Caiado cita proteção às mulheres, mas feminicídios cresceram em Goiás
Estado registrou 47 feminicídios no primeiro semestre de 2026, alta de 113,6% em relação ao mesmo período de 2025
Goiás registrou aumento de 113,6% nos casos de feminicídio no primeiro semestre de 2026, com 47 mulheres assassinadas por razões de gênero entre janeiro e junho, contra 22 no mesmo período de 2025. O cenário ocorre enquanto novos casos são registrados no Estado, como o de uma mulher encontrada morta na manhã do domingo (6), nua e com sinais de violência, em um lote baldio em Nerópolis. No mesmo período, o candidato à Presidência da República e ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) afirma que mais de 36,4 mil mulheres estão sob proteção ativa das forças de segurança e que cinco integrantes desse grupo foram vítimas de feminicídio.
O corpo encontrado em Nerópolis estava em um lote baldio na Rua Eurico de Albuquerque, no setor Alto da Boa Vista. Uma pedra foi localizada dentro da boca da vítima, e uma peça íntima masculina foi encontrada ao lado do corpo. Um homem foi preso pela Polícia Militar após o encontro do corpo. A ocorrência foi inicialmente registrada como homicídio, e a Polícia Civil deve investigar também a possibilidade de violência sexual. A identidade e a idade da vítima ainda não haviam sido divulgadas.
Durante uma caminhada na Feira do Garavelo, em Aparecida de Goiânia, no último domingo, Caiado afirmou que mais de 36,4 mil mulheres estão atualmente sob proteção das forças de segurança e da inteligência das polícias de Goiás. Segundo o candidato, cinco mulheres desse grupo foram vítimas de feminicídio. Uma das vítimas, conforme a declaração, não teria aceitado o botão de proteção e teria voltado a conviver com o agressor.
Caiado também apresentou uma taxa de 0,014% de feminicídios entre as mulheres acompanhadas pelas forças de segurança. O candidato classificou o índice como “inédito” e afirmou que seria um dos menores do País, embora tenha ressaltado não possuir dados para comparação com outros Estados.
Os dados do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Ministério da Justiça e pelo Ministério das Mulheres com base em informações do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), mostram que Goiás registrou 47 feminicídios nos seis primeiros meses de 2026. No mesmo período de 2025, foram registrados 22 casos. O aumento de 113,6% colocou Goiás na liderança nacional em crescimento proporcional dos registros no período.
Dados parciais consolidados até julho de 2026 apontam 49 mulheres mortas por razões de gênero em Goiás. Entre 2018 e 2025, os feminicídios consumados no Estado cresceram 63%. No primeiro semestre de 2026, os feminicídios corresponderam a 57,8% de todas as mortes violentas de mulheres registradas em Goiás, enquanto a média nacional foi de 44,4%.
A declaração de Caiado considera as mulheres que estavam sob medidas de proteção e os feminicídios registrados nesse grupo. O candidato também mencionou que parte dos crimes ocorre dentro das residências, onde a atuação direta das forças de segurança é limitada. Em março deste ano, durante o lançamento da Operação Mulheres 2026, Caiado havia afirmado que 72% dos feminicídios ocorrem dentro das residências e defendido ações de prevenção que envolvam diferentes setores do poder público e da sociedade.
Casos de mulheres que solicitaram medidas protetivas antes de episódios posteriores de violência também integram o debate sobre a rede de proteção. Em agosto de 2026, uma jovem de 24 anos foi resgatada após passar cinco dias em cativeiro em Águas Lindas de Goiás. A vítima estava amarrada e amordaçada e foi submetida a tortura pelo ex-companheiro.
Mais de dez boletins
A jovem havia registrado mais de dez boletins de ocorrência contra o agressor ao longo dos anos, possuía histórico de medida protetiva e solicitou formalmente uma nova medida no início de 2026, relatando ameaças. O Ministério Público de Goiás manifestou-se pelo indeferimento do pedido, e a Justiça goiana negou a medida protetiva sob o argumento de que não havia elementos suficientes para relacionar o homem aos episódios ou demonstrar risco atual. Meses depois, a jovem foi sequestrada e submetida a tortura.
O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) afirma que o programa Protege e Julga reduziu o tempo de decisão sobre medidas protetivas de urgência. A taxa proporcional de concessão, entretanto, passou de 98% em 2021 para 92% em 2025. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a ocorrência de feminicídios dentro das residências não impede ações de prevenção.
Além dos registros da segurança pública, dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-SUS), do Ministério da Saúde, apontam diferenças na identificação de mortes de mulheres com indícios de feminicídio. Um cruzamento realizado pelo Anuário da População Negra identificou 83 mortes de mulheres com indícios de feminicídio em Goiás em 2023. No mesmo período, a segurança pública reconheceu oficialmente 56 casos, o que corresponde a uma taxa de cobertura de 67%.
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