sexta-feira, 25 de setembro de 2026
roubo de cargas

Queda no roubo de cargas esconde mudança na atuação das quadrilhas

Redução de 56,52% nas ocorrências em Goiás contrasta com o avanço de ataques direcionados a mercadorias de maior rentabilidade

Anna Salgadopor em
roubo cargas goiás
Legenda: Apesar da diminuição dos registros, o crime organizado alterou a estratégia e passou a priorizar mercadorias de alto valor agregado | Foto: Divulgação/COD

O Brasil registrou 8.570 ocorrências de roubo de cargas em 2025, redução de 16,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Mapa da Segurança Pública 2026. Apesar da queda nas ocorrências, o prejuízo direto permaneceu elevado, somando cerca de R$ 900 milhões. Em Goiás, os registros caíram de 23 casos em 2024 para 10 em 2025, redução de 56,52%, uma das maiores do País, atrás apenas do Distrito Federal, Rio Grande do Norte e Alagoas.

Os dados colocam Goiás entre os Estados com melhor desempenho no combate ao roubo de cargas. O governo estadual atribui os resultados aos investimentos superiores a R$ 124,7 milhões na modernização das forças de segurança, incluindo as polícias Militar, Civil e Científica, além da ampliação do uso de inteligência e tecnologia.

Entre as iniciativas adotadas está o programa IA Contra o Crime, que utiliza inteligência artificial para reconhecimento de placas e monitoramento por vídeo. De acordo com o governo estadual, em cinco meses a ferramenta auxiliou no esclarecimento de mais de 1,4 mil ocorrências.

Segundo o governador Daniel Vilela, a estratégia é baseada na integração entre inteligência policial e tecnologia. O Estado também permanece há mais de quatro anos sem registrar ataques a instituições financeiras e apresenta a menor taxa de roubo de veículos do País.

Especialistas apontam, entretanto, que a redução das ocorrências também está relacionada ao avanço das estratégias de gerenciamento de riscos adotadas, em especial pelas transportadoras. O setor privado ampliou investimentos em monitoramento em tempo real, inteligência embarcada e análise preditiva, tecnologias que contribuíram para evitar dezenas de milhões de reais em prejuízos nos primeiros meses de 2026. A avaliação reforça que o enfrentamento ao roubo de cargas depende não apenas da atuação do poder público, mas também da adoção de medidas preventivas pela iniciativa privada. 

Enquanto o número de roubos diminuiu, o perfil das ações criminosas mudou. Em vez de grandes volumes de mercadorias de menor valor, as quadrilhas passaram a concentrar as ações em cargas de maior rentabilidade, especialmente medicamentos.

Os medicamentos responderam por 22,3% dos prejuízos registrados pelo setor em 2026, ante 1,7% no primeiro trimestre de 2025. Produtos de alto valor agregado, como medicamentos oncológicos e imunossupressores, passaram a figurar entre os principais alvos das organizações criminosas. No Rio de Janeiro, empresas adotaram o transporte de medicamentos em carros-fortes, modalidade antes utilizada principalmente para dinheiro e ouro.

Especialistas avaliam que a redução dos índices resulta da integração entre forças de segurança, transportadoras e empresas de gerenciamento de risco. No campo institucional, a Lei nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, criou novos mecanismos para combater a receptação de cargas, considerada um dos principais fatores de sustentação econômica desse tipo de crime. Ainda assim, os elevados prejuízos financeiros e a mudança no perfil das cargas visadas demonstram que o cenário permanece desafiador e exige atualização constante das estratégias de prevenção e repressão.

Integração

Em Goiás, a integração entre órgãos públicos e o uso de dados para direcionar operações em corredores logísticos estratégicos também fazem parte da política estadual de segurança. O investimento em Informação e Inteligência cresceu 14,6%, percentual superior à média nacional, de 6,1%.

Embora os indicadores apresentem redução nas ocorrências, especialistas alertam que o crime organizado tem adaptado a forma de atuação, concentrando esforços em operações mais seletivas e de maior retorno financeiro. No Rio de Janeiro, por exemplo, as ocorrências cresceram 19% na Capital em 2026, evidenciando diferenças regionais no comportamento desse tipo de crime.

Os dados nacionais indicam que a redução dos roubos de cargas ocorre em um cenário marcado pela combinação de investimentos públicos em segurança, ampliação do uso de tecnologias e fortalecimento das estratégias de gerenciamento de riscos adotadas pelo setor privado. Paralelamente, às organizações criminosas passaram a direcionar as ações para cargas de maior valor agregado, alterando o perfil desse tipo de ocorrência no País.

 

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