Goiás registrou 711 suicídios em 2023, acima da média nacional
Dados da Secretaria de Saúde mostram que isolamento na zona rural, falta de acesso à tratamento e reincidência marcam os casos no Estado
O suicídio foi responsável pela morte de 711 pessoas em Goiás em 2023, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-GO). O número representa uma taxa de 9,8 mortes a cada 100 mil habitantes, acima da média nacional, que ficou próxima de 7,5 no mesmo ano. Entre 2014 e 2023, o Estado registrou 5.618 mortes por suicídio, com o número anual quase dobrando no período. Em 2014, foram 454 óbitos. Em 2023, o total chegou a 711, alta de 56,6%.
O Ministério da Saúde contabilizou 17.002 mortes por suicídio em 2023, o equivalente a 46 pessoas por dia no Brasil. Em Goiás, a maioria das vítimas é do sexo masculino. Os homens responderam por 77,8% das mortes registradas entre 2014 e 2023, número 3,5 vezes maior que o de mulheres no mesmo período. A maior parte dos casos ocorreu entre adultos de 20 a 59 anos.
A diferença nos métodos
Para a neuropsicóloga Fabiane Fagundes, especializada no atendimento de crianças, adolescentes e mulheres, o número de mortes entre homens está diretamente relacionado aos métodos utilizados nas tentativas de suicídio. “Em relação ao Brasil, um dado do Ministério da Saúde é que se registra maior número de tentativas de suicídio entre as mulheres, porém o índice de mortes efetivas é maior entre os homens.”
Em 2023, 78% das mortes por suicídio ocorreram entre homens. “As mulheres tentam mais, mas costumam recorrer a métodos como a ingestão de medicamentos, que possibilitam socorro mais rápido. Os homens, por sua vez, geralmente usam métodos mais violentos, o que dificulta a possibilidade de resgate”, explica a neuropsicóloga.
Isolamento social aumenta risco
Segundo Fabiane, a maioria dos casos em Goiás ocorre na zona rural, em razão do isolamento social, que dificulta o acesso à saúde pública. “O boletim da Secretaria Estadual de Saúde de 2023 mostra que as principais causas que levam ao suicídio são o isolamento social, a ruralidade e o pouquíssimo acesso à saúde mental pelo SUS.”
Para a neuropsicóloga, um dado que chama atenção é que “muitos dos suicídios acontecem em zona rural”. “Isso ocorre por conta do isolamento: a pessoa tem menos gente observando e mais tempo para planejar e executar. Há também maior acesso a meios letais mais rápidos, como arma branca ou revólver”, observa.
Reincidência preocupa especialistas
Fabiane destaca que, assim como no restante do País, a maioria das tentativas de suicídio em Goiás também é feminina. Segundo a neuropsicóloga, quem já tentou uma vez tem grande chance de tentar novamente, o que reforça a importância do acompanhamento psicológico contínuo.
“Em 2022, os dados da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás mostraram que 71% das tentativas de suicídio estavam entre as mulheres. Nacionalmente, os homens tentam mais, mas em Goiás o índice é mais alto entre as mulheres”, descreve a profissional.
Continua Fabiane: “Adolescentes de 10 a 19 anos representaram 33% dos casos, enquanto adultos de 19 a 59 anos representaram 61%. 44% dos suicídios cometidos em 2022 eram reincidentes, ou seja, quase metade das pessoas que tentaram uma vez repetiram a tentativa e chegaram ao óbito”.
Neuropsicóloga alerta para sinais que exigem atenção
A neuropsicóloga aponta comportamentos que devem ser observados por familiares e amigos para oferecer suporte adequado. “Irritabilidade ou agressividade de uma pessoa que antes não tinha esse comportamento e afastamento repentino da família, dos amigos ou de atividades em que a pessoa antes tinha prazer. Esse tipo de comportamento precisa ser ouvido.”
De acordo com Fabiane, pessoas que falam com frequência que estão cansadas, que querem dormir e não acordar mais, também exigem alerta, mesmo sem verbalizar diretamente o desejo de morrer. “Diante disso, é preciso oferecer acolhimento sem julgamento. A pessoa se sentindo confortável para falar sobre o que sente traz clareza sobre seu estado mental. E a partir dessa clareza é possível buscar ajuda com psiquiatra e psicólogo, uma ajuda multidisciplinar para que volte a ter clareza mental e domínio das próprias emoções”, ressalta.
Debate não pode se restringir a setembro
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Em 2021, a causa foi a terceira principal razão de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O mês de setembro é marcado pela campanha Setembro Amarelo, voltada à prevenção do suicídio. Para Fabiane, conversar sobre o tema tem grande importância social, mas o debate precisa ser ampliado para outros espaços e outros momentos do ano.
“O Setembro Amarelo funciona como uma janela para intensificar essa discussão, já que quanto mais se fala, mais o tema se populariza e diminuem os estigmas em relação ao adoecimento mental. Isso ajuda as pessoas a compreenderem melhor o contexto e a entenderem que o que sentem é legítimo e que existe tratamento disponível”, destaca a neuropsicóloga.
Para Fabiane, o Setembro Amarelo é uma oportunidade de discutir um assunto historicamente ignorado, “mas esse debate não pode se restringir ao mês”. “Precisa estar presente nas empresas, nas escolas, dentro de casa e na televisão o ano inteiro, para que as pessoas se sintam mais familiarizadas e menos estigmatizadas em relação ao adoecimento mental”, pontua.
Peça ajuda
Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
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