domingo, 18 de outubro de 2026
impasse

Fim da “taxa das blusinhas” amplia concorrência entre a 44, em Goiânia, e sites internacionais

Retirada do imposto sobre compras internacionais de até US$ 50 divide opiniões

Renata Ferrazpor em
Taxa
Federação goiana critica decisão e alerta para risco de fechamento de empresas e perda de empregos (Foto: Divulgação/SIC)

O anúncio do Governo Federal sobre o fim da chamada “taxa das blusinhas” reacendeu um antigo debate entre comerciantes da Região da 44, em Goiânia, consumidores e especialistas em economia. A medida, anunciada a poucos meses das eleições, zera o imposto federal de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas em plataformas como Shopee, Shein e AliExpress. 

Apesar de agradar parte dos consumidores, a decisão voltou a gerar preocupação entre lojistas goianos, que há meses reclamam da concorrência com os produtos importados vendidos pela internet.

A mudança foi oficializada por meio de Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e regulamentada pelo Ministério da Fazenda. Com isso, as compras internacionais de até US$ 50 deixam de pagar o imposto federal de 20%, embora o ICMS estadual continue sendo cobrado, com alíquotas entre 17% e 20%, a depender do Estado.

A decisão ocorre em um momento sensível para o varejo nacional. Nos últimos anos, comerciantes da Região da 44, um dos maiores polos de moda do País, passaram a enfrentar dificuldades para competir com os preços praticados pelas plataformas estrangeiras. 

Consumidores comemoram preços menores

Para quem compra frequentemente em sites internacionais, a retirada da taxa representa alívio no orçamento. A estudante Eduarda França afirma que a cobrança do imposto mudou completamente seus hábitos de consumo desde 2024.

“Eu gosto muito de comprar roupas, principalmente calças de alfaiataria, blusas e conjuntinhos. Quando aprovaram a taxa, eu fiquei receosa em comprar porque antes fazia compras maiores. Hoje compro menos peças para evitar pagar taxas”, relata.

Ela conta ainda que já precisou pagar taxas extras além do frete e acredita que a mudança facilitará novamente as compras online. “Fico feliz com a retirada dessa taxa. Além disso, comprar online é mais prático do que gastar tempo indo até lojas e experimentando roupas”, afirma.

Leia mais: Servidores administrativos da Educação goiana denunciam salários abaixo do mínimo e pressionam prefeitura

Comércio teme aumento da concorrência

Do outro lado da discussão estão comerciantes que veem a medida como um novo desafio para o varejo local. A comerciante Maria das Graças, que trabalha com roupas novas e usadas, conta que inicialmente chegou a revender peças compradas em plataformas internacionais. No entanto, percebeu que as próprias clientes passaram a comprar diretamente nos aplicativos.

“Antes eu ia muito à 44 e Campinas comprar roupas para revender. Quando surgiram as plataformas, comecei a comprar pela internet porque era mais barato e eu conseguia lucrar mais. Mas depois percebi que as clientes começaram a comprar direto nos aplicativos e a loja foi ficando vazia”, relata.

Segundo ela, mesmo com a antiga taxação, o fluxo de clientes não aumentou significativamente. Ainda assim, considera a concorrência desigual. “Nós fazemos a economia girar, desde o fabricante até o vendedor final. Com custos altos, como aluguel, funcionários, impostos. Já as plataformas conseguem vender muito mais barato.”, explica.

Especialistas avaliam impactos econômicos

O economista Leonardo Ferraz avalia que a medida pode trazer benefícios imediatos para os consumidores, principalmente famílias de baixa e média renda. No entanto, ele alerta para os possíveis impactos sobre o comércio regional.

“O consumidor ganha mais poder de compra porque roupas, acessórios e eletrônicos importados ficam mais baratos. Por outro lado, o comércio nacional enfrentará uma concorrência ainda mais forte, especialmente em polos como a Região da 44”, afirma.

Segundo ele, o impacto pode atingir diretamente lojas que trabalham com produtos populares e preços competitivos. “A Região da 44 compete justamente no mesmo segmento das plataformas chinesas. Isso pode levar consumidores a migrarem ainda mais para o comércio online. O lojista goiano possui custos maiores com aluguel, energia, folha de pagamento e carga tributária”, destaca.

O economista também aponta que a medida pode trazer reflexos no mercado de trabalho e na arrecadação pública. “No curto prazo, o consumidor tende a pagar menos. Mas, no longo prazo, o comércio regional pode perder força, algumas empresas podem fechar e empregos podem ser reduzidos”, explica.

Federação goiana critica medida

A Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Goiás (FCDL-GO) divulgou nota de repúdio contra a decisão do Governo Federal. Segundo a entidade, a medida aumenta a concorrência considerada desleal entre o comércio brasileiro e as plataformas internacionais.

De acordo com a federação, enquanto empresas estrangeiras conseguem vender diretamente ao consumidor brasileiro com isenção federal, lojistas nacionais continuam enfrentando alta carga tributária e custos operacionais elevados.

A entidade afirma ainda que a decisão pode provocar fechamento de empresas e perda de empregos no comércio goiano. A federação também rebate o argumento de que a medida beneficia a população de baixa renda. “A verdadeira inclusão social acontece através da geração de empregos formais e do fortalecimento do comércio local”, afirmou a FCDL-GO em nota.

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