Saúde

Uso sem orientação médica de corticoides pode aumentar risco de glaucoma

Especialista alerta que automedicação com colírios, pomadas e comprimidos à base de corticoides pode favorecer o desenvolvimento da doença ocular

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 9 de junho de 2026
Uso sem orientação médica de corticoides pode aumentar risco de glaucoma

O uso indiscriminado de medicamentos à base de corticoides pode contribuir para o desenvolvimento do glaucoma, doença que afeta o nervo óptico e figura entre as principais causas de cegueira irreversível no mundo. O alerta é do presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Roberto Murad Vessani, que chama a atenção para os riscos da automedicação e da utilização prolongada dessas substâncias sem acompanhamento médico.

De acordo com o especialista, o problema não está restrito aos colírios utilizados para aliviar irritações nos olhos. Pomadas, comprimidos e outros medicamentos que contêm corticoides também podem elevar o risco de glaucoma quando utilizados de forma frequente e sem orientação profissional.

O glaucoma é uma doença caracterizada, na maioria dos casos, pelo aumento da pressão intraocular, condição que pode provocar danos progressivos ao nervo óptico. Sem tratamento adequado, a enfermidade pode comprometer permanentemente a visão. Estimativas apontam que cerca de 1,7 milhão de brasileiros convivam atualmente com a doença. Entre a população acima dos 40 anos, a prevalência varia de 2,5% a 3,5%.

Os corticoides são amplamente prescritos para o tratamento de processos inflamatórios, alergias, crises respiratórias, sinusites e outras condições de saúde. Como costumam proporcionar alívio rápido dos sintomas, muitas pessoas acabam reutilizando esses medicamentos por conta própria sempre que os desconfortos reaparecem.

No entanto, o uso contínuo dessas substâncias pode provocar alterações no sistema responsável pela drenagem do líquido presente no interior dos olhos. Com a dificuldade de escoamento, ocorre o acúmulo desse líquido, elevando a pressão ocular. Quando essa pressão permanece alta por longos períodos, o risco de lesões irreversíveis no nervo óptico aumenta significativamente.

Além dos danos à saúde ocular, o consumo excessivo de corticoides também pode desencadear diversos efeitos colaterais no organismo. Entre eles estão o aumento dos níveis de glicose no sangue, agravamento do diabetes, retenção de líquidos, ganho de peso, hipertensão arterial, enfraquecimento dos ossos, alterações hormonais e maior suscetibilidade a infecções.

Entidades pedem mais rigor no controle de corticoides

Diante do aumento das preocupações relacionadas ao uso indiscriminado de corticoides, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) encaminharam uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas de diversas especialidades. O documento alerta para os riscos da utilização dessas substâncias sem o devido acompanhamento médico.

Para o presidente da SBG, Roberto Murad Vessani, o cenário exige atenção das autoridades. “É muito grave. Na verdade, é um problema de saúde pública”, afirmou.

Além da mobilização junto aos órgãos reguladores, representantes das entidades participaram de reuniões com parlamentares para discutir medidas que ampliem o controle sobre a dispensação dos medicamentos. Uma das propostas defendidas pelas instituições é adotar regras semelhantes às que já existem para a venda de antibióticos, cuja comercialização depende da retenção da receita médica.

Corticoides
O glaucoma é uma doença caracterizada pelo aumento da pressão intraocular. | Foto: Reprodução/freepik

Segundo as entidades, o desafio também envolve a conscientização de profissionais de diferentes áreas da saúde. Especialidades como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria frequentemente utilizam corticoides em seus tratamentos. No entanto, em alguns casos, os medicamentos podem ser prescritos a pacientes que já apresentam glaucoma ou fatores de risco para a doença, tornando essencial a avaliação individualizada e o acompanhamento adequado.

Campanhas reforçam conscientização sobre riscos

Além de defender regras mais rígidas para a venda de corticoides, as entidades oftalmológicas têm investido em campanhas de conscientização voltadas tanto à população quanto aos profissionais de saúde. O objetivo é alertar sobre os riscos do uso prolongado desses medicamentos, especialmente entre pacientes com glaucoma, idosos e crianças.

Segundo Roberto Vessani, cerca de 90% das pessoas que já têm glaucoma apresentam sensibilidade aos corticoides, o que pode provocar aumento significativo da pressão ocular e agravar a doença. Em crianças com histórico de alergias, o uso contínuo de colírios contendo essas substâncias também pode favorecer o surgimento precoce de catarata e outras complicações visuais.

O especialista destaca que o monitoramento da pressão intraocular é fundamental para pacientes que utilizam corticoides por longos períodos. Ele alerta que, após algumas semanas de uso contínuo, já podem ocorrer alterações capazes de desencadear o glaucoma e comprometer permanentemente a visão.

Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) reforçam a necessidade de ampliar a conscientização sobre o tema e recomendam acompanhamento médico regular para grupos de risco e usuários crônicos dessas medicações.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também