Falhas na radioterapia do Araújo Jorge, em Goiânia, fazem pacientes esperar até 5 horas
Paralisações em equipamento antigo ocorrem durante reforma do setor e ampliam o tempo de espera por sessões que duram até 20 minutos
O Hospital de Câncer Araújo Jorge (HAJ), mantido pela Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG), enfrenta instabilidades no Setor de Radioterapia durante o processo de modernização e reforma da unidade. Paralisações e manutenções em equipamentos antigos têm provocado esperas de 2 a 5 horas para pacientes que realizam sessões de 15 a 20 minutos. Em alguns casos, os atendimentos ocorrem durante a madrugada, entre 23h e 2h, período em que pacientes debilitados também precisam enfrentar interrupções e viagens longas.
Fundado em 1967 e credenciado como o único Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) no atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás, o hospital realiza mais de 1 milhão de procedimentos anualmente e atende cerca de 75 mil pacientes por ano, oriundos dos 246 municípios goianos e de outros estados. Atualmente, o Setor de Radioterapia realiza, em média, 280 sessões diárias, com funcionamento das 6h às 2h da madrugada, dividido em quatro turnos. A taxa de ocupação é de aproximadamente 93%. Em períodos de maior demanda, os atendimentos chegam a 315 aplicações por dia, com funcionamento estendido até as 3h da manhã.
Atualmente, dois aceleradores lineares estão em funcionamento no Setor de Radioterapia, com média de 90 a 100 pacientes atendidos por equipamento. Um dos aparelhos encontra-se temporariamente parado para manutenção, enquanto dois engenheiros atuam na unidade para solucionar o problema e possibilitar o retorno do equipamento à operação.
As dificuldades ocorrem em meio a um projeto de modernização que prevê a ampliação da infraestrutura assistencial e a renovação gradual do parque tecnológico do setor. Entre as intervenções está a construção de uma nova casamata (bunker), estrutura com blindagem radiológica para abrigar o quarto acelerador linear da instituição, o ALX 4.
Além da nova sala, a instituição prevê a chegada de dois novos aceleradores lineares já embarcados, com previsão inicial de chegada para a segunda quinzena de dezembro, orçados em R$ 10 milhões cada. A entrada em operação dos equipamentos está prevista para ocorrer entre o início de 2027 e o primeiro semestre de 2027, após a realização de comissionamento, controle de qualidade e licenciamento pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
O plano de modernização também inclui a instalação de um tomógrafo dedicado exclusivamente ao planejamento radioterápico e de um novo equipamento de braquiterapia. O projeto prevê ainda a reforma total das recepções e dos consultórios, além da criação de uma área exclusiva com três boxes individuais para pacientes acamados.
Durante as obras, no entanto, intervenções físicas na rede elétrica e nos sistemas de ar-condicionado têm provocado instabilidades em equipamentos antigos considerados sensíveis. O ponto mais crítico é a chamada “máquina amarela”, modelo Clinac 2100 CD, um acelerador linear com mais de 25 anos de uso e em operação desde 1999. O equipamento acumula falhas frequentes e passa por paralisações e manutenções constantes.
Rotina de pacientes
As interrupções afetam a rotina de pacientes que dependem da continuidade das sessões de radioterapia. Médicos oncologistas alertam que atrasos de semanas podem interromper a dose cumulativa de radiação, permitindo a repopulação de células tumorais e exigindo a reavaliação do plano terapêutico. Diante desse cenário, a equipe médica passou a realizar acompanhamentos semanais para priorizar tumores mais agressivos e tratamentos concomitantes.
Como parte das medidas adotadas para manter a assistência durante as obras e em períodos de quebra de equipamentos, o hospital passou a realizar o remanejamento temporário de pacientes para a Unidade Oncológica de Anápolis (UOA). A unidade funciona como um braço estratégico e descentralizado da própria ACCG.
Segundo o hospital, o remanejamento de pacientes para a UOA ainda está em processo burocrático de organização. A previsão é que sejam encaminhados pacientes que necessitam de tratamentos de menor complexidade, como alguns casos de câncer de mama e próstata, durante o período de adequação da capacidade do Setor de Radioterapia do Araújo Jorge.
Remanejamento
Registros das fontes indicam que, em episódios anteriores de falha técnica grave, cerca de 30 novos pacientes foram remanejados para Anápolis. No contexto atual das reformas, a instituição realiza encaminhamentos pontuais e informa os pacientes com antecedência.
A gestão dos atendimentos também envolve diferentes níveis do poder público. Enquanto a Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) declara que a regulação pertence ao município, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) alega que o hospital é uma unidade filantrópica e que “não responde por eles”
LEIA MAIS:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.