terça-feira, 27 de outubro de 2026
Vida ao Ar Livre

Escotismo mantém tradição e forma jovens em Goiânia

Há quase quatro décadas, o Grupo Escoteiro Rudyard Kipling forma crianças e jovens com autonomia, liderança e espírito coletivo

Luana Avelarpor em
Escotismo
Foto: divulgação

Tudo começou debaixo de uma árvore. Em 1987, famílias do Parque das Laranjeiras, em Goiânia, decidiram criar um espaço onde crianças aprendessem convivência, autonomia e responsabilidade antes mesmo de qualquer formação formal. Assim nasceu o Grupo Escoteiro Rudyard Kipling, o GERK, que em quase quatro décadas já passou por 1.500 jovens e hoje reúne 126 membros ativos, entre crianças, adolescentes e adultos voluntários.

O nome homenageia o autor britânico de O Livro da Jângal, cujas histórias ensinam colaboração e vida em alcateia. A instituição tem reconhecimento de utilidade pública pela Câmara Municipal e pela Assembleia Legislativa de Goiás.

Sábado a sábado

Os encontros seguem uma estrutura fixa. Começam com o I.B.O.A., sigla para Inspeção, Bandeira, Oração e Avisos, rito que hasteia a bandeira e alinha o propósito do dia. A tarde é de prática: jovens planejam aventuras, treinam primeiros socorros, participam de atividades ao ar livre ou discutem soluções para problemas do bairro. O encerramento acontece com o tradicional grito de grupo, momento de reafirmação do vínculo coletivo.

Mais do que uma rotina de atividades, o sábado funciona como exercício de autonomia. Cada jovem participa da construção do próprio caminho e aprende, na prática, a dividir responsabilidades, liderar tarefas e conviver com diferentes perfis dentro da mesma equipe.

Quatro faixas, uma progressão

O GERK divide os jovens por faixa etária. Os Lobinhos, de 6,5 a 10 anos, trabalham socialização e ludicidade sob o lema “Melhor Possível”. Dos 11 aos 14 anos, os Escoteiros desenvolvem autonomia pela vida em patrulha, com o lema “Sempre Alerta”, o mesmo dos Sêniores, entre 15 e 17 anos, cuja ênfase recai sobre desafios físicos. Na última fase, os Pioneiros, de 18 a 21 anos, voltam-se ao serviço comunitário e ao projeto de vida, com o lema “Servir”.

A progressão é medida por competências. Os escotistas adultos acompanham avanços e fragilidades de cada jovem, propondo que ele assuma, gradualmente, a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.

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O que nenhum curso ensina

Ricardo Martins, diretor-presidente do GERK, resume o impacto do escotismo em uma frase: “O escotismo me ensinou a lidar com diferentes personalidades em ambientes onde precisamos da colaboração de cada um sem termos o incentivo financeiro”.

O vínculo que sustenta o movimento é de propósito, não de contrato. Os voluntários adultos, entre empresários, profissionais e pais de família, passam por certificação da União dos Escoteiros do Brasil. O nível mais alto dessa formação é a Insígnia de Madeira, reconhecimento internacional de liderança e gestão de grupos juvenis.

Muitas famílias chegam ao GERK buscando disciplina para os filhos e encontram autonomia. O sinal costuma aparecer em casa, quando o jovem passa a organizar a própria mochila, cumpre tarefas sem cobrança ou toma iniciativa sem ser solicitado. Com frequência, os pais terminam se tornando voluntários.

A promessa da filha

Escotismo

Entre os muitos momentos vividos no escotismo, Ricardo guarda um com nitidez especial. Foi em um domingo, no encerramento de um acampamento, quando sua filha fez a Promessa Escoteira como chefe.

“Não somente pela conquista e pela disposição dela em aceitar o desafio de liderar jovens e adultos”, conta. “Para mim, foi como uma síntese de todo o meu esforço como pai para deixar um legado.”

A memória ajuda a explicar o que o GERK produz além das atividades de fim de semana. Ex-escoteiros da década de 1980 hoje levam os próprios filhos para usar o mesmo lenço. Há também voluntários que não passaram pelo movimento na infância, mas encontraram ali um propósito de vida.

Cerrado e comunidade

A relação com o Parque das Laranjeiras é de vizinhança ativa. O GERK realiza mutirões de limpeza, plantio de mudas nativas do Cerrado e integra a iniciativa global “Tribo da Terra”, pela qual os jovens conquistam insígnias ao aprender a preservar e proteger a natureza, reduzindo o impacto ambiental e fortalecendo a consciência coletiva sobre sustentabilidade.

A tradicional Galinhada anual é o principal ponto de encontro com a vizinhança e ajuda a financiar parte das atividades. Para 2026, o projeto central é “Escoteiros fazendo coisas de escoteiros”, com o objetivo de proporcionar aos jovens uma experiência ainda mais genuína e atrativa dentro das atividades propostas para a progressão pessoal de cada um.

Entre legado e futuro

O principal gargalo apontado pela instituição não é a falta de jovens interessados, mas de adultos dispostos ao voluntariado. O escotismo depende da presença de pais, ex-integrantes e profissionais que aceitem dedicar tempo à formação de novas gerações.

O GERK defende que o movimento seja reconhecido também como ferramenta de política pública, parceiro das metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS), com presença em escolas e parques de Goiás.

Em um cenário de excesso de telas e avanço do sedentarismo entre jovens brasileiros, o contato com a natureza e a convivência coletiva aparecem como contraponto necessário. Acampar, cozinhar em equipe e aprender a resolver conflitos fora do ambiente virtual tornam-se exercícios de autonomia e saúde emocional.

Para os próximos dez anos, a meta é transformar a sede em referência em energia limpa, gestão de resíduos e tecnologia ambiental, consolidando o GERK como espaço de sustentabilidade e inovação. Sem abrir mão, porém, daquilo que o define desde 1987: ser escola de cidadania ao ar livre.

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