quinta-feira, 24 de setembro de 2026
OPINIÃO

A dez dias da eleição, debate entre candidatos ao governo de Goiás termina sem empolgar eleitor

Com propostas e críticas, candidatos mostraram preparo, mas faltaram conexão com o público, diferenças mais claras e discursos capazes de tirar a disputa da “água de chuchu”

Luma Silveirapor em
A dez dias da eleição, debate entre candidatos ao governo de Goiás termina sem empolgar eleitor
Luiz Cesar Bueno, Daniel Vilela, Wilder Morais e Marconi Perillo participaram do debate promovido pelo jornal O Popular nesta quinta-feira (24) | Foto: Reprodução/Youtube O Popular

Com apenas dez dias para o primeiro turno das eleições, o debate entre os candidatos ao Governo de Goiás realizado pelo O Popular e pela CBN Goiânia, nesta quinta-feira (24), terminou com uma sensação difícil de ignorar: faltou calor. Não necessariamente de conteúdo, já que os quatro candidatos apresentaram argumentos, números, críticas e algumas propostas. O problema foi outro: faltou capacidade de transformar tudo isso em uma conversa que despertasse o interesse de quem estava do outro lado da tela.

Em diversos momentos, a impressão era de que os candidatos cumpriam uma etapa obrigatória da campanha. Todos falaram, todos responderam, todos apresentaram realizações de governos anteriores ou promessas para uma eventual próxima gestão. Mas faltou paixão. Faltou aquele momento capaz de fazer o eleitor parar para prestar atenção, concordar, discordar ou simplesmente pensar: “essa proposta tem alguma coisa diferente”.

Wilder Morais (PL) apareceu como uma das surpresas do debate. O candidato conseguiu formular questionamentos de maneira mais direta e apresentou boa eloquência ao falar sobre as contas públicas, o desenvolvimento econômico, o turismo e a mineração. Ao tratar do possível déficit bilionário do Estado, por exemplo, levou a discussão para o aumento da atividade econômica como caminho para ampliar a arrecadação e financiar serviços públicos.

Luiz Cesar Bueno (PT) demonstrou preparo e recorreu com frequência a dados e informações para sustentar suas respostas. Também foi quem apresentou um conjunto mais amplo de propostas ao longo do debate, especialmente nas áreas de tecnologia, educação, segurança e modernização da máquina pública. Por outro lado, sua defesa recorrente do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou ocupando espaço significativo. Em uma eleição estadual, essa associação tão presente com o governo federal pode ser um elemento importante da forma como sua candidatura será percebida pelo eleitorado goiano.

Daniel Vilela (MDB), por sua vez, manteve uma linha bastante ligada à continuidade da administração iniciada por Ronaldo Caiado. Como vice-governador durante parte da gestão anterior, apresentou realizações do governo e procurou associar sua candidatura à manutenção e ampliação desse trabalho. A estratégia foi coerente com o discurso de continuidade, mas também contribuiu para que sua participação ficasse muito concentrada naquilo que já foi feito.

Marconi Perillo (PSDB) adotou uma postura mais voltada para o passado e para a comparação entre governos. Relembrou obras, programas e números de suas administrações e, em alguns momentos, partiu para o confronto direto com os adversários. Foi o caso das críticas a Daniel Vilela sobre dados de saúde e educação e das cobranças ao governo Lula em relação às apostas e ao endividamento das famílias.

O problema é que o eleitor parece estar recebendo há anos o mesmo repertório: “eu fiz”, “eu construí”, “eu vou fazer”, “no meu governo aconteceu”, “na gestão deles aconteceu”. A repetição desse modelo pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado pelos políticos: afastar quem já está cansado da política.

No fim, ficou a impressão de que os candidatos defendem objetivos muito semelhantes em temas como saúde, educação, segurança, emprego e desenvolvimento econômico. As diferenças existem, evidentemente, mas não foram apresentadas de uma maneira suficientemente clara e envolvente para produzir uma ruptura perceptível durante o debate.

E talvez esse seja o principal problema da política atualmente: não basta ter dados, experiência ou propostas. É preciso saber conversar com quem está em casa. É preciso explicar por que determinado problema importa na vida daquela pessoa e, principalmente, por que uma proposta é diferente da outra. Quando isso não acontece, a política vira uma sequência de números, realizações passadas e promessas futuras.

Nenhum dos quatro candidatos teve uma participação desastrosa. Também não houve um momento capaz de transformar completamente a percepção sobre a disputa. Houve preparo, experiência, questionamentos e propostas, mas faltou aquilo que faz um debate político deixar de ser apenas uma obrigação de campanha e se transformar em um acontecimento político. Faltou colocar as pessoas no centro da conversa.

Wilder Morais foi quem mais se aproximou disso em alguns momentos, especialmente quando falou de sua própria história e lembrou que foi uma criança que dependeu dos serviços públicos, inclusive da saúde. Ao trazer a própria experiência para o discurso, conseguiu fazer aquilo que faltou em boa parte do debate: mostrar que, antes de serem candidatos, existem pessoas que também viveram os problemas que hoje prometem enfrentar.

Luiz Cesar também tentou estabelecer essa conexão ao defender os servidores públicos e apresentar propostas voltadas diretamente a categorias e grupos que fazem parte da estrutura do Estado. Mas, novamente, em muitos momentos o discurso ficou preso aos dados, às ações de governo e à defesa do governo federal. Faltou transformar essas informações em histórias e situações nas quais o eleitor pudesse se reconhecer.

Porque talvez seja justamente isso que esteja faltando: fazer o cidadão pertencer àquela fala. Mostrar a mãe que precisa de uma vaga para o filho, o trabalhador que enfrenta horas no transporte, o produtor rural endividado, o jovem que precisa do primeiro emprego, o servidor que está na ponta atendendo a população, a pessoa que entra em uma unidade de saúde e espera por atendimento. Não basta dizer que haverá investimento em saúde; é preciso explicar como isso muda a vida de quem está esperando por atendimento. Não basta falar em tecnologia; é preciso mostrar o que muda para quem hoje perde horas tentando resolver um problema em uma repartição pública.

Quando a política fica restrita ao “eu fiz”, “eu vou fazer”, “nós construímos” e “eles não fizeram”, o cidadão desaparece da conversa. E talvez seja por isso que o debate tenha parecido tão morno. Os candidatos estavam falando sobre o Estado, sobre governos e sobre suas próprias trajetórias, mas poucas vezes estavam falando diretamente com as pessoas que vivem esse Estado.

No fim, ficou um debate tecnicamente correto, mas emocionalmente distante. Ninguém foi mal a ponto de comprometer sua candidatura, mas também ninguém conseguiu transformar a própria fala em um momento de conexão capaz de fazer o eleitor pensar sobre sua própria vida e enxergar ali uma razão para se interessar pela disputa.

Talvez esse seja o grande desafio para os próximos dias: menos “eu fiz”, menos “eu vou fazer” e mais “olha o que isso muda na sua vida”. Faltando apenas dez dias para a eleição, ainda há pouco tempo para conquistar a atenção de um eleitorado que já está exposto a uma avalanche de propaganda, promessas e discursos políticos.

Porque política não deveria ser apenas sobre quem governou, quem construiu ou quem promete governar. Deveria ser, antes de tudo, sobre quem está do outro lado recebendo o impacto dessas decisões.

E, nesse sentido, o debate desta quinta-feira terminou com uma sensação de água de chuchu: muita informação, algumas boas propostas, bons discursos, mas pouca temperatura e, principalmente, pouca gente no centro da conversa.

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