Rejeição às apostas on-line atinge quase 90% dos brasileiros
Estudo da USP estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025
Quase 90% da população brasileira considera prejudicial à sociedade a disseminação das apostas on-line, conhecidas como bets. É o que aponta pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada em setembro de 2026 com 5.015 pessoas. O levantamento mostra também que 75% dos entrevistados defendem a proibição total ou parcial das plataformas.
Segundo a pesquisa, 88,5% dos entrevistados consideram que as bets trazem mais prejuízos ou somente prejuízos à sociedade. Outros dados mostram que 81% concordam totalmente que as empresas do setor deveriam pagar mais impostos e 84% discordam totalmente da ideia de que as apostas podem ser consideradas uma forma de investimento ou complemento de renda.
Quando questionados sobre quem seria o principal responsável pela disseminação das apostas on-line, 36% apontaram o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 25,4% citaram o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e 16,5% atribuíram a responsabilidade ao Congresso Nacional.
Impacto na economia e no consumo
O número de brasileiros que já apostaram em bets chegou a 43,8 milhões no fim de agosto de 2026, o equivalente a 27% da população adulta, segundo dados do Ministério da Fazenda obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.
Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), estima que as apostas reduziram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões a atividade econômica brasileira em 2025. O valor corresponde a uma redução estimada de 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
O estudo também utiliza uma estimativa anterior segundo a qual a transferência líquida das famílias para as plataformas de apostas, considerando o valor apostado menos os prêmios recebidos, chegou a R$ 62,5 bilhões em 2025.
A economista Greice Guerra explica que esse fenômeno pode pressionar o orçamento das famílias e afetar o consumo “Aposta não é investimento, é entretenimento. Esse entretenimento está endividando as pessoas e isso é muito preocupante. Porque além de agravar a situação das famílias, retira a possibilidade de consumo”, afirma.
Em Goiás, o Sindicato do Comércio Varejista (Sindilojas-GO) relaciona a retração nas vendas ao redirecionamento de parte do orçamento das famílias para as plataformas de apostas.
O economista Pedro Henrique Evangelista, professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia que uma eventual proibição poderia fazer com que parte desses recursos voltasse a circular em outros setores da economia “Se R$ 62 bilhões estão indo para o consumo específico desses bens e eu proíbo as casas de aposta, consequentemente esses recursos voltam para a atividade econômica, eles vão voltar para o comércio, vão voltar para o serviço”, pontua.
Evangelista também considera que a proibição não necessariamente eliminaria as plataformas clandestinas: “As plataformas clandestinas já existiam antes, elas vão continuar existindo. Passa a ser um mercado ilegal, como outros, e aí cabe ao governo criar mecanismos para suprimir”.
Impactos na saúde e entre jovens
Os impactos econômicos se somam aos efeitos associados à saúde. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões por ano o custo relacionado aos danos à saúde associados às apostas e aos jogos de azar. O cálculo inclui custos relacionados a depressão, suicídio e tratamentos de saúde. O próprio estudo ressalta que, diante das limitações das evidências disponíveis, os valores relacionados a depressão e suicídio são associados ao jogo problemático, não sendo possível afirmar que todos esses casos foram causados diretamente pelas apostas.
A psicóloga Kelyane Olanda alerta para a mudança de comportamento quando a aposta deixa de ser apenas uma atividade recreativa “O problema surge quando as apostas passam a funcionar como uma fonte de recompensa imediata”, explica.
A presença das apostas entre estudantes também aparece em levantamentos recentes. Pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info aponta que 23,7% dos estudantes do Centro-Oeste entrevistados já tiveram contato com apostas on-line. O levantamento ouviu 1.912 alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio entre agosto e setembro de 2026. O índice coloca a região na segunda posição entre as cinco regiões brasileiras, atrás do Nordeste, que registrou 25,4%.
Governo discute mudanças nas bets
O governo federal discute novas medidas para restringir o funcionamento das plataformas de apostas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido mudanças no setor e classificou as bets como uma “doença” em manifestações recentes sobre o tema.
Entre as alternativas discutidas pelo governo estão novas restrições à publicidade, medidas contra cassinos virtuais e, em uma das possibilidades analisadas, a proibição das apostas on-line. As propostas ainda estavam em discussão em setembro de 2026.
A mudança de posição ocorre depois de o mercado de apostas ter sido regulamentado pelo governo federal. O debate atual envolve também os efeitos econômicos da atividade, a publicidade do setor, o financiamento de clubes esportivos e as medidas de proteção aos usuários.
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.