamente da capacidade da presidência em coordenar regulação, capacidade técnica e velocidade decisória”, afirma.

Responsabilidade institucional

Por outro lado, a antecipação da mudança é vista como um gesto de responsabilidade institucional. Para o presidente da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas e Valorização da Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Pedro Paulo de Medeiros, a decisão de Cármen Lúcia demonstra “desprendimento pessoal e compromisso genuíno com o interesse público”. Sobre o novo presidente, Medeiros avalia que a experiência como advogado pode influenciar sua atuação. “Essa origem forja uma sensibilidade que faz diferença no exercício da jurisdição.”

Entre as expectativas para a nova gestão, Medeiros destaca pontos como transparência e segurança jurídica. O presidente da comissão da OAB defende que a Justiça Eleitoral deve atuar com equilíbrio. “É fundamental que o Tribunal atue com previsibilidade normativa e respeito irrestrito às prerrogativas da advocacia”, afirma.

No campo administrativo, a mudança também pode trazer ajustes internos. O advogado especialista em Direito Público León Safatle lembra que o TSE não apenas julga processos, mas também organiza as eleições em todo o País. Segundo Safatle, a antecipação da transição é importante porque “dá mais tempo para a nova presidência organizar a casa visando as eleições”.

O especialista em Direito Público também chama atenção para o cenário político. Pela primeira vez, o Tribunal será presidido por um ministro indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para Safatle, isso pode ajudar a reforçar a confiança de parte da população no sistema eleitoral. “A tendência é que adotem uma postura institucional em defesa do sistema eleitoral”, afirma.

Já o advogado eleitoralista Dyogo Crosara avalia que mudanças devem acontecer, principalmente pelo perfil diferente entre os presidentes. “Quando há mudança de perfis, é natural que ocorram alterações na condução dos trabalhos.” Crosara aponta que pode haver uma postura mais flexível em temas como propaganda eleitoral, mas ressalta que o TSE toma decisões de forma coletiva, o que limita mudanças mais profundas. “A presidência tem influência, mas não decide sozinha”, pontua. (Especial para O HOJE)

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