sexta-feira, 17 de abril de 2026
saúde

Por que a “barriga de chope” ameaça o coração

Acúmulo de gordura abdominal altera a estrutura cardíaca e pode indicar risco maior do que o peso total

Luana Avelarpor Luana Avelar em 13 de abril de 2026
coração

O que a chamada “barriga de chope” realmente revela sobre a saúde? Mais do que um detalhe visível, ela pode ser um sinal de alterações internas que não aparecem em exames básicos nem provocam sintomas imediatos. Um estudo apresentado no fim de 2025, em um congresso internacional de radiologia nos Estados Unidos, sugere que a forma como a gordura se distribui no corpo pode dizer mais sobre o coração do que o próprio peso.

A pesquisa reuniu mais de 2.200 adultos entre 46 e 78 anos, submetidos a exames de ressonância magnética cardíaca. A análise comparou dois indicadores comuns na prática clínica: o índice de massa corporal, que reflete o peso total, e a relação cintura-quadril, que aponta a concentração de gordura na região abdominal. Os resultados indicam que é essa distribuição, e não apenas o excesso de peso, que está mais associada a mudanças na estrutura do coração.

Quando a gordura se concentra no centro

A gordura acumulada no abdômen, especialmente em camadas mais profundas, tem comportamento diferente daquela que fica sob a pele. Ela atua de forma ativa no organismo, favorecendo um estado contínuo de inflamação. Esse processo está ligado a alterações metabólicas que, ao longo do tempo, aumentam a pressão sobre o sistema cardiovascular.

Nos exames de imagem, esse impacto aparece de forma clara. À medida que a relação cintura-quadril aumenta, o músculo cardíaco passa por um processo de remodelamento. As paredes se tornam mais espessas, principalmente no ventrículo esquerdo, enquanto o espaço interno das cavidades diminui. O coração, que depende de elasticidade para se encher e esvaziar a cada batimento, perde parte dessa capacidade.

Adaptação do organismo

No início, o corpo tenta compensar esse esforço adicional. O coração acelera para manter o fluxo sanguíneo. Com o tempo, porém, essa resposta deixa de ser suficiente. O músculo se torna mais rígido e encontra dificuldade para relaxar entre uma contração e outra, o que compromete a eficiência da circulação.

Um dos pontos mais relevantes do estudo é que essas alterações foram identificadas em pessoas sem diagnóstico de doença cardiovascular. A ausência de sintomas não impede que o processo esteja em curso. Ao contrário, indica que parte do risco pode se desenvolver de forma silenciosa, sem sinais evidentes nas fases iniciais.

Peso não é o único critério

Quando os pesquisadores analisaram apenas o índice de massa corporal, o padrão observado foi distinto. Indivíduos com peso elevado, mas sem concentração significativa de gordura abdominal, apresentaram aumento das cavidades cardíacas, sem o mesmo espessamento das paredes. A diferença ajuda a explicar por que pessoas com o mesmo peso podem ter níveis de risco diferentes.

O índice de massa corporal não distingue massa muscular de gordura nem indica onde essa gordura está localizada. Já a relação cintura-quadril direciona a análise para a região central do corpo, onde o impacto metabólico tende a ser maior.

Leia mais: Saiba como a dieta pode ajudar no tratamento da diarreia

Diferenças entre homens e mulheres

O estudo também aponta variações entre os sexos. Os efeitos da gordura abdominal foram mais intensos nos homens, que tendem a concentrar mais gordura na região do abdômen. Entre mulheres, especialmente antes da menopausa, o acúmulo costuma ocorrer com maior frequência em áreas como quadris e coxas, padrão associado à menor impacto metabólico.

Com o avanço da idade, essa diferença tende a diminuir. Mudanças hormonais alteram o padrão de armazenamento de gordura, aproximando o risco entre homens e mulheres.

Um novo olhar sobre o risco

Os resultados indicam que avaliar apenas o peso pode ser insuficiente para compreender o risco cardiovascular. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, oferecem informações mais precisas sobre o que está acontecendo no organismo.

Mais do que reduzir números na balança, a evidência aponta para a importância de observar onde a gordura se acumula. Em um cenário em que o corpo pode parecer saudável por fora, é essa distribuição que ajuda a revelar, com mais clareza, os riscos que se desenvolvem por dentro.

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Tags:
Veja também