segunda-feira, 6 de julho de 2026
DESEJO SEXUAL FEMININO

Ciência explica porque algumas mulheres perdem o desejo sexual pelo homem que elas mais amam

Estudos internacionais explicam por que o desejo sexual feminino perde força mesmo em relacionamentos com amor e conexão emocional

Rodrigo Souzapor Rodrigo Souza em 6 de julho de 2026
desejo sexual feminino
Muitas mulheres perdem o desejo sexual pelo homem que elas mais amam, segundo a ciência. (Foto: uol.com.br)

O desejo sexual pode diminuir mesmo quando o amor pelo parceiro segue forte e presente no dia a dia. Muitas mulheres relatam essa mudança e ficam sem entender o motivo, já que o carinho pelo companheiro não muda. Pesquisas de diferentes países vêm tentando entender esse fenômeno com números, entrevistas e testes de longo prazo. Fique por dentro do que a ciência já descobriu sobre o assunto.

O desejo sexual feminino perde força mesmo em relações com amor envolvido

Um estudo publicado no periódico BMJ Open, conduzido por pesquisadoras da Universidade de Southampton e da University College London, mediu esse padrão em uma amostra grande de britânicos. A pesquisa reuniu 4.839 homens e 6.669 mulheres, com idade entre 16 e 74 anos. O desejo sexual apareceu em queda entre boa parte das participantes, mesmo dentro de relações estáveis.

Os números mostram uma diferença marcante entre os sexos. Portanto, 34% das mulheres relataram falta de interesse por sexo durante três meses ou mais no ano anterior à pesquisa, contra 15% dos homens. Ou seja, o desejo sexual caiu com o dobro de frequência entre elas em comparação aos parceiros.

A pesquisadora Cynthia Graham, da Universidade de Southampton, destacou que o problema tem ligação direta com a qualidade da conexão emocional entre o casal. Como resultado, a falta de comunicação aberta sobre sexo aparece como um fator central nesse processo. A coautora Kirstin Mitchell, da Universidade de Glasgow, reforçou a importância de conversas francas dentro da relação.

O levantamento também mostrou uma diferença de idade entre os grupos. Consequentemente, o desejo sexual masculino tende a cair mais entre os 35 e 44 anos, enquanto nas mulheres esse movimento aparece entre 55 e 64 anos. Saúde física, saúde mental e qualidade do vínculo aparecem como os fatores com maior peso nessa mudança, segundo as autoras do estudo.

Rotina e familiaridade ajudam a explicar a queda do desejo sexual feminino pelo parceiro

Um estudo da Universidade de Turku e da Åbo Akademi University, na Finlândia, acompanhou 2.173 mulheres antes da menopausa durante sete anos. Ou seja, os dados vieram de duas coletas, uma em 2006 e outra em 2013, publicadas na revista Psychological Medicine. O trabalho, liderado pela pesquisadora Annika Gunst, buscou entender como o desejo sexual muda com o tempo.

O resultado central chama atenção: mulheres que seguiram no mesmo relacionamento monogâmico durante todo o período tiveram a maior queda de desejo sexual entre todos os grupos analisados. Em outras palavras, permanecer com o mesmo parceiro por muitos anos apareceu como fator ligado à diminuição do interesse sexual, mais do que a idade em si.

Outro dado relevante vem de pesquisas com adultos americanos entre 18 e 59 anos, citadas pelo mesmo levantamento finlandês. Para esclarecer, essas pesquisas apontam que cerca de 40 milhões de mulheres nos Estados Unidos relatam algum tipo de disfunção sexual ao longo da vida. A chance de apresentar esse quadro chega a 43% entre mulheres, contra 31% entre homens.

Um estudo com 1.223 participantes portugueses, com idade entre 18 e 66 anos, trouxe outra peça desse quebra-cabeça. Mas a pesquisa, publicada em periódico científico revisado por pares, mostrou algo específico sobre as mulheres. Níveis altos de tédio sexual apareceram ligados a níveis baixos de desejo sexual direcionado ao parceiro, de forma consistente entre elas.

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Desejo espontâneo, desejo reativo e a sensação de ser desejada

A médica canadense Rosemary Basson publicou, no ano 2000, um modelo que mudou a forma como a ciência entende o desejo sexual feminino. Por outro lado, em vez de tratá-lo como algo espontâneo e constante, ela descreveu um ciclo mais circular, ligado à intimidade emocional e ao contexto da relação. Muitas mulheres sentem desejo sexual depois do início do contato físico, e não antes dele.

Esse modelo ajuda a explicar por que a queda de desejo sexual não significa, necessariamente, perda de amor pelo parceiro. Por exemplo, uma mulher pode não sentir vontade espontânea de sexo, mas ainda assim desenvolver excitação a partir do carinho e da proximidade durante o encontro íntimo. A médica chama esse padrão de desejo reativo, diferente do desejo espontâneo mais comum entre homens.

A psicóloga Marta Meana, da Universidade de Nevada em Las Vegas, trouxe outra camada para essa discussão. Acima de tudo, sua pesquisa com mulheres casadas mostrou que a queda de desejo sexual tinha pouca relação com a qualidade do casamento em si. E o mais importante: o fator com mais peso era a sensação de deixar de ser vista como objeto de desejo pelo parceiro.

No estudo conduzido com a colega Karen Sims, publicado no Journal of Sex and Marital Therapy, dezenove mulheres casadas relataram perda de desejo sexual ligada ao excesso de familiaridade.

Certamente, a rotina de cuidado mútuo, comum em casamentos longos, aparece como fator que reduz o clima de mistério dentro da relação. Meana também aponta que sentir-se desejada pesa mais, para muitas mulheres, do que o próprio ato sexual.

A falta de apetite sexual feminino pode acabar, mesmo com amor envolvido. (Foto: drauziovarella.uol.com.br)

Comunicação e novas estratégias ajudam a recuperar o desejo sexual

Uma pesquisa publicada na plataforma científica PMC reuniu 229 participantes em relacionamentos longos para entender como lidam com essa diferença de desejo sexual entre parceiros.

Em primeiro lugar, os dados mostraram 17 estratégias distintas, divididas em cinco grupos principais. Em segundo lugar, o estudo apontou que certas estratégias têm relação direta com satisfação sexual e satisfação com o relacionamento.

Entre os grupos identificados estão o afastamento temporário, a comunicação aberta sobre expectativas e o ato sexual mesmo sem desejo inicial presente. Além disso, outros grupos incluem atividades sozinhas e atividades em conjunto com o parceiro, sem foco direto no sexo. Ainda mais: a pesquisa mostrou que o desejo sexual costuma seguir ciclos naturais dentro de um mesmo mês.

Um levantamento anterior, conduzido pela pesquisadora Debby Herbenick com 179 mulheres em relações longas, também buscou entender como elas recuperam o desejo sexual quando ele diminui.

Além do mais, muitas participantes relataram que conversar sobre a própria rotina sexual trouxe resultado positivo dentro do casal. Entretanto, nem toda estratégia funciona da mesma forma para cada mulher, já que fatores pessoais mudam de caso para caso.

Uma pesquisa qualitativa feita com 15 mulheres em Israel, com mais de 25 anos e em relações longas, trouxe um relato direto sobre esse tema.

Posteriormente às entrevistas, os pesquisadores notaram que todas as participantes descreviam a queda de desejo sexual como algo confuso, já que o amor pelo parceiro seguia intacto. Depois disso, elas relataram que a conexão do casal passou a se apoiar em outros pontos além do sexo.

A diminuição do desejo sexaul feminino não significa falta de amor

Da mesma forma que os estudos citados antes, essa pesquisa reforça que perda de desejo sexual não é sinônimo de fim do amor. Similarmente, outros levantamentos mostram que buscar ajuda profissional e manter diálogo aberto sobre sexo tende a trazer resultado dentro do relacionamento.

Na mesma linha, especialistas recomendam procurar um profissional de saúde ou terapia sexual diante de mudanças persistentes no desejo.

Em conclusão, a ciência mostra que o desejo sexual segue um caminho mais complexo do que a ideia de vontade constante e espontânea. Resumindo, fatores como rotina, autoimagem, comunicação e sensação de ser desejada pesam tanto quanto o amor dentro da relação. O desejo sexual, portanto, muda com o tempo sem que isso represente qualquer falha no afeto entre o casal.

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