terça-feira, 27 de outubro de 2026
Câmara dos Deputados

Recesso pressiona acordo sobre dívidas rurais e acesso ao Plano Safra

Renegociação é considerada essencial para regularizar produtores e permitir a contratação de novos financiamentos; governo avalia editar medida provisória antes da pausa do Congresso

Bruno Goulartpor em
Câmara dos Deputados
Projeto que trata da renegociação das dívidas rurais continua parado na Câmara dos Deputados. Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

A proximidade do recesso parlamentar aumenta a pressão para que governo e Congresso encontrem uma solução para a renegociação das dívidas rurais. A medida é considerada urgente pelo setor agropecuário porque permite regularizar os débitos dos produtores e recuperar o acesso às linhas de crédito do Plano Safra. Sem a quitação ou renegociação das operações anteriores, as regras bancárias podem impedir a liberação de novos financiamentos.

A rapidez na aprovação também ganha importância diante do volume de recursos anunciado para a produção agropecuária. Ao todo, serão destinados R$ 525,1 bilhões ao financiamento do setor, valor R$ 8,9 bilhões maior que o da safra passada, uma alta de 1,72%. Entretanto, produtores que continuam inadimplentes podem ficar de fora dessas linhas justamente no momento de preparar o próximo ciclo produtivo.

Apesar da urgência, o Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas, continua parado na Câmara dos Deputados. O recesso deve começar no sábado (18) e seguir até 31 de julho. Com poucos dias disponíveis e sem acordo entre o governo e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a avaliação é de que não há tempo hábil para votar e concluir a proposta antes da paralisação dos trabalhos.

O deputado federal Zacharias Calil (União Brasil) considera difícil a aprovação nesta semana. “Estamos aguardando as decisões do Colégio de Líderes”, afirma. A pauta depende de um acordo entre as lideranças partidárias para ser incluída na agenda de votações da Câmara.

Diante do impasse, o governo passou a negociar a substituição do projeto por uma medida provisória. A MP tem força de lei e entra em vigor imediatamente após a publicação pelo presidente da República. Depois, porém, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado para se tornar definitiva. Assim, o programa de renegociação poderia começar ainda no segundo semestre, mesmo durante o recesso parlamentar.

Conflitos

Mesmo com a aproximação, ainda existem divergências importantes. Uma delas é o número de produtores que poderão participar do programa. A bancada do agro defende uma renegociação mais ampla, enquanto o governo pretende estabelecer critérios mais restritos, que levem em consideração o porte do produtor, a situação financeira e as perdas provocadas por eventos climáticos.

Além disso, as taxas de juros continuam em discussão. A FPA propõe juros anuais de 3,5% para pequenos produtores, 5,5% para médios e 7,5% para grandes. O governo, por outro lado, trabalha com taxas de 6%, 8% e 12%, respectivamente. Também não há consenso sobre o limite das dívidas incluídas e o prazo de pagamento, que pode variar de oito a dez anos.

Outro ponto de conflito é o impacto fiscal. O Ministério da Fazenda estima que o projeto poderá custar R$ 140 bilhões ao longo de 13 anos. A bancada ruralista calcula um impacto menor, de R$ 65 bilhões no mesmo período. Segundo a FPA, o governo considera um volume maior de dívidas elegíveis e não leva em conta todos os critérios previstos para limitar o acesso ao programa.

O projeto

O PL 5.122 foi aprovado pelo Senado em junho e voltou para a Câmara após sofrer alterações. O texto permite a renegociação de operações de crédito rural, empréstimos e Cédulas de Produto Rural contratados até 31 de dezembro de 2025. Os débitos seriam recalculados sem multas, juros de mora e outros encargos provocados pela inadimplência.

Pela proposta aprovada pelos senadores, os financiamentos poderão chegar a R$ 10 milhões por produtor e a R$ 50 milhões para associações, cooperativas e condomínios rurais. O prazo de pagamento poderá alcançar dez anos, com até três anos de carência. Entre as fontes de recursos estão o Fundo Social do Pré-Sal, os fundos constitucionais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira.

O governo federal deve bater o martelo nesta quarta-feira (15) sobre o texto final da medida provisória. Uma nova reunião está prevista entre líderes governistas, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e representantes da bancada ruralista. A FPA ainda tenta incluir dívidas privadas, aumentar os limites e reduzir as taxas de juros. (Especial para O HOJE)

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