sábado, 31 de outubro de 2026
E DEPOIS?

Crise com Congresso expõe incertezas sobre futuro da esquerda no pós-Lula

Derrotas recentes do governo reacendem o debate sobre um possível fim do ciclo petista e abrem espaço para disputa por protagonismo no campo progressista

Thiago Borgespor em
Lula e Janja da Silva na posse presidencial em janeiro de 2023
Derrotas do presidente Lula no Congresso colocaram dúvidas a respeito do futuro político da esquerda | Foto: Ricardo Stuckert/PR

As derrotas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta semana no Congresso Nacional colocaram dúvidas a respeito do futuro político não só do governo federal, mas do campo progressista. A rejeição ao nome do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, pelo Senado para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que beneficia os condenados pelos atos antidemocráticos do 8 de janeiro e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), impuseram aos governistas a maior crise política do Lula 3.

Messias tornou-se o primeiro indicado ao STF a ser rejeitado pelos senadores em 132 anos. Desde 1894, no governo de Floriano Peixoto, o Senado não se contrapunha à indicação do presidente. Se engana quem pensa que o recado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), um dos principais articuladores da derrota do AGU, foi apenas de retaliação, já que o indicado à Corte não foi o seu preferido, o ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB-MG). 

Alcolumbre deixou o recado de que, atualmente, os ventos sopram para a oposição. Interessado em sua reeleição para a Presidência do Senado em 2027, o parlamentar admitiu a crença de que no próximo ano, ao invés de negociar com o petista, talvez tenha de lidar com o senador e pré-candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ). E nem a conciliação petista foi capaz de conter o avanço da oposição conservadora.

O cenário posto também alimenta a discussão sobre os rumos da esquerda brasileira, que voltou a se deparar com a dependência da liderança de Lula e com a dificuldade de projetar um sucessor competitivo nas eleições deste ano. Para o cientista político Jones Matos, ainda é cedo para decretar perda de protagonismo do PT no campo progressista, mas o momento exige ajustes.

“O processo é cíclico. Existe uma dinâmica de alternância de poder. Há um enfraquecimento da esquerda neste momento, mas não dá para dizer que ela não sobrevive sem o Lula”, afirma em conversa com a reportagem do O HOJE.

Segundo o cientista, o PT mantém uma posição consolidada no sistema político. “O PT é o principal partido da América Latina, é bem organizado, estruturado e tem muitos quadros. É um partido de massa. Não se pode dizer que está liquidado”, disse.

Desafios à força do PT

Apesar disso, Matos aponta que o partido deve enfrentar desafios para manter a competitividade eleitoral no futuro. “O que é preciso é alterar a dinâmica de comunicação com a sociedade e com os movimentos. Hoje, a direita trabalha muito com pânico cultural, com desmoralização das instituições e com um discurso antissistema que tem atraído principalmente os jovens”, avalia.

Na leitura do cientista político, esse fator ajuda a explicar o avanço de candidaturas conservadoras e a dificuldade da esquerda em disputar narrativas fora de seus nichos tradicionais. “Os jovens estão sendo cooptados por esse discurso e muitas vezes entram no debate sem embasamento histórico, com uma visão frágil”, frisa.

Embora o PT siga como principal força da centro-esquerda, fato é que o contexto atual abre espaço para rearranjos internos no campo progressista. Assim como os petistas assumiram o protagonismo e desbancaram o PDT após Lula ir ao segundo turno em 1989 e não Leonel Brizola, o partido vê a possibilidade de outras siglas ocuparem mais espaço, especialmente em um cenário pós-Lula.

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Crescimento do PSB

O PSB, por exemplo, é apontado por setores do governo como um partido com potencial de protagonismo, por adotar uma posição mais moderada e com maior capacidade de diálogo institucional. Exemplo disso é o resultado da janela partidária deste ano, em que o partido chefiado pelo ex-prefeito de Recife, João Campos, recebeu nomes como a ex-ministra Simone Tebet e a senadora Soraya Thronicke (MS), políticas de centro e ligadas ao agronegócio. 

Matos considera que o sistema político deve passar por mudanças após as próximas eleições. “Novas forças políticas devem surgir, tanto na direita quanto na esquerda. Isso faz parte do processo democrático”, observa. “O que não se pode perder é o foco na defesa da democracia, na capacidade de diálogo e de construção de consenso”, afirma.

Na projeção de futuro, Matos aponta que qualquer governo eleito terá dificuldades. “O próximo governo terá uma missão dura, que é fazer uma repactuação e construir consenso na sociedade. Isso vai depender do novo xadrez político e da escolha do eleitor”, conclui.

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