segunda-feira, 27 de julho de 2026
spin-off de “2030”

“Analógico”, curta goiano, é apresentado em Los Angeles

Obra de AZ Olorum parte de uma distopia tecnológica para discutir privacidade, autonomia e os rumos da inteligência artificial

Luana Avelarpor Luana Avelar em 27 de julho de 2026 às 18:00
Analógico

Em “Analógico”, o futuro não entra em colapso porque as máquinas se rebelaram contra os homens. A ruptura acontece antes, quando os próprios humanos entregam à tecnologia o poder de decidir por eles. É desse ponto que o cineasta AZ Olorum constrói uma ficção científica atravessada por inteligência artificial, livre-arbítrio, vigilância e uma pergunta que já não pertence apenas ao cinema: até onde a tecnologia pode avançar sem reduzir a autonomia de quem a criou?

Apresentado em 22 de julho nos Estados Unidos, dentro da programação da Gritnova Global Campus, o curta levou o diretor de Luziânia aos estúdios da Warner Brothers, em Los Angeles, onde o projeto chegou a executivos ligados à Netflix, Universal e Sony Pictures.

Descrito como um drama sci-fi de estética retrofuturista, “Analógico” acompanha um cientista que desenvolve um sistema de previsão médica. A tecnologia, porém, é apropriada e convertida em instrumento de controle de comportamento. O conflito invade sua vida quando a mulher grávida do protagonista é presa por uma força policial intertemporal por um assassinato que ainda não cometeu. Incapaz de salvá-la, ele abandona o mundo tecnológico e se refugia numa realidade analógica, decidido a destruir a criação que lhe tirou tudo.

A trama nasce de uma inquietação anterior. “Analógico” funciona como spin-off de “2030”, série de ficção científica escrita por AZ Olorum há cerca de dois anos. Segundo o diretor, o curta surgiu como forma de apresentar esse universo em escala menor. “Analógico surge na verdade como um spin-off da minha série de Sci-fi 2030, vi uma oportunidade para fazer uma introdução do mundo de 2030 através de um projeto com menor produção mas que explicasse o mundo antes de 2030.”

A distopia, contudo, não foi construída a partir de um medo do futuro. AZ diz observar no presente a matéria-prima de sua ficção. O avanço acelerado da inteligência artificial, a dependência de plataformas digitais e a naturalização da entrega de dados pessoais estão entre suas preocupações. “O que mais me preocupa é como podemos trazer regulamentações desses sistemas como a IA sem perder nossa privacidade e valor do valor humano.”

O título poderia sugerir uma rejeição simples à tecnologia, mas a lógica proposta pelo cineasta é outra. Ao buscar uma saída para o mundo que ajudou a criar, o protagonista se volta para aquilo que AZ chama de tecnologia mais antiga da Terra: a natureza. “Quando ele se reconecta com isso ele percebe que ambos podem existir, a questão aqui não é eliminar uma ou outra mas sim coexistir e serem usadas para melhorarem a vida do ser humano e do planeta terra.”

Se o filme olha para o futuro, a trajetória de seu criador ajuda a explicar de onde esse futuro é imaginado. AZ nasceu em Luziânia, fora do eixo que concentra boa parte da produção audiovisual brasileira. Artista de múltiplas frentes, ele também fundou a AZK Produtora.

Chegar a Los Angeles, portanto, carrega um peso que ultrapassa a apresentação de um curta. “Vou te contar que se eu falasse isso pro André (AZ Olorum) adolescente ele ia falar que era muito longe, mas não impossível, nasci numa família de artistas e sempre tive apoio da minha grande inspiração que é minha mãe Isis Albuquerque, apesar das dificuldades para uma família periférica preta do interior de Goias fazer arte nunca foi uma opção, foi a nossa escolha. E como queremos transformar um mundo melhor através da nossa arte. Eu acredito muito nisso.”

O convite surgiu após uma seleção que reuniu apenas 13 cineastas de diferentes partes do mundo. Os participantes foram chamados a desenvolver um curta-metragem, e AZ decidiu levar “Analógico”. “2030” já havia passado pelo BIPOC LAB SCI-FI da Fundação Justice for My Sister, em Los Angeles.

O contato com profissionais ligados a grandes estúdios colocou diante do diretor uma questão recorrente para realizadores independentes: o acesso a quem decide quais projetos chegam ao mercado. “É uma oportunidade ímpar na carreira de um artista do audiovisual Brasileiro, receber orientações e feedbacks sobre seu projeto de quem tá produzindo grandes sucessos pelo mundo e que entendem de fato como a máquina do audiovisual funciona faz uma diferença gigante pra quem quer furar a bolha internacional”, afirma.

Depois da apresentação, “Analógico” segue em pós-produção. A equipe prepara um corte maior, de cerca de 15 minutos, para circulação em festivais nacionais e internacionais ao longo do restante de 2026. A intenção é começar 2027 com uma etapa mais ampla de distribuição.

O curta funciona, assim, como porta de entrada para um universo que AZ pretende expandir e também como comentário sobre um presente em que nunca houve tanta tecnologia disponível nem tantas dúvidas sobre quem controla os sistemas que organizam a vida. A resposta de “Analógico” não está em desligar as máquinas, mas em recolocar o ser humano e o mundo que o cerca no centro da decisão.

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