sábado, 26 de setembro de 2026
OPINIÃO

Daniel fazer seu grupo crer que vai ganhar no 1º turno pode complicar no 2º

Quando Caiado precisou de Vilela para se eleger senador, em 2014, não pôde contar, o que descamba para o enredo vivido por Iris em 1998, Cidinho em 2010 e Marconi em 2018, ter um exército desanimado com as pressões, que há 2.305 anos consegue o mesmo resultado, a derrota

Nilson Gomespor em
Daniel fazer seu grupo crer que vai ganhar no 1º turno pode complicar no 2º
Se Caiado deslanchasse nas pesquisas para presidente da República, ficaria nos Estados mais populosos fazendo campanha e o deixaria em Goiás para se virar nos 15+15. Portanto, o que fosse bom para Caiado seria péssimo para Daniel - Foto: Divulgação

Há 23 séculos, Pirro, rei de onde hoje é a Grécia, se notabilizou pela oposição à temível Roma. Após uma batalha, que ganhou com numerosas baixas, disse em 279 a.C.: “Mais uma vitória dessas e estaremos perdidos”. É o caso de Daniel Vilela (MDB), governador que tenta a reeleição. Até agora, tudo o que quis, teve. Xingou Ronaldo Caiado até ser convidado para o grupo. Como vice, queria saltitar de evento em evento representando o governo para aparecer. Caiado consentiu. Quis ser o candidato de Caiado à sucessão. Conseguiu. Se Caiado deslanchasse nas pesquisas para presidente da República, ficaria nos Estados mais populosos fazendo campanha e o deixaria em Goiás para se virar nos 15+15. Portanto, o que fosse bom para Caiado seria péssimo para Daniel.

Não se sabe qual das macumbas deu certo e o certo é que nem o discurso da segurança, nem o grande prestígio no agro, nem a expertise e a biografia adiantaram, Caiado está em 4º lugar e só um milagre de Roque Santeiro mudaria o quadro. Então, mais um ponto para Daniel, que pediu para Caiado ficar em Goiás se dedicando à disputa estadual. Foi atendido. Bateu o pé para ter quatro senatoriáveis, não só dois, como Ronaldo e Gracinha Caiado queriam. Atenderam a mais um capricho de Daniel. As manchetes da vez, pagas a torto e a direito em blogs de tudo quanto é biboca, fazem seus aliados acreditarem que Daniel terá o mesmo destino de Caiado e vai decidir a eleição no 1º turno. E se der errado?

Caso haja 2º turno, ter sido o 1º no 1º turno será o 1º passo rumo à derrota

Caso haja 2º turno, ter sido o 1º no 1º turno será o 1º passo rumo à derrota. Logo na noite do 1º domingo de outubro, quando saírem as listas dos eleitos a deputado estadual e federal, as cobranças sobre Daniel vão se transformar em ódio. Sua aliança tem cerca de 500 candidatos proporcionais e, em perspectiva otimista, uns 40 serão eleitos, 10 à Câmara dos Deputados, 30 à Assembleia Legislativa. Os demais 460 estarão endividados e sem mandatos. O impulso inicial é partir para cima do governador querendo cargo e dinheiro, muito dinheiro, um poço sem fundo de tanto dinheiro. Tolice dizer que governador não é pródigo em ambos, pois os cofres do governo estão mais cheios que os bueiros de Goiânia. Cargo comissionado ali não falta para o grupo, afinal, são 10 mil no Estado, mais de 6 mil na Assembleia, 20 mil nas 246 prefeituras e 246 câmaras, além dos fornecedores e prestadores de serviço.

Os 460 vão ficar diuturnamente na cola de Daniel

Os 460 vão ficar diuturnamente na cola de Daniel e ainda mais os outros 40, os que ganharam nas urnas, pois não há um líder genuíno em qualquer dos 12 partidos do grupo, é tudo resolvido na máquina, não existe voto grátis, o que não custa dinheiro vivo também morre numa nota. Além deles, os majoritários derrotados também vão virar sarnas incansáveis na pele de Daniel. São 12 tentando o Senado, os quatro candidatos titulares e seus oito suplentes. Há duas vagas, porém, nem nos mais dourados sonhos do governo ele será mais que um. Se tudo continuar róseo para o governador-tampão, elege um, na verdade, uma, a favorita Gracinha Caiado. Os outros três irão atrás de Daniel feito bala, mais rápidos que o robô que tirou de Usain Bolt o recorde dos 100 metros. Um deles, Vanderlan Cardoso (PSD), ficou ricaço no eixo Rondônia-Roraima, e comparados a ele os outros dois, Gustavo Mendanha (PRD) e Zacharias Calil (MDB), são pobretões. Perderam? Bora pra porta do Palácio atrás de notas vivas de reais.

Daniel não tem escapatória. Se não derramar dinheiro para esses 400 e tantos atolados em débitos, eles simplesmente ficarão fora de sua campanha. O mínimo que podem fazer favorável ao governador é cruzar os braços. A maioria esmagadora vai para o adversário no 2º turno descontar no companheiro do 1º. É uma maioria que esmaga, mesmo. Nenhum deles, no entanto, vai fazer mais falta a Daniel que o casal Caiado. Não é segredo para ninguém, muito menos para o pessoal da cúpula, que a campanha de Gracinha vem sendo sabotada por elementos do governo. Como O HOJE publicou, ela é favorita, mas, quem está na chuva de traições dos vilelistas é para se afogar em desculpas. Experiente que só ele, Ronaldo Caiado soube ontem o que Daniel vai almoçar amanhã, pois ele, Ronaldo Caiado, vai jantar Daniel é no 2º turno, caso a falta de empenho dos vilelistas se traduza em vicissitudes para a ex-primeira-dama.

 

Existiria algo pior para Daniel que os 500 deputáveis no batente da sua janela?

Daniel fazer seu grupo crer que vai ganhar no 1º turno pode complicar no 2º
Sim. Existe algo pior. É o exército de Pirro se sentir ferido de tal forma que os triunfos nas batalhas serem tão doídos e antecederem o fracasso na guerra – Foto: divulgação

Existiria algo pior para Daniel que os 500 deputáveis no batente da sua janela pedindo dinheiro e o casal Caiado viajando pelo Brasil da 1ª segunda-feira de outubro até o último domingo fazendo campanha para Flávio Bolsonaro (PL) se eleger presidente? Sim. Existe algo pior. É o exército de Pirro se sentir ferido de tal forma que os triunfos nas batalhas serem tão doídos e antecederem o fracasso na guerra. Quando os 200 (fala-se até em 230) prefeitos e seus cônjuges, os quase 2 mil vereadores, os mil secretários, a chusma de ex-detentores de mandatos municipais e os 36 mil ocupantes de cargos comissionais perceberem que o tigrinho perdeu as presas e as garras, aí, ninguém segura a mão de quem vai para o precipício.

Parece um pesadelo. Não é. É a real politik. Ocorreu com Iris Rezende em 1998 e olhe que é até pecado comparar Daniel a um dos raros goianos da política que realmente tiveram liderança popular. Ocorreu com o próprio Caiado em 1994 e observe que é outro líder, no caso, classista, revelou-se bom de voto e de gestão. Ambos lideraram até quase o fim e foi o fim, mesmo. Iris ficou em 2º; Caiado, em 3º. Ah, mas governador de Goiás sabe usar as riquezas da Secretaria da Fazenda e sempre faz o sucessor. Sempre, não. Em 1982, Ary Valadão não fez o sucessor. Em 1986, Onofre Quinan e Iris não fizeram o sucessor. Em 1990, Henrique Santillo não fez o sucessor. Em 1998, Maguito Vilela não fez o sucessor. Em 2010, Cidinho Rodrigues não fez o sucessor. Em 2018, Marconi Perillo e José Éliton não fizeram o sucessor. Os queridinhos do governador de plantão só ganharam em 1994 (Iris elegeu Maguito) e a si mesmos (Marconi Perillo e Caiado).

O exército de Pirro vai de cabeça baixa para o 2º turno

Todos os citados acima escreveram o roteiro que hoje os partidários de Daniel supõem ser inalcançável pelos adversários. O exército de Pirro vai de cabeça baixa para o 2º turno. Iris tinha em 1998 os mesmos batalhões que batem continência para Daniel. Vendo que Marconi iria atropelar o imbatível Iris, a soldadesca marchou para outro rumo. Zé Eliton também contava com trocentos prefeitos, milhares de vereadores etc. etc.. Terminou em 3º lugar. Aqueles servidores obrigados a encher o carro de adesivo, a balançar bandeira à tardinha-noite e nos fins de semana, a colocar a foto do indigitado em seu perfil do WhatsApp, a postar agendas e fotos em suas mídias sociais, esses trabalhadores vão se vingar nas urnas no 1º turno e nelas e nas ruas no 2º.

Se perder o apoio de Ronaldo e Gracinha, Daniel ficará a pé

Se perder o apoio de Ronaldo e Gracinha Caiado, o que está se desenhando, Daniel ficará mais a pé que quem atrasa a 3ª prestação do carro financiado. Seu partido, o MDB, não reservou sequer R$ 1 centavo para a campanha de Caiado a presidente, não lhe abriu sequer um diretório regional, não lhe deu qualquer apoio. Não é de hoje. Em 2014, quando Daniel foi candidato a deputado, fez esforço algum para Caiado ser senador. A Prefeitura de Aparecida, então comandada por seu pai, Maguito Vilela, teve uma rotina normal, o que é correto do ponto de vista jurídico e uma lástima no âmbito político. Pedido de voto, mesmo, apenas para o filho, nada para Iris governador nem Caiado senador, apesar de Ronaldo ter sido fundamental na vitória de Maguito para prefeito em 2008. Então, o que Caiado deve a Daniel? Nada. Daniel é que lhe deve o cargo de vice e o de governador por nove meses. Nem sempre uma gestão inteira faz nascer algo que preste. Às vezes, pare apenas a ingratidão que não para. (Especial para O HOJE)

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